quinta-feira, 31 de maio de 2012

Olé

Sevilha não se modernizou, não vi nenhuma periguete de coxa de fora, poucas pessoas usam tênis ESTÁ DIFÍCIL viajar; por isso, quando vou tirar umas férias, penso muito na hora de decidir para onde vou. Tirando Paris, claro, meus critérios são: 1 - não vou a lugares que estão na moda. 2 - só viajo fora de estação, quando as cidades estão mais vazias, para não ter que ver os ônibus de turistas tirando fotos com celulares. 3 - viagens para mim são aquelas em que posso arejar a cabeça e ver coisas bonitas, sem obrigações de "não pode deixar de". O "não pode deixar de" acaba com qualquer viagem, aliás, com qualquer vida. Por isso gosto de lugares não globalizados, onde não existem as Ralph Lauren, Prada e Vuitton da vida. Não que eu não goste de comprar; até compro (com moderação), mas esse, para mim, não é um item fundamental. 4 - dou uma pesquisada básica sobre a culinária local, pois adoro comer, mas nunca fui ao El Bulli, quando ele existia; reservar um restaurante com seis meses de antecedência, para contar que fui, nem pensar. Por essa razão, nunca tive vontade de conhecer Bolívia, Cuba, Viena, Canadá, nem os países escandinavos, mesmo sabendo que o restaurante cotado em primeiro lugar no mundo é dinamarquês, o Noma. E detesto cidades onde as hamburguerias são ostensivas, ou que os restaurantes sejam conhecidos pelos nomes dos seus chefs. Seguindo esses critérios, estive em Sevilha no final de abril e fiquei maravilhada. Conheci a cidade há muitos anos, tantos que não quero nem pensar, e está tudo igual: Sevilha não se modernizou, não vi nenhuma periguete de coxa de fora, pouquíssimas pessoas usam tênis, as carruagens, com três, quatro ou cinco cavalos, todos da mesma cor, continuam nas ruas, todos se vestem discretamente, e vejo isso como fruto de uma cultura muito sólida, que não se deixou seduzir pelas modernidades. É uma cidade viva, cheia de cores, alegre; como era primavera, os canteiros de todas as ruas estavam floridos, e as árvores (também nas ruas), cheias de laranjas maduras -aliás, as melhores laranjas do mundo, só comparáveis às do Marrocos. Havia turistas, sim, mas não em bandos barulhentos; eram tão discretos que nem pareciam turistas. Em Sevilha não existe o frenesi das compras, pois as lojas só vendem o que tem a ver com a cultura local: vestidos de sevilhanas longos, com muitos babados, pentes enormes para segurar as mantilhas, xales com franjas de todas as cores, castanholas, sapatos para dançar o flamenco, e mais ou menos só. Sem a pressão do consumo, dá para apreciar a cidade com calma, tomar um "fino" (xerez) a qualquer hora, em qualquer bar de tapas, e passear pela cidade a pé. Almoça-se às 2h30 da tarde, depois do almoço se faz a siesta, como todos os sevilhanos, e jantar, só depois das dez, sem correria. Ninguém tem pressa em Sevilha. Em nenhum lugar, a nenhuma hora, se ouve um som tipo bate-estaca ou música de elevador; a que se escuta é sempre a local, o que ajuda a entrar no clima. Como fui na semana da "feria", festa tradicional da cidade, havia mulheres de todas as idades, dos 3 aos 90, vestidas de Carmen, personagem da ópera de Bizet, que era sevilhana; nas lojas, nos restaurantes, nas igrejas, de manhã, à tarde, à noite. E como se come bem em Sevilha, mas como se come bem. Cada um tem seu paladar, e o meu, depois dessa viagem, virou totalmente espanhol. No momento, com toda a crise, a Espanha é o lugar onde melhor se come no mundo, e muito mais barato que no Brasil. Sevilha, com bons amigos, é uma fuga desse mundo caótico em que vivemos, e na volta você até pensa que foi tudo um sonho. E sabe por que -e principalmente- Sevilha é essa maravilha? Porque não está na moda.Por: Danuza Leão

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A VERDADEIRA NUDEZ

Alguns leitores perguntam como acontecem tantas coisas em minha vida, como tenho tantas histórias para contar. Na verdade só consigo captar e contar uma parte muito pequena do que está acontecendo, o resto passa despercebido. Mesmo assim, esforço-me para tentar não ser um simples assistente ou personagem do enredo que me cerca. Pequenas rotinas, comportamentos robotizados, teses definitivas causam-me espanto. Costumo querer saber por que, como, onde, quando se originaram regras, conceitos, relacionamentos, religiões, paradigmas. Acredito em vias alternativas e fico atento ao lado B dos acontecimentos, aquilo que não é percebido se não houver sensibilidade, curiosidade, treinamento e vontade de olhar em outras direções. É por estes caminhos que surgem novas histórias e por onde podemos atuar pró - ativamente por um mundo melhor. Um famoso mestre zen budista havia sido convidado para uma festa. Conforme sua forma de viver, compareceu vestindo sua modesta roupa, gasta pelo tempo e mal cuidada. O anfitrião, não o reconhecendo, expulsou-o dali. O mestre voltou para casa, trocou de roupa, vestiu um manto bordado com pedrarias e retornou para a festa. Desta vez foi recebido com toda a pompa e conduzido a um local especial reservado para autoridades. Lá chegando, tirou seu manto e colocou-o cuidadosamente na cadeira. “Não tenho dúvidas de que esperavam pelo meu manto, já que não me deixaram entrar pela porta na primeira vez que vim”. Virou as costas e foi embora. O manto é uma fachada. Portas abrem ou fecham conforme o estilo dos mantos. Quantos mantos precisamos vestir ao longo da vida? Muitos. Alguns por vontade própria, outros por imposição. Seja como for, os trajamos. Depois de um tempo, os mantos podem colar no corpo e não se consegue mais retirá-los, nem mesmo viver sem eles. Outras vezes os mantos ganham vida própria e passam a ditar os trâmites de quem os usa. Enquanto alguns precisam da roupa para freqüentar determinados locais, outros só conseguem entrar se ficarem quase nus, utilizando o corpo como degrau para a fama e ganhar um bom dinheiro. Até a mais insignificante das criaturas, tira a roupa, faz uma pose erótica e se transforma em uma deusa, bastando apenas alguns retoquezinhos no photoshop. Banalizaram a nudez a tal ponto de não causar mais espanto, não escandalizar e até mesmo, não excitar como deveria. Por incrível que pareça, alguns nus são olhados com total indiferença. Viraram fachada. Ninguém se expõe verdadeiramente estando nu. O cantor Ney Matogrosso, confessou sentir-se muito mais envergonhado durante uma entrevista, onde se encontrava completamente vestido e revelando sua intimidade, do que cantando e rebolando semi nu no palco, onde representava um personagem. Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje em dia, em conseguir penetrar fachadas alheias e romper as próprias. Não é fácil, exige cuidado. Quando alguém nos abre a porta e permite ultrapassar as aparências, estamos pisando em local sagrado. É preciso tirar os sapatos e estar ciente de nossa responsabilidade. Para se mostrar por inteiro não é preciso ficar nu, é necessário despir a alma e se entregar. Sem medo de correr riscos, mostrar pequenos defeitos, contar segredos íntimos ou expor fraquezas. Somos muito mais que fachadas. Reduzir-se a um simples manto ou nudez é uma evasão de si próprio, uma alienação de seu eu. Contraditórios ou não, somos uma pluralidade, um infinito a descobrir. O segredo para abrir portas não é se mostrar por fora, mas sim, olhar para dentro. É assim que ficamos mais bonitos, íntegros e conseguimos enxergar além das aparências. Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos.Por: Ildo Meyer

segunda-feira, 28 de maio de 2012

AVE MARIA DE GOUNOD EM RITMO DE SAMBA

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COMITÊS DE DEPURAÇÃO

IMAGINE PARIS entre 1940 e 1944. Ocupação nazista. Agora se pergunte: onde estavam os artistas e intelectuais, franceses ou não, naquele momento? Estes que gostam de posar de arautos da ética, da transparência e do bem. Claro, houve a "resistência francesa". Se contarmos o número de pessoas cujos pais e avós foram da Resistência Francesa, não teremos franceses suficientes para completar a cota dos resistentes de cada família. Provavelmente, os resistentes de fato não enchiam dois ônibus. A Resistência Francesa é um dos maiores mitos modernos, assim como a dinamarquesa, a sueca, a holandesa e outras. A falsa coragem não é privilégio de nenhum povo. A maioria conviveu com o nazismo. E conviveria de novo. Raros são os que se revoltam contra situações assim, porque simplesmente temos medo e somos seletivos em nossas prioridades morais -quando existem. Em situações assim, pensamos primeiro no café da manhã, no almoço e na janta. No emprego, no cotidiano, nas vantagens que podemos ter, dadas as condições em que vivemos. Danem-se as vítimas. O século 20 criou uma das maiores mentiras da humanidade: a solidariedade abstrata. Aquela que se presta direto do Facebook ou do cardápio orgânico. Não quero dizer que "tudo bem ser covarde", desculpando nossos atos pela banalização do medo. Basta um só corajoso para a covardia revelar sua face vergonhosa. O que me espanta é a mentira moral que se conta negando a epidemia de covardia em situações como essas. E gente "chique intelectualmente" adora esse tipo de farsa. Depois de passar o dilúvio, aí aparecem milhares de "resistentes" corajosos para colher os louros que não merecem. Onde estavam Sartre, Beauvoir, Camus, Picasso, Dalí, Mauriac, Colette, Malraux, Gide e outros luminares naqueles anos? Se você quer saber, leia o maravilhoso livro de Alan Riding, "Paris, A Festa Continuou - A Vida Cultural durante a Ocupação Nazista, 1940-4", publicado pela Cia. das Letras. Trata-se de um painel definitivo do cenário intelectual e artístico da época, revelando detalhes do convívio "pacífico" da casta erudita francesa (e de estrangeiros que lá viviam) com a ocupação alemã. Não se tratam dos reconhecidos fascistas e antissemitas franceses como Louis-Ferdinand Céline, o grande escritor e médico. Mas sim daqueles que ensaiaram uma resistência cultural tímida (que os alemães nunca levaram de fato a sério) a troco de permanecer vivendo suas vidas comuns de intelectuais e artistas "comprometidos com um mundo melhor" (risadas?). Até o mercado das artes plásticas viveu um crescimento tímido, mas real, na época. Não eram "colabôs" de fato ("colaboracionistas", termo usado na França para quem apoiou a ocupação nazista), apenas faziam teatro, escreviam livros, pintavam quadros, faziam música, bebiam vinho. E quando os Aliados libertaram a França, logo se apressaram em "provar" sua condição de membros da resistência "cuspindo" na cara de gente que, muitas vezes, os ajudou porque eram de fato "colabôs" e tinham acesso a favores nazistas. Os "comités d' épuration" (comitês de depuração) se multiplicaram no pós-guerra e visavam estabelecer a verdade de quem era ou não "colabô". Os alemães sabiam que, mantendo os salões, os cabarés, as "brasseries", os cafés, as livrarias, as galerias de arte e os teatros em atividade, ajudariam a manter os franceses e estrangeiros cultos "ocupados". Todo mundo sabe que o risco para regimes como o nazista está em quem pega em armas, e não em quem fala delas. Por que a vergonha da casta artística e intelectual manchou tanto o nome da França? Porque se esperava mais deles. Segundo Riding, o trauma francês com relação à covardia daqueles que se diziam combatentes do pensamento e da arte pode ter sido causada pelo fato de que, desde a Revolução Francesa de 1789, a França "é uma população educada para reverenciar ideias... Alguns consideram este um dos legados da revolução de 1789, a noção inebriante de que uma ideia traduzida em ação pode produzir uma mudança súbita, radical e idealizada". Ledo engano. Por:Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

RELIGIOSIDADE OU ESPIRITUALIDADE

“Imagine que não há paraíso, nenhum inferno abaixo de nós, e acima de nós apenas o céu, imagine todas as pessoas vivendo para o hoje. Imagine não existir religiões, países, nada pelo que lutar ou morrer, imagine todas as pessoas vivendo em paz...” Para mim isso é um muito mais que uma música de John Lennon... Quantas “guerras santas” (existe guerra santa?)... Provavelmente matou-se mais em nome de Deus do que qualquer outro motivo; quantas ideologias religiosas que serviram e servem de estopim para separar, distanciar pessoas somente por ter um credo diferente. Veja esse episódio envolvendo os jogadores do Santos numa visita ao Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com deficiência cerebral, para entregar ovos de Páscoa. Uma parte dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e preferiram ficar dentro do ônibus do clube, sob a alegação que são evangélicos. Criticado, como os demais do grupo resistente, Robinho exigiu: "é preciso que respeitem a religião da gente". Ed René Kivitz é teólogo, mestre, escritor e pastor. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, evangélico e santista desde pequenino. Fez as seguintes ponderações: “Os meninos da Vila pisaram na bola, mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos, fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros, por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião”. E continua dizendo ele que “a religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais da Bíblia e de cada uma das tradições de fé”. Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra a prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica ou católica, você está discutindo religião. O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus. Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar - você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental. Estou relatando um fato concreto acontecido dias atrás, triste é saber pela história que isso se repete por séculos e séculos da humanidade. Às vezes fico pensando quais as razões que fazem os homens construir os mundos imaginários da religião. Se somos animais, porque então criamos as religiões e aí caímos nas armadilhas da neurose e da angústia? Criamos as religiões e por intermédio delas, valores, mandamentos, dogmas, leis que nos proíbem, que castram nossos desejos, vontades. É como no dizer de Roberto Carlos. “Tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda”. Talvez tenha razão Freud, ao expressa que a intenção de que fôssemos felizes não se acha inscrita no plano da criação. Envelhecemos, adoecemos, sentimos dores, nossos corpos se tornam flácidos, a beleza se vai, os órgãos sexuais não mais respondem aos estímulos do odor, da vista, do tato e a morte se aproxima inexorável. Não há desejo que possa alterar o caminhar do princípio da realidade. Provavelmente criamos a religião por sermos o único animal que sabe que vai morrer. E em meio a essa situação sem saída, a imaginação cria mecanismos de consolo e fuga por meio dos quais o homem pretende encontrar, na fantasia, o prazer que a realidade lhe nega. Evidentemente, nada mais que ilusões e narcóticos destinados a tornar nosso dia-a-dia menos miserável. E o que têm feito algumas de nossas atuais religiões se não explorar ainda mais o pobre e já oprimido povo? Lembro-me dos escritos do Profeta Ezequiel: “Eles enganam meu povo dizendo que tudo vai bem quando nada vai bem. Pretendem esconder as rachaduras na parede com uma mão de cal...”. (Ez: 13,10). Ele diz isso alertando o povo oprimido quando explorado pelas Religiões/Estados que usavam os símbolos sagrados para uso econômico. Será que algumas de nossas religiões são sucessoras do Deus dos Profetas? Sobre guerras santas, opressão, comércio da fé... Penso que muito depende daqueles que manipulam os símbolos sagrados. A religião pode ser usada para iluminar ou para cegar, para libertar ou escravizar, e a Bíblia se referia a esse Deus de o Deus dos oprimidos. “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo por causa dos seus opressores”. (Êxodo: 3,7). Assim era o Deus e a religião dos antigos profetas. E o que se tornaram algumas de nossas religiões se não apenas negócios? E você que continua pregando placa de igrejas já refletiu a respeito de religiosidade e espiritualidade? Lembre-se que isso é assim para mim. Por:Beto Colombo 05/07/2010

domingo, 27 de maio de 2012

Entenda por que matar filhotes beneficia espécies animais

Leões estão entre as espécies que cometem infanticídio O infanticídio pode ser um instrumento eficiente para a sobrevivência de determinadas espécies de animais, indicam um crescente número de estudos. A ideia é chocante do ponto de vista humano, mas a realidade é que para muitos filhotes de animais, a maior ameaça à sua sobrevivência vem de sua própria espécie. Leia Também Macacos reconhecem 'amigos' em fotos, diz estudo Macaco se lava com urina para atrair fêmea, diz pesquisa Macacas ensinam filhotes a passar 'fio dental', diz estudo Tópicos relacionados Ciência e Tecnologia, Natureza "Não é como um ato de predação, que é silencioso", disse o especialista em leões Craig Packer, da University of Minnesota, em Falcon Heights, Estados Unidos. "Durante o infanticídio há rugidos, é violento e muito perturbador", ele diz, descrevendo como leões adultos matam filhotes. "Eles mordem (os filhotes) atrás da cabeça e na nuca, esmagando seus abdomens." O infanticídio tende a ser pouco estudado enquanto recurso para garantir a sobrevivência dos mais fortes em uma determinada espécie. Entretanto, há registros de que ele acontece entre roedores e primatas, peixes, insetos e anfíbios. Vantagens múltiplas Segundo estudos, o infanticídio pode trazer benefícios às espécies animais que o cometem, como maiores oportunidades para que o infanticida se reproduza e mesmo alimentação (quando o infanticida come o filhote morto). Matar um filhote é também uma maneira de evitar que seus pais tenham que investir energia para cuidar da cria. O infanticídio é com frequência cometido por machos adultos. Normalmente, a proteção que um filhote recebe do pai cumpre um papel importante em assegurar a sobrevivência do bebê. Mas quando novos machos entram em cena, tudo pode mudar. Os machos recém-chegados tendem a derrubar os machos pais de suas posições no topo da hierarquia do grupo. Se eles conseguem ferir, expulsar ou até matar um macho que ocupava uma posição dominante no grupo, tomando o seu lugar, os filhotes do antigo líder passam a correr grande risco. Isso acontece porque machos recém-chegados com frequência têm apenas um objetivo: ter seus próprios filhotes com a mãe. Em sociedades de leões, por exemplo, matar filhotes faz com que suas mães voltem a ficar férteis mais rápido, aumentando a chance de que os novos machos se reproduzam. E se não matam filhotes alheios, correm o risco de que os filhotes do antigo líder cresçam e deem o seu próprio golpe. Estratégia feminina Mas o infanticídio não é cometido apenas por animais machos. Fêmeas também o praticam, disse o zoólogo Tim Clutton-Brock, da University of Cambridge, na Inglaterra. "Fêmeas matam os filhotes umas das outras com a mesma prontidão", ele disse. Ratas matam as crias de outras fêmeas para se alimentar e se apoderam dos ninhos para criar seus próprios filhotes. Ratas também matam sua própria cria se os filhotes têm deformidades ou ferimentos. Isso permite que elas concentrem seus recursos em outros filhotes. O infanticídio também pode aumentar o sucesso reprodutivo de um animal, reduzindo a competição para os filhotes do infanticida. Besouros fêmeas matam as larvas de suas rivais para assegurar que suas próprias larvas sobrevivam. Esse comportamento foi observado também em mais de 40 espécies de primatas, mas em muitas dessas espécies as fêmeas usam estratégias para reduzir os riscos de que ele ocorra - segundo um estudo publicado na revista científica Journal of Theoretical Biology. A saída utilizada por essas fêmeas é o acasalamento com parceiros múltiplos para gerar o que os especialistas chamaram de "confusão de paternidade". Ou seja, os machos não sabem quem é o o pai do filhote. Isso dá aos filhotes maiores chances de sobreviver quando novos machos tentam se integrar no grupo. "Em um grupo com múltiplos machos, em primatas como os babuínos, se dois machos se acasalam com a mesma fêmea e nenhum sabe quem é o pai do filhote, isso reduz o risco de infanticídio", disse Clutton-Brock. Suricatos Quando há mudanças na hierarquia de dominância, "o infanticídio ocorre apenas quando a chance de o assassino ser o pai do próximo filhote é alta", disse o estudo. Os suricatos (mamíferos pequenos e altamente sociáveis que habitam regiões inóspitas) se reproduzem de forma cooperativa, ou seja, se um macho alfa e uma fêmea alfa se reproduzem, outros integrantes do grupo em posições de subordinação ajudam a criar os filhotes do casal alfa. Fêmeas dominantes matam filhotes de subordinados e os próprios subordinados, se tiverem cria própria, podem também matar o filhote de uma fêmea dominante. Suricatos machos, no entanto, não sujam suas patas com o sangue de filhotes. Clutton-Brock explicou: "Suricatos machos não apresentam (comportamento) infanticida porque assim que (as fêmeas) têm filhotes, ficam prontas para se acasalar novamente. Então, matar crianças não interessa aos machos". Uma situação que contrasta bastante com a dos leões, onde as fêmeas passam quase 18 meses amamentando após o nascimento dos filhotes. Sabe-se que machos nômades, ou coalizões de machos competindo pelo controle de matilhas, matam filhotes com o objetivo de fazer com que a mãe volte a ficar fértil. Desta forma, podem se reproduzir com ela. 
 Anna-Louise Taylor BBC Nature News

Cotas raciais - quem ganha e quem perde

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu recentemente, por unanimidade, que a introdução de cotas raciais no acesso às universidades públicas federais não viola a Constituição da República, seguindo a linha adotada nos Estados Unidos há algumas décadas de introduzir "ações afirmativas" para corrigir injustiças feitas no passado. A decisão flexibiliza a ideia básica de que todos são iguais perante a lei, um dos grandes objetivos da Revolução Francesa. Ela se origina na visão de que é preciso aceitar a "responsabilidade histórica" dos malefícios causados pela escravidão e compensar, em parte, as vítimas e seus descendentes. A mesma ideia permeia negociações entre países, entre ex-colônias e as nações industrializadas, na área comercial e até nas negociações sobre o clima. Sucede que, de modo geral, "compensar" povos ou grupos sociais por violências, discriminações e até crimes cometidos no passado raramente ocorreu ao longo da História. Um bom exemplo é o verdadeiro "holocausto" resultante da destruição dos Impérios Inca e Asteca, na América Latina, ou até da destruição de Cartago pelos romanos, que nunca foram objeto de compensações. Se o fossem, a Espanha deveria estar compensando até hoje o que Hernán Cortez fez ao conquistar o México e destruir o Império Asteca. É perfeitamente aceitável e desejável que grupos discriminados, excluídos ou perseguidos devam ser objeto de tratamento especial pelos setores mais privilegiados da sociedade e do próprio Estado, por meio de assistência social, educação, saúde e criação de oportunidades. Contudo, simplificar a gravidade dos problemas econômicos e sociais que afligem parte da população brasileira, sobretudo os descendentes de escravos, estabelecendo cotas raciais para acesso às universidades públicas do País, parece-nos injustificado e contraprodutivo, porque revela uma falta de compreensão completa do papel que essas instituições de ensino representam. Universidades públicas e gratuitas atendem apenas a um terço dos estudantes que fazem curso superior no Brasil, que é uma rota importantíssima para a progressão social e o sucesso profissional. As demais universidades são pagas, o que prejudica a parte mais pobre da população estudantil. Essa é uma distorção evidente do sistema universitário do País. Mas o custo do ensino superior é tão elevado que apenas países ricos como a França, a Suécia ou a Alemanha podem oferecer ensino superior gratuito para todos. Não é o nosso caso. Essa é a razão por que existem vestibulares nas universidades públicas, onde a seleção era feita exclusivamente pelo mérito até recentemente. A decisão recente do Supremo Tribunal Federal deixa de reconhecer o mérito como único critério para admissão em universidades públicas. E abre caminho para a adoção de outras cotas, além das raciais, talvez, no futuro. Acontece que o sistema universitário tem sérios problemas de qualidade e desempenho, como bem o demonstra o resultado dos exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) - garantia da qualidade dos profissionais dessa área -, que reprova sistematicamente a maioria dos que se submetem a ele, o mesmo ocorrendo com os exames na área médica. Órgãos do governo como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, ou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, têm feito esforços para melhorar o desempenho das universidades brasileiras por meio de complexos processos de avaliação, que têm ajudado, mas não se mostraram suficientes. Esses são mecanismos externos às universidades. Na grande maioria delas, os esforços internos são precários em razão da falta de critérios e de empenho do Ministério da Educação, que escolhe os reitores, alguns dos quais, como os da Universidade de Brasília, iniciaram o processo de criação de cotas raciais como se esse fosse o principal problema das universidades e do ensino superior no Brasil. O populismo que domina muitas dessas universidades, há décadas, é a principal razão do baixo desempenho das universidades brasileiras na classificação mundial. Somente a Universidade de São Paulo (USP) conseguiu colocar-se entre as melhores 50 nesse ranking. O problema urgente das universidades brasileiras é, portanto, melhorar de nível, e não resolver problemas de discriminação racial ou corrigir "responsabilidades históricas", que só poderão ser solucionadas por meio do progresso econômico e educacional básico. O governo federal parece ter tomado consciência desse problema ao lançar o programa Ciência sem Fronteiras, que se propõe a enviar ao exterior, anualmente, milhares de estudantes universitários, imitando o que o Japão fez no século 19 ou a China no século 20 e foi a base da modernização e do rápido progresso desses países. Daí o desapontamento com a decisão da Suprema Corte não só por ter sido unânime, mas também por não ter sido objeto de uma tomada de posição de muitos intelectuais formadores de opinião, exceto notáveis exceções, como Eunice R. Durham, Simon Schwartzman, Demétrio Magnoli e poucos outros que se manifestaram sobre a inconveniência da decisão. O único aspecto positivo na decisão do Supremo Tribunal Federal foi o de que simplesmente aceitou a constitucionalidade das cotas raciais, cabendo aos reitores, em cada universidade, adotá-las e implementá-las. Há aqui uma oportunidade para que os professores mais esclarecidos assumam a liderança e se esforcem para manter elevado o nível de suas universidades sem descuidar de tornar o acesso pelo mérito mais democrático, e sem a adoção de cotas raciais, como algumas universidades estaduais de São Paulo estão fazendo.Por:José Goldemberg * PROFESSOR EMÉRITO DA USP, FOI MINISTRO DA EDUCAÇÃO

Cientistas identificam os mais antigos instrumentos musicais já encontrados

Flautas feitas de marfim e ossos de aves achadas na Alemanha teriam mais de 40 mil anos de idade Pesquisadores identificaram objetos que acreditam ser os mais antigos instrumentos musicais já descobertos pelo homem. As flautas, feitas de ossos de aves e marfim, foram encontradas em uma caverna no sul da Alemanha que contêm evidências de ocupação do homo sapiens. BBC/Reprodução Método usado para determinar idade das flautas foi o de identificação de carbono Os cientistas usaram o processo de identificação de carbono para determinar a idade das flautas, que teriam entre 42 mil e 43 mil anos. As descobertas foram publicadas no Journal of Human Evolution. A equipe liderada pelo professor Tom Higham, da Universidade de Oxford, comparou as flautas com ossos de animais encontrados na mesma profundidade em que os instrumentos foram encontrados. Com isso, foi possível determinar há quanto anos os objetos permaneceram na caverna de Geissenkloesterle. O professor Nick Conard, da Universidade de Tuebingen, que descobriu o até então mais antigo instrumento musical em 2009 - também flautas -, também participou das escavações. "Os resultados dão consistência à hipótese de que o rio Danúbio foi um corredor fundamental para o movimento de humanos e para o desenvolvimento tecnológico na Europa central há 50 mil anos atrás", disse. De acordo com os pesquisadores, os humanos teriam entrado na caverna antes de uma queda muito acentuada na temperatura, ocorrida entre 39 mil e 40 mil anos atrás. Antes, os cientistas achavam que a migração teria ocorrido depois deste evento. Ainda segundo Conard, a caverna de Geissenkloesterle "é uma das muitas da região onde foram encontradas exemplos importantes de ornamentos pessoais, arte figurativa, imagens mitológicas e instrumentos musicais". Especialistas dizem que instrumentos musicais eram usados para atividades de recreação ou rituais religiosos. Cientistas, porém, também dizem que a música pode ser um indicativo do comportamento de ancestrais da nossa espécie, que ajudou o homo sapiens a superar o Neanderthal - que se extinguiu na Europa há 30 mil anos.

sábado, 26 de maio de 2012

A FILOSOFIA PODE NOS CONDUZIR A FELICIDADE?

Leia a resposta do filósofo André Comte-Sponville a seguir. 


Filosofar é pensar sua vida e viver seu pensamento. 


Em que medida isso pode nos aproximar da felicidade? 


Ficando mais perto da verdade, nós nos libertamos de várias ilusões e esperanças tolas. 


Isso nos ajuda a amar a vida mais do que amar a felicidade, a verdade mais do que a fantasia, o amor mais do que a fé ou a esperança. 


Os maiores mestres são, a meu ver, Epicuro (de Samos, filósofo grego dos séculos IV e III a.C.), (Michel) Montaigne (filósofo francês do século XVI) e (Baruch) Spinoza (filósofo holandês do século XVII). 


Quanto a mim, já me expliquei longamente em meu Tratado do Desespero e da Beatitude e, de maneira mais resumida, em Felicidade, Desesperadamente. ... 


Tudo depende do que se entende por felicidade. 


Se você busca uma alegria contínua e soberana, ou mesmo a ausência total de sofrimento e angústia, certamente nunca será feliz. "Toda vida é sofrimento", dizia Buda. E tinha razão. 


A felicidade, se a entendemos como uma alegria completa, é apenas um sonho, que nos separa do contentamento verdadeiro. 


Em busca da felicidade absoluta, nós nos proibimos de viver as felicidades relativas e nos tornamos infelizes. 


Se, ao contrário, você entender como felicidade o fato de não ser infeliz ou simplesmente de poder desfrutar algumas alegrias, a felicidade não é impossível. 


E você será feliz somente por não ser triste. À exceção, claro, nos momentos mais difíceis da vida.

COMO RECONHECER UMA BOA AMIZADE?

Algum filósofo escreveu sobre como reconhecer uma boa amizade?




Sim, vários filósofos escreveram sobre o tema. 
Encontramos lições em tratados, em versos, em prosa. 
Confira o que escreveu Cícero. 


"É preciso escolher homens firmes, sólidos e constantes; mas a especie é rara e é difícil conhecê-los antes de experimentá-los. 
Ora, esta experiência só poderá ser feita dentro da amizade. 
Assim, a amizade precederá o julgamento; tornará, pois, impossível a experiência. 
É próprio de um homem prudente conter o primeiro ímpeto de seu afeto, como o de um coche, que usamos, e experimentar os amigos, como se experimenta um cavalo novo, afim de conhecer seu carater por todas as faces. 
Comumente um pouco de ouro basta para mostrar como é frágil a amizade de alguns; outros, que puderam resistir a um pouco de ouro, sucumbem diante de uma soma considerável. 
Se encontrarmos quem prefira a amizade ao dinheiro, onde achar aquele que não prefira as honras, as magistraturas, os comandos, o poder, a autoridade? 
Colocai de um lado todos esses bens, do outro os direitos da amizade, e contai os que se declaram por estes. 
A natureza humana é fraca para resistir à tentação do poder e, se para obtê-lo, precisarmos sacrificar um amigo, acreditamos que a falta se justifica pela grandeza do interesse. 
Muito dificilmente encontraremos amigos verdadeiros entre os homens que se ocupam dos negócios públicos ou que procuram honras. 
Onde está o homem que prefere à sua, a elevação de um amigo? 
E sem ir muito longe, porque a companhia na desgraça parece à maioria dos homens, um fardo pesado e penoso? 
Não é fácil encontrar quem consinta em repartir o infortúnio! 
Ennio disse com razão: ?O amigo fiel se reconhece nas infidelidades da sorte?. 
Entretanto duas coisas acusam a fraqueza e a leviandade de quase todos os homens: a arrogância na prosperidade e o abandono da infelicidade, ou melhor, desprezam-nos quando se acham numa situação feliz, ou nos abandonam quando nos encontramos em má situação."

COMO COMEÇAR O DIA?

Será que algum filósofo ou pensador escreveu sobre como começar o dia?


Há muitas passagens. 


Selecionamos uma de Marco Aurélio, de suas Meditações. 


Começa cada dia por dizer a ti próprio: hoje vou deparar com a intromissão,a ingratidão, a insolência, a deslealdade, a má-vontade e o egoísmo - todos devidos à ignorância por parte do ofensor sobre o que é o bem e o mal. 
Mas,pela minha parte, já há muito percebi a natureza do bem e a sua nobreza, a natureza do mal e a sua mesquinhez, e também a natureza do próprio culpado, que é meu irmão (não no sentido físico, mas como meu semelhante, igualmente dotado de razão e de uma parcela do divino); portanto nenhuma destas coisas me ofende, porque ninguém pode envolver-me naquilo que é degradante. 
Nem eu posso ficar zangado com o meu irmão ou entrar em conflito com ele; porque ele e eu nascemos para trabalhar juntos, como, de um homem, as duas mãos, os dois pés, as duas pálpebras ou os dentes de cima e de baixo. 
Criar dificuldades uns aos outros é contra as leis da Natureza - e o que é a irritação, ou a aversão, senão uma forma de criar dificuldades aos outros?

O QUE É RACIOCÍNIO?

Leia o que escreveu Aristóteles sobre o tema: 
Ora, o raciocínio é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, outras coisas diferentes se deduzem necessariamente das primeiras. (a) O raciocínio é uma "demonstração" quando as premissas das quais parte são verdadeiras e primeiras, ou quando o conhecimento que delas temos provém originariamente de premissas primeiras e verdadeiras: e, por outro lado (b), o raciocínio é "dialético" quando parte de opiniões geralmente aceitas. São "verdadeiras" e "primeiras" aquelas coisas nas quais acreditamos em virtude de nenhuma outra coisa que não seja elas próprias; pois, no tocante aos primeiros princípios da ciência, é descabido buscar mais além o porquê e as razões dos mesmos; cada um dos primeiros princípios deve impor a convicção da sua verdade em si mesmo e por si mesmo. São, por outro lado, opiniões "geralmente aceitas" aquelas que todo mundo admite, ou a maioria das pessoas, ou os filósofos em outras palavras: todos, ou a maioria, ou os mais notáveis e eminentes. O raciocínio (c) é "contencioso" ou "erístico" quando parte de opiniões que parecem ser geralmente aceitas, mas não o são realmente, ou, então, se apenas parece raciocinar a partir de opiniões que são ou parecem ser geralmente aceitas. Pois nem toda opinião que parece ser geralmente aceita o é na realidade. Com efeito, em nenhuma das opiniões que chamamos geralmente aceitas a ilusão é claramente visível, como acontece com os princípios dos argumentos contenciosos, nos quais a natureza da falácia é de uma evidência imediata, e em geral até mesmo para as pessoas de pouco entendimento. Assim, pois, dos argumentos erísticos que mencionamos, os primeiros merecem realmente ser chamados "raciocínios , mas aos segundos devemos reservar o nome de "raciocínios erísticos contenciosos", e não simplesmente "raciocínios', visto que parecem raciocinar, mas na realidade não o fazem. Mais ainda (d): além de todos os raciocínios que mencionamos existem os paralogismos ou falsos raciocínios, que partem de premissas peculiares às ciências especiais, como acontece, por exemplo, na geometria e em suas ciências irmãs. Com efeito, esta forma de raciocínio parece diferir das que indicamos acima; o homem que traça uma figura falsa raciocina a partir de coisas que nem são primeiras e verdadeiras, nem tampouco geralmente aceitas. Com efeito, o modo de proceder desse homem não se ajusta à definição; ele não pressupõe opiniões que sejam admitidas por todos, ou pela maioria, ou pelos filósofos - isto é, por todos, pela maioria ou pelos mais eminentes -, mas conduz o seu raciocínio com base em pressupostos que, embora apropriados à ciência em causa, não são verdadeiros; e seu paralogismo se fundamenta ou numa falsa descrição dos semicírculos, ou no traçado errôneo de certas linhas. O que precede deve entender-se como uma visão sinóptica das espécies de raciocínio. De um modo geral, tanto no que se refere às que já discutimos como às que discutiremos mais tarde, podemos dizer que as distinções já feitas entre elas serão suficientes, pois não é nosso propósito dar a definição exata de cada uma delas. Desejamos apenas descrevê-las em linhas gerais, e cremos que, do ponto de vista do nosso método de investigação, basta que possamos reconhecer de algum modo cada uma delas.

Como é o amor em Platão?

Leia o texto de Mondin a seguir: 
 Platão situa o amor numa moldura metafísica que potencia a sua função e o seu alcance espiritual. Ele se desenvolve entre dois pólos, o Bem e as Idéias por uma parte e a alma ( a psyché) por outra. É a Alma, carente de felicidade e estabilidade que sente a aspiração, o desejo (eros), a atração do Bem e do mundo ideal e imortal. A alma, pela sua afinidade com as Idéias, adverte obscuramente a sua presença e experimenta no contato com o belo sensível um arrepio misterioso: a ascensão do amor inicia-se com um ato irracional, que tem todos os caracteres de uma loucura ( mania) que aliena o homem de si mesmo e lhe anuncia um valor transcendente. Diante das formas belas pode o homem assumir duas posturas fundamentais: aceita e ama a bela aparência como realidade absoluta e deseja possuí-la, por que não procura nada além dela, porque não entrevê nada além do sensível: esse é o amor sexual, terreno, inferior que perde a alma, é a Afrodite pandêmica ou vulgar; ou então ama enquanto reconhece o invisível e, por isso, transcende a bela aparência para possuir noeticamente ( ou seja, intelectualmente) não o que morre, mas o que é eterno: esse é o amor puro, o amor que salva, é a Afrodite celeste. E a dialética do amor, como processo cognitivo, é uma ascensão gradual: do amor de um corpo belo se passa a amar a beleza de todos os corpos belos, una e idêntica para todos; da beleza dos corpos se sobe depois à beleza das almas, das instituições, das leis e das Ciências, até que se chega à única ciência que tem por objeto o Belo absoluto: aqui a alma se acalma, porque acha o seu bem e a sua felicidade. Trata-se de uma ascensão longa e fatigante. " Para o homem que haja participado das celestes iniciações em tempos muitos remotos ou para o homem corrompido, não é lícito transportar-se facilmente daqui até lá, até a pura Beleza objetiva, no momento em que se contemplam as coisas belas que dela recebem o nome. Ele olha e a sua alma não é pervadida por um generoso ímpeto de veneração". Mas quando o filósofo consegue libertar-se dos grilhões deste mundo sensível e atinge o sumo vértice da ciência do amor, " contemplando em ordem sucessiva e com justo método todas as coisas belas, atinge finalmente a consumação da ciência amorosa. E então, por súbita visão, ele contemplará algo divinamente belo na sua natureza objetiva: a Beleza, razão primeira e meta de todos os precedentes exercícios fatigantes".

É possível a uma pessoa propiciar alegria e não ter nela alegria? Parece paradoxo

Uma pessoa pode propiciar alegrias ao contar uma história, fazer uma música, acariciar etc. Tais ações independem de possuir felicidade. Acompanhe o trecho a seguir de Sidarta, de Hermann Hesse. "...todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias. Para todos, era fonte de prazer. Mas a si mesmo Sidarta não se dava alegria. Para si, não era nenhuma fonte de prazer. Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiral, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía o corpo no cotidiano banho expiatório ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua própria alma. Visões acometiam-no e também pensamentos irrequietos, brotados das águas do rio, a faiscarem nos astros da noite, a fundirem-se sob os raios do sol. Devaneios assomavam-lhe aos olhos. O desassossego do coração invadia-o, vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rig-Veda, dos ensinamentos dos brâmanes anciãos. Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração.?

EXISTE DIFERENÇA ENTRE ÉTICA E MORAL?

Leia o texto de Leonardo Boff sobre o assunto. Na linguagem comum e mesmo culta, ética e moral são sinônimos. Assim dizemos: Aqui há um problema ético ou um problema moral . Com isso emitimos um juízo de valor sobre alguma prática pessoal ou social, se boa, se má ou duvidosa. Mas, aprofundando a questão, percebemos que ética e moral não são sinônimos. A ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo, princípios e valores que orientam pessoas e sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções. Dizemos, então, que tem caráter e boa índole. A moral é parte da vida concreta. Trata da prática real das pessoas que se expressam por costumes, hábitos e valores aceitos. Uma pessoa é moral quando age em conformidade com os costumes e valores estabelecidos que podem ser, eventualmente, questionados pela ética. Uma pessoa pode ser moral (segue costumes) mas não necessariamente ética (obedece a princípios). Embora úteis, estas definições são abstratas porque não mostram o processo como a ética e a moral, efetivamente, surgem. E aqui os gregos nos podem ajudar. Eles partem de uma experiência de base, sempre válida, a da morada entendida existencialmente como o conjunto das relações entre o meio físico e as pessoas. Chamam à morada de ethos (em grego com a letra e pronunciada de forma longa). Para que a morada seja morada, precisa-se organizar o espaço físico (quartos, sala, cozinha) e o espaço humano (relações entre os moradores entre si e com seus vizinhos), segundo critérios, valores e princípios para que tudo flua e esteja a contento. Isso confere caráter à casa e às pessoas. Os gregos chamam a isso também de ethos. Nós diríamos ética e caráter ético das pessoas. Ademais, na morada, os moradores têm costumes, maneiras de organizar as refeições, os encontros, estilos de relacionamento, tensos e competitivos ou harmoniosos e cooperativos. A isso os gregos chamavam também de ethos (com a letra e pronunciada de forma curta). Nós diríamos moral e a postura moral de uma pessoa. Ocorre que esses costumes (moral) formam o caráter (ética) das pessoas. Winnicot, prolongando Freud, estudou a importância das relações familiares para estabelecer o caráter das pessoas. Elas serão éticas (terão princípios e valores) se tiverem tido uma boa moral (relações harmoniosas e inclusivas) em casa. Os medievais não tinham as sutilezas dos gregos. Usavam a palavra moral (vem de mos/mores) tanto para os costumes quanto para o caráter. Distingüiam a moral teórica (filosofia moral) que estuda os princípios e as atitudes que iluminam as práticas, e a moral prática que analisa os atos à luz das atitudes e estuda a aplicação dos princípios à vida. Qual é ética e a moral vigentes hoje? É a capitalista. Sua ética diz: bom é o que permite acumular mais com menos investimento e em menos tempo possível. Sua moral concreta reza: empregar menos gente possível, pagar menos salários e impostos e explorar melhor a natureza. Imaginemos como seria uma casa e sociedade (ethos) que tivessem tais costumes (moral/ethos) e produzisse caracteres (ethos/moral) assim conflitivos? Seria ainda humana e benfazeja à vida? Eis a razão da grave crise atual.

RELIGIOSIDADE E CIÊNCIA PODEM CONVERSAR?

Leia o que escreveu Marcelo Gleiser sobre o assunto. 
 A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso. Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!" De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema? A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkin, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião. Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável. A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética. Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A agricultura orgânica versus o método de cultivo tradicional

A produção orgânica de vegetais ocupa 1% de toda a área plantada no planeta. Os outros 99% são cultivados utilizando os métodos tradicionais. Mas, se você perguntar aos consumidores se eles preferem um tomate orgânico - cultivado sem pesticidas, herbicidas e adubos químicos - ou um tomate produzido de maneira convencional, provavelmente a estatística se inverte: 99% (eu inclusive) preferiria o tomate orgânico. Será que a humanidade não deveria adotar de maneira definitiva a produção orgânica? Aparentemente, a metodologia orgânica é superior do ponto de vista ambiental, não polui os rios, preserva o solo e é mais saudável. Mas existe um outro lado da questão ambiental que é a produtividade por área cultivada. Nas últimas décadas a humanidade descobriu que o planeta não é capaz de alimentar um número infinito de seres humanos. À medida que cresce a população mundial, cresce a área utilizada para produzir alimentos, biocombustíveis e celulose. Cada hectare dedicado a satisfazer as necessidades humanas é um hectare a menos coberto de florestas, Cerrado ou outros ecossistemas naturais. E aí vem o dilema: como alimentar os quase três bilhões de bocas humanas que vão ser acrescentadas à população mundial nos próximos 50 anos? Aumentando a área plantada ou aumentando a quantidade de alimentos produzida nas áreas cultivadas? É neste contexto que a produtividade dos diversos métodos se torna importante. O tomate orgânico é melhor, mas quanto maior seria a área cultivada se toda produção de tomate fosse orgânica? Agora, um grupo de cientistas analisou 66 estudos independentes contendo 316 comparações entre a produtividade obtida utilizando métodos convencionais e orgânicos. Para ser incluído na comparação, os estudos deveriam seguir alguns critérios: rigor científico e as áreas consideradas deveriam ter sido certificadas por órgãos internacionais. Os resultados demonstram que, na média, a produtividade por hectare obtida com métodos orgânicos é entre 20% e 25% menor. Em nenhum caso ela é superior à produtividade obtida com a agricultura convencional. Mas a boa notícia é que em muitos casos a diferença é pequena, chegando a somente 10% no caso da soja e do milho. Em outros casos, como nos vegetais usados em saladas, a produtividade com métodos orgânicos é muito menor, chegando a 30%. Esses resultados são animadores já que muitos defensores da agricultura tradicional palpitavam que a produtividade obtida utilizando métodos orgânicos seria metade da convencional. Mas infelizmente isso não resolve a questão. Mesmo que a humanidade decida adotar o cultivo orgânico - e consequentemente aumentar a área cultivada, mas se libertando da ameaça dos produtos químicos -, outros aspectos do problema precisam ser analisados. Os autores do estudo listam alguns deles. Um é o custo dos alimentos produzidos pelas duas formas de cultivo e seu impacto no problema da fome no planeta e nos níveis de emprego na agricultura. Outro é a sustentabilidade ambiental de cada forma de cultivo no longo prazo e em grande escala (se você cultiva alface sem adubo químico, mas usa esterco como adubo, sua produção de alface depende do rebanho bovino). O que fica claro é que a comparação entre métodos produtivos não é simples, pois não depende de uma única variável. Vai ser necessário desenvolver metodologias capazes de comparar variáveis complexas e um modelo em escala global. O que é melhor para a humanidade, um tomate orgânico mais caro, que ocupa uma área agrícola maior, mas que não utiliza agroquímicos e emprega três pessoas, ou um tomate convencional, mais barato, produzido em uma área menor, mas que utiliza insumos químicos e emprega uma pessoa? Dada a complexidade das comparações necessárias é pouco provável que no curto prazo sejam obtidos dados suficientes para fazer uma comparação rigorosa. Mas será que a Terra aguenta esperar? Por: Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo * MAIS INFORMAÇÕES: COMPARING YIELDS OF ORGANIC AND CONVENTIONAL AGRICULTURE. NATURE VOL. 485 PAG. 229 2012 * É BIOLOGO

quarta-feira, 23 de maio de 2012

MAIS TELEFONES EM CHICAGO...

Há mais telefones em Chicago do que em toda a América Latina! Ouvi essa frase do meu saudoso amigo Mário Roberto Zagari naquela São João Nepomuceno dos anos 50. Hoje, a tal América Latina tem milhões de telefones e o Brasil produz mais carrocerias de ônibus do que os tais Estados Unidos. Houve um tempo no qual a Europa e os Estados Unidos concebiam-se como sociedades concluídas. Havia um início do mundo civilizado na Grécia e, depois dele, havia um mundo pronto e acabado - perfeito na sua autocomplacência etnocêntrica - naquela região do Hemisfério Norte em cujo oceano naufragou o Titanic - o maior e o mais avançado navio de passageiros que o mundo jamais havia visto. Quando meu amigo me passou essa "informa-lição", eu fiquei tão assustado que não a esqueci. E aqui estou a dizer ao leitor que sou de um tempo mais ou menos antigo; de um tempo no qual havia uma cidade americana um tanto estranha. Essa Chicago que numa música é cantada como uma cidade especial; noutra é uma urbe cambaleante e é também um berço de bandidos que, no entanto, são presos. * * * * Se você chegou (Deus sabe como) a uma certa idade (que é sempre uma idade incerta), é impossível não ler os jornais sem se lembrar de José do Egito (filho de Jacó-Israel e Raquel), o decifrador dos sonhos do faraó e, ele próprio, um sonhador. Pois como entender a lógica dos sonhos sem sonhar? Eis o sonho de José. "Fazíamos feixes no campo e, de repente, o meu feixe ergueu-se e ficou de pé, enquanto que os vossos puseram-se à volta e prostraram-se diante dele." Os irmãos interpretaram imediatamente o sonho de José. Esse sonho, disseram, significa que "tu reinará sobre nós, te tornarás nosso senhor?" O filho favorito de Jacó despertava uma inveja incontida nos seus irmãos. E ele, ingênuo, falava muito e dividia os seus sonhos. Pior, ou tão grave quanto isso, era ser o filho preferido de Jacó. O texto bíblico explica a preferência, acentuando que José era filho da velhice de Jacó. O livro de Thomas Mann, José e Seus Irmãos, vale-se do espírito da narrativa - do poder conferido aos sonhos escritos; a isso que chamamos de "literatura", para explicar que José era um "sonhador". O que atraía o amor do seu pai era a sua capacidade de construir um mundo de sonhos. De fato, mais adiante, quando José é visto pelos irmãos já possuídos pelo ressentimento (esse irmão mais novo da inveja) e decididos a eliminá-lo, um deles diz: "Eis que chega o sonhador". (Gênesis, 37:2-18) * * * * Sabemos como os irmãos de José jogaram-no numa cisterna fazendo-o morrer para sua tribo e família e, em seguida, como foi encontrado por mercadores que seguiam em direção ao Egito (que, naquele tempo, tinha mais templos do que todo mundo). Mesmo socialmente morto, vendido e comprado, José continua possuído por sonhos. Recusa-se a ser a fantasia sexual da mulher de Putifar, o mordomo eunuco do faraó. É falsamente denunciado e, preso, decifra os sonhos do padeiro-mor e do copeiro-mor da Corte, encarcerados por corrupção. Sua interpretação é perfeita: um dos funcionários será salvo; o outro, decapitado. Percebe-se que o Egito antigo sem telefones era distinto deste Brasil lotado de milhões de celulares. Pois, entre nós, quando se trata de punir funcionários graúdos, cujos sonhos de enriquecimento ilícito ampliam exponencialmente suas fortunas, não há faraó que os condene. Nossos sonhos apenas dizem: nada lhes vai acontecer nem em três dias nem em 30 anos! Mas no velho Egito havia condenação como havia recompensa. E foi assim que José, graças ao ministro salvo, chegou a ter contato direto com o rei deus obcecado por dois sonhos recorrentes que, na verdade, como José explicou, não eram dois, mas apenas um e denso sonho que não o deixava dormir. Reunido com sua corte na Brasília do seu tempo, o faraó conta seus sonhos indecifráveis. Sete vacas gordas são devoradas por sete vacas horrorosas. Sete espigas maduras se curvam diante de sete espigas feias e secas pelo vento. * * * * José não é nenhum economista, pois Deus - sempre misericordioso - só veio a inventar a economia alguns séculos depois, quando a exploração do trabalho atingiu o seu cume, criando espigas cheias e belas que comiam sem parar as magras e feias. Mas com a precisão e a autoridade cortante de um Mario Simonsen ou de um Delfim Netto, ele não hesita em falar o que lhe cabe. José diz mais ou menos o seguinte - deixe a preguiça e veja em Gênesis 41-47: toda fartura em excesso é uma bolha. Sete anos com grandes ofertas serão seguidos de sete anos de penúria. O rei deus deve evitar que a fartura se transforme em bolhas. A oferta deve ser domesticada como um meio de prevenir os anos de privação. José foi o primeiro ministro do planejamento veraz e competente da História. Foi um sonhador. Sonhou que era possível conciliar riqueza e pobreza, fartura e penúria, cargos públicos e honra. Mais que isso, percebeu a dificuldade de interpretar sua própria história, pois, como diz Thomas Mann, é comum não compreendermos a nossa história. A não ser como sonhadores dispostos a perdoar, como José. Por: Roberto DaMatta - O Estado de S.Paulo

O LOBO DO HOMEM

Querido leitor que você esteja em paz. Thomas Hobbs, filósofo inglês que viveu na idade média (1588-1679), populariza um dizer de Plauto (254-184) “Homo homini lúpus”. Traduzindo para o português, a frase quer dizer “o homem é o lobo do homem”. De acordo com Hobbs, o egoísmo é o mais básico comportamento humano. Ele acreditava que o homem é por natureza mau e, se você lhe tirar seu espaço, ele se torna agressivo e cruel com seu semelhante. A solução para que essa maldade seja amenizada era que o homem deveria ser privado de certas liberdades. Essa era a única forma que Thomas Hobbs via de manter a ordem e a paz nos burgos, do contrário, será uma “guerra de todos contra todos”. Para o filósofo inglês, os homens são perfeitamente iguais, desejam as mesmas coisas, têm as mesmas necessidades, o mesmo instinto de autopreservação. Por isso, em “Estado Natural” ele necessita do conflito e, dessa forma, surgem as revoltas e a guerra. As guerras existem, portanto, porque os homens querem as mesmas coisas, sustenta Hobbs. Como então manter a paz neste “estado natural” de guerra da espécie humana? Para Thomas Hobbs, a solução é somente por intermédio de um pacto, de um contrato formal entre pessoas iguais que renunciam suas liberdades em troca de tranquilidade. É desse período que vem muitas de nossas convenções presentes em nossos dias atuais. Há os que acreditam e defendem esse ponto de vista filosófico e citam os pactos como as cartas magnas de cada país conhecidas por nós como Constituição. Aqui, cabe mais uma pergunta: o que seria de um país sem sua constituição? Thomas Hobbs pertence ao período filosófico que denominamos de “contratualismo”, que é o período onde os filósofos acreditavam que a evolução do homem passa por um acordo coletivo. Portanto, só poderia se manter a paz e a evolução da espécie humana por intermédio de instrumentos contratuais. Você já refletiu sobre essas questões anteriormente? Você concorda que o homem literalmente se mata para ter mais dinheiro, status, sucesso, poder, enfim, que o homem é o lobo do homem? Jean Jacques Rousseau, ao contrário de Thomas Hobbs, com uma visão um pouco mais puritana e humanista, acreditava que “o homem é bom por natureza”, contudo é o convívio em sociedade que o corrompe. Talvez não seja correto afirmar que nem o homem é o lobo do homem e nem o homem é bom por natureza. Antes disso, vêm as características individuais, pessoais de cada indivíduo, não há uma regra geral. Para cada um é de um jeito. É a singularidade, algo singular em cada indivíduo que só a ele pertence, fruto de uma história vivida a partir da sua realidade. Para nós, filósofos clínicos, a singularidade é a digital de cada pessoa, como a íris, ou seja, é única. E esse caráter único, autêntico, também pode se traduzir como sendo o seu sabor pessoal. Portanto, quando Hobbs diz ser o homem lobo do homem, ou seja, “mau por natureza” isso é assim para ele. Quando Rousseou diz que o homem é “bom por natureza” isso é assim para Rousseou. Portanto, quando alguém vir com receita pronta, ideias pré-concebidas onde abrange a coletividade, a humanidade, para mim, devemos primeiro saber que isso é a representação de mundo da pessoa que está falando, que está dizendo, e não uma verdade absoluta. É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o homem ser o lobo do homem? Por: Beto Colombo

terça-feira, 22 de maio de 2012

E SE versus O QUE É

Querido leitor e querida leitora, aceitem o meu fraternal abraço. Nossa reflexão hoje vai ser em cima de “E se” e “O que é”. Talvez você possa estar se perguntando: O que esse cara quer dizer com essas cinco minúsculas palavras: “E se” e “O que é”. Se isso ocorreu, que bom, pois é a partir de uma pergunta que aprofundamos os nossos conhecimentos, a nossa consciência. Afinal de contas, como vamos nos melhorar como pessoa se sequer achamos que precisamos disso? Bem, voltemos ao nosso tema. “E se” é uma pronúncia que, em geral, boa parte das pessoas fala cotidianamente para expressar algo que gostaria que ocorresse. “E se o goleiro tivesse agarrado pênalti?”, “E se o centroavante tivesse feito aquele gol?”, “E se o juiz tivesse dado aquela falta?”, isso, para ficarmos só na paixão do futebol. Mas se levarmos o “E se” para outras áreas vamos ver infinitos exemplos: “E se tivesse acordado mais tarde não bateria o carro”, “E se terminasse o namoro tu não estarias grávida”, “E se mudasse de emprego estaria ganhando melhor”, “E se não comprasse esse carro não estaria atolado em dívidas”. E se, e se, e se... O fato é que muitos de nós passamos uma existência no padrão do “e se”. Ainda pequeno aprende “e se eu fizer isso vou ganha aquilo”, depois, na juventude, fala “e se eu tivesse escolhido o outro curso estaria mais feliz”, na adultice pensa “e se eu tivesse me separado teria uma vida mais tranquila” e na velhice remoí “e se eu tivesse outra vida”. Agora não dá mais para voltar atrás. O “e se” é uma projeção, uma expectativa presente de um pensamento passado. Será que o “e se” existe? Se questioná-lo um pouco, vamos entrar no “o que é”. “O que é” é a realidade nua e crua, pois deixamos de resistir ao fato que ocorreu, tipo “e se o juiz tivesse dado o pênalti?”, para o que é: “O juiz deu o pênalti”. Assim como há muitas pessoas que passam pela existência sempre no “E se”, há também um número cada vez maior de seres humanos buscando o autoconhecimento e tentando entrar e ficar no modo do “o que é”. Afinal de contas, “o que é”, está ali na frente se apresentando sem devaneios ou deturpações. O carro bateu, a namorada terminou, perdi o emprego. Isso é, é inequívoco. E de nada adianta a gente ficar no “e se”... Trago Eduardo Galeano, do Uruguai, prêmio Nobel da paz, para nos aprofundarmos no “E se”: “Não importa o que fizeram de você, importa sim, aquilo que você fez com aquilo que fizeram de você”. É assim “o que é” o mundo para mim hoje. “E se” você não tivesse ouvido esse comentário, como seria?Por: Beto Colombo

segunda-feira, 21 de maio de 2012

SOBRE AMIZADE, AMOR E DOENÇA

Sábado passado, escrevi sobre o frívolo conceito de amizade que está se tornando usual em função das redes sociais. Se, durante séculos, amigo era um ser muito especial, hoje amigo é qualquer um. Nestes dias em que se fala de um milhão de amigos, a discussão merece mais algumas considerações. Há uns bons dez anos, comentei L’Amicizia secondo i filosofi, de Massimo Baldini (Città Nuova, 1998), uma antologia de textos filosóficos sobre a amizade, com um ensaio do antólogo à guisa de prefácio. Trata da amizade em seu sentido mais nobre, e não da amizade irresponsável proposta por alguém que jamais vimos. Os filósofos, no caso, são aqueles que a história consagrou como tais, e não professores que os papagueiam e se julgam pensadores. A reflexão é oportuna, nestes dias em que a amizade muitas vezes passa a depender de uma visão de mundo uniforme. Quem hoje tem 50 anos, sabe disso. Terá perdido amigos por escaramuças no Camboja ou Vietnã, por determinações de Moscou, Pequim ou Cuba, em suma, por eventos distantes que nada têm a ver com uma relação entre duas pessoas. O teórico desta perversão foi Sartre que, por questões de ideologia, rompeu laços com Camus. “A amizade, ela também, tende a ser totalitária” — disse um dia o agitador da Rive Gauche ao futuro prêmio Nobel — “urge o acordo em tudo ou a ruptura, e os sem-partido eles próprios se comportam como militantes de partidos imaginários”. É a versão xiita da amizade: ou você aceita minha ideologia, ou não podemos ser amigos. Assim, com satisfação vejo que Aristóteles, na longínqua Atenas, distante no tempo e no espaço, desde há mais de dois mil anos concorda comigo. No livro oitavo da Ética a Nicômaco, afirma não ser possível ser amigo de muitos com perfeita amizade, como não é possível estar enamorado ao mesmo tempo de muitos. “Aqueles que têm muitos amigos e que tratam todos familiarmente, não parecem ser amigos de ninguém”. Para o estagirita, um milhão de amigos nem pensar. Cícero, ciente das responsabilidades da amizade, recomenda atenção para que não comecemos a gostar de alguém que algum dia poderemos odiar. Amizade não é coisa para jovens, mas deve ser decidida quando o caráter está formado e a idade já é madura. Seneca, como bom estóico, acha que o sábio deve bastar-se a si mesmo. O que não impede que ele aceite com prazer um amigo que lhe seja vizinho. Para o pensador de Cordova, o sábio é impelido à amizade não “pelo interesse, mas por impulso natural”. Amizade que se funda no interesse é um “vilissimo affare”. A distância não tem o poder de prejudicar a amizade. É possível manter relações com amigos ausentes, por quanto tempo se quiser. Em verdade, a proximidade torna a amizade complicada. A amizade é sempre útil, enquanto o amor é muitas vezes absolutamente nocivo. Abelardo acentua o caráter seletivo da amizade. “Ninguém será pobre se possuir tal tesouro, tão mais precioso quanto mais raro. Os irmãos são muitos, mas entre eles é raro um amigo; aqueles a natureza cria, mas estes só o afeto te concede”. Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, define: “é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. No que vão duas restrições. Os amigos devem ser sensíveis, porque um monge, um solitário podem não ser maus e no entanto viver sem conhecer a amizade. E virtuosos, porque os maus têm apenas cúmplices. Em suma, só os homens virtuosos têm amigos. O que Abelardo está dizendo, no fundo, é que um mau-caráter não pode ser amigo de ninguém. Uma distinção mais lúcida vamos encontrar em Kierkegaard, para quem o cristianismo aboliu a amizade. Segundo o pensador dinamarquês, o amor humano e o valor da amizade pertencem ao paganismo. Pois o cristianismo celebra o amor ao próximo, o que é distinto. Para esta religião, só o amor a Deus e ao próximo são verdadeiros. O cristão deve aprender a desconfiar do amor profano e da amizade, pois a predileção da paixão é no fundo um ato de egoísmo. Entre o amigo e o próximo há diferenças incomensuráveis. A morte não pode extirpar o próximo. Se a morte leva um, a vida subitamente fornece um outro. A morte pode tomar de você um amigo, porque ao amar o amigo no fundo você a ele se une. Mas ao amar o próximo você se une com Deus, por isso a morte não pode tomar-lhe um próximo. Para Nietzsche, a mulher é incapaz de amizade, conhece apenas o amor. Mas seus contemporâneos homens não percorreriam mais os sendeiros da amizade. Por dois motivos. Primeiro, porque o amor entre os sexos prevaleceu sobre a amizade. Segundo, porque o cristianismo substituiu o amigo pelo próximo. Para seu profeta, Zaratustra, “vosso amor ao próximo é vosso amor por vós mesmos. Fugis rumo ao próximo fugindo de vós mesmos. Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Não aconselho o amor ao próximo. Aconselho o amor ao remoto”. Sou avesso a isso que chamam de amor. Ou talvez avesso à palavrinha. Os filmes de Hollywood, que sempre terminavam com um indefectível “I love you”, vulgarizaram o tal de amor. Sem falar que, no fundo, é um sentimento que leva facilmente ao assassinato. Se você, leitora, um dia sentir que outro alguém a considera a única pessoa de sua vida, melhor sair de perto. De preferência, correndo. Há algumas décadas, surgiu uma novela na televisão brasileira intitulada “Quem ama não mata”. Solene besteira. Só mata quem ama. Ao sentir que perde o que julga ser único, o bruto raciocina: se não és minha, não serás de mais ninguém”. Daí a matar é um passo. Prefiro a amizade, mesmo na relação com mulheres. Em algum momento do Quarteto da Alexandria, Lawrence Durrel dizia ser a amizade preferível ao amor porque mais duradoura. Verdade que amigos também perdemos, mas a ninguém ocorre matar alguém porque perdeu sua amizade. Amor é doença antiga, já diagnosticada pelos gregos. Assim narra Plutarco o caso de um jovem enfermo: - Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele. Mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava no jovem todos os sintomas famosos de Safo: sua voz mal se articulava. Seu rosto se ruborizava. Um suor súbito irrompia através de sua pele. Os batimentos do coração se faziam irregulares e violentos. Incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez. Quando Antíoco – pois assim se chamava o enfermo – recebeu Estratonice como presente de Seleuco, seu pai, desapareceram os sintomas da doença. Que talvez tenha contagiado Seleuco, pois afinal era o marido de Estratonice. Mas isto já é outra história. Eram bons observadores, os gregos. O tal de amor é gostoso quando o experimentamos. Mas ridículo quando visto com certa distância. Amor, diria, é coisa para jovens. Jovem tendo sido, é claro que fui acometido pelo mal. (O pior é que às vezes tem recidiva). Uma vez adulto, optei pela amizade. Que tampouco dura a vida toda. Diria que perdi dois excelentes amigos de longa data. Um, porque recebeu o título de Dr. pela USP. Outro, porque não gostou de crônica que escrevi sobre a teoria da relatividade. Que se vai fazer? Conto outra hora. Por Janer Cristaldo

QUE DÓ DA CHANEL

"Que dó da Chanel!", disse minha filha ao ouvir que o Monsieur Normal (François Hollande, o socialista) ganhou as eleições presidenciais na França. Só vai restar a Chanel fugir para Bélgica. Caras como ele parecem não entender que se você coloca limites para o retorno financeiro de quem trabalha, a pessoa trabalha menos e fica preguiçosa. Ou foge para onde não roubem seu dinheiro, fruto de anos de trabalho duro. Basta ver a história. Estes caras deveriam ler a filósofa russa Ayn Rand e seu maravilhoso "A Revolta de Atlas", da editora Sextante. Sociedades socialistas cultivam a preguiça, a mediocridade e desestimulam a criatividade e coragem profissional. Todo mundo vira funcionário público. Rand conheceu na pele o ridículo do sistema socialista soviético, antes de fugir para os Estados Unidos. Dirá o leitor que exagero. Sim, um pouco, mas em se tratando da esquerda francesa, acostumada à vida mansa do Estado de bem-estar social, a França produtiva deve ficar alerta. Assim como a Argentina, que nunca saiu da pasmaceira peronista, a França nunca saiu do delírio jacobino da Revolução Francesa. Os caras não crescem e continuam a não entender que país é como sua casa, quando se gasta mais do que se ganha, a conta não fecha no final do mês e você estoura sua conta no banco. Engraçado como a França e outros países europeus ocidentais que não passaram por regimes marxistas gostam de brincar de socialista. Brincam como se a catástrofe que foi a experiência marxista no poder não tivesse acontecido. Acusam muita gente de não ter "consciência histórica", quando eles não têm nenhuma. A começar pelos intelectuais de esquerda, esses mandarins da mentira. Vejam que os países do leste europeu que foram comunistas não chegam nem perto da baboseira da esquerda. Pergunte a uma tcheca ou russa se ela gostaria de voltar ao comunismo. Mas, como a França ainda tem dinheiro para gastar, o dinossauro francês ganhou a eleição. Se ele não criar juízo e ficar prometendo o que não pode (como deixar os franceses se aposentarem com menos de 60 anos e com isso piorar a pressão sobre a população mais jovem produtiva que paga a conta da previdência social francesa), na próxima eleição, Marine Le Pen (do Front National, partido de extrema-direita) leva, o que seria outra catástrofe. É isso que ela espera, por isso recusou apoio ao Sarkozy. Tanto a direita radical quanto a esquerda são contra a sociedade de mercado e não entendem nada de economia. Os da esquerda culpam os ricos, os da direita radical culpam os estrangeiros, e nenhum dos dois sabe lidar com a complexidade de um mundo que nada tem de perfeito e que é sempre fruto da velha natureza humana: mentirosa, interesseira e preguiçosa, quando pode. Nada brota onde não há dinheiro. Até minha llhasa apso, mais inteligente do que muita gente que conheço, sabe disso. E por falar em Chanel (que para mim significa "mulher bonita"), recentemente tivemos mais uma prova de que a natureza humana é atávica em suas mazelas, sendo a inveja uma das piores. Já disse várias vezes nesta coluna que as mulheres bonitas são vítimas de perseguição por parte das feias -a velha inveja da beleza. Em recente pesquisa sobre mercado de trabalho, publicada no caderno "Mercado" desta Folha (13/5), israelenses provaram que mulheres bonitas que colocam suas fotos no CV são constantemente eliminadas, não tendo chance de chegar nem a uma primeira entrevista. E por quê? O fato é que o RH é comumente dominado pelas mulheres, e estas, aparentemente, temem que mulheres bonitas assumam cargos em suas empresas. Incrível, não? Depois dizem que são os homens que atrapalham a vida profissional das mulheres bonitas. A verdade parece ser o contrário: se aumenta o número de homens envolvidos no processo decisório, a seleção pode deixar de ser injusta para as mais bonitas. Já que estamos em época de cotas para minorias oprimidas, proponho cotas para mulheres bonitas nas faculdades, nas empresas e no governo. O mundo respira melhor quando tem mulher bonita por perto. Elas são o pulmão do mundo.Por: Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

domingo, 20 de maio de 2012

FACEBOOK DESGASTA UMA ANTIGA PALAVRA

Já comentei há quase dez anos. O século passado, entre outros atributos, foi sem dúvida o da desvalorização das palavras. A começar por democracia.Sistema de governo almejado por todos os povos no Ocidente, onde cada indivíduo tinha seus direitos e liberdades garantidas, logo foi tomado de assalto pelos comunistas e passou a significar o contrário. As sedizentes repúblicas democráticas do Leste europeu não passaram de tiranias brutais,onde o direito mais ao alcance do cidadão era a prisão ou o gulag. Paz foi outra palavrinha que sofreu bastante. Quem talvez mais a tenha desfigurado no mundo foi esse vigarista de mão cheia, chamado Pablo Picasso, com sua pombinha da paz, sempre sobrevoando os países que só queriam e faziam guerra. Não adianta cercar uma boa doutrina, dizia Nietzsche. Os porcos criam asas. Quem definiu com verve o fenômeno foi George Orwell, em 1984, certamente a ficção mais significativa do século passado. Na sociedade controlada pelo Grande Irmão, guerra era paz, liberdade era escravidão e ignorância era força. Esta estratégia tem-se repetido ad nauseam. Sem ir mais longe, aí está o PT, brandindo um projeto em nome da liberdade de imprensa, que no fundo pretende exatamente o contrário: sufocá-la. Nestes dias de Internet, a palavra que mais se desgastou foi certamente amigo. O fenômeno terá começado com o Orkut e se intensificou no Facebook. Fulano quer ser seu amigo, nos informa o site. Ora, não é assim que uma amizade se inicia. Como posso aceitar como amigo pessoa que não conheço? Qual a intimidade com um milhão de amigos? – pergunta-se o Nouvel Observateur. A revista qualifica o Facebook, com seus 900 milhões de utilizadores em apenas oito anos de existência, como o terceiro país do mundo, por sua população. Uma de suas características seria redefinir as relações sociais e mesmo as práticas culturais. Pode ser. Mas se mexe com a vida de muita gente, na minha não mexeu quase nada. Verdade que, através destas ditas redes sociais, reencontrei pessoas que há décadas não via. Isto desde o Orkut. Esta me parece ser uma função importante do Facebook. Também o utilizo para divulgar meus artigos. Serve também como meio de comunicação rápida entre pessoas. Sei que há gentes encontrando o amor de suas vidas na rede. Vá lá. Eu prefiro os métodos antigos, de encontro pessoal, seja em universidade, bares, ambiente de trabalho. O Facebook serve para dar voz a quem antes não a tinha. As pessoas podem discutir, manifestar-se, chiar, protestar, denunciar. Mas para isto existem os blogs, ao alcance de quem quiser mostrar sua cara ao mundo. Esta é, a meu ver, a grande revolução da Internet. Se antes eu precisava de meio de comunicação para dizer ao mundo o que tenho a dizer, agora posso dizê-lo dispensando as mídias tradicionais. Neste sentido, a Internet começou tímida e blog era, em suas origens, uma espécie de diário íntimo de adolescentes. Logo os jornalistas descobriram o poder de comunicação destas páginas e hoje os blogs competem em pé de igualdade com a grande imprensa. A tal ponto que já começam a ser censurados. Sinal de que incomodam. Mas se em algo o Facebook mexeu, foi sem dúvida com as palavras. Particularmente com esta antiga palavrinha, amizade. Segundo a socióloga Divina Frau-Meigs, entrevistada pelo Nouvel, a boa escala de interatividade é em geral de 60 a 80 pessoas, podendo ir até uma centena para os mais extrovertidos. Essas pessoas são verdadeiros "amigos", com os quais se tem contato freqüente e com os quais se evolue na vida. Ora, tenho concepção bem mais estrita de amizade. Tanto que divido meu mundinho entre amigos, relações de bar e conhecidos. Amigos, a meu ver, são sempre poucos. Relações de bar é círculo mais amplo e conhecidos é a soma dos dois anteriores e mais os outros tantos com quem tropeçamos na vida. Já amizade é plantinha que exige tempo para crescer, muitas vezes décadas. Uma das coisas que mais detestei em meus dias de Florianópolis foi a mania dos ilhéus de dirigir-se a quem quer que seja com esta palavrinha: "amigo!" Há quem ache simpático e hospitaleiro este comportamento. Eu o considero abominável. Desvaloriza uma palavra cheia de significado. Que os freqüentadores do Facebook convencionem chamar de amigos a todo e qualquer interlocutor, isto é uma convenção que a ninguém está proibida. Mas nada tem a ver com amizade. Pode até que, destes contatos, surja uma relação de amizade, e mesmo namoros e casamentos. Nem sempre sei do que gosta meu vizinho. Mas posso descobrir afinidades com uma pessoa do outro lado do oceano. De minha curta experiência no Facebook – dois anos, talvez – encontrei bons interlocutores. Mas a maioria deles eu já conhecia através do blog. Já me encontrei com muita gente, aqui e no Exterior, que conheci via Internet. Como mudei de cidade mais de dez vezes em minha vida, gosto de reencontrar na rede as pessoas que deixei para trás. Hoje converso com amigos de Paris ou de Dom Pedrito como se estivesse sentado com eles numa mesa de bar. Esta é, sem dúvida, uma das grandes vantagens do Facebook. Mas minha relação de amizade era anterior. Existe um milhão de amigos? – pergunto eu. Minha pergunta é meramente retórica. Claro que não existe. Amigos são sempre poucos e raros. Ainda há pouco eu comentava o perverso ranço cristão do “amai-vos uns aos outros”. Como perceberam Nietzsche e Kierkegaard, esta ordem exclui o sentimento de amizade. Amizade é eleição, afinidade eletiva. Se tenho de amar o próximo, não sobra espaço para o amigo. Pessoalmente, só ouso qualificar como amigo alguém com quem já convivi uns bons vinte anos. E a experiência de minhas últimas décadas tem me sussurrado que é melhor esperar uns quarenta. Já ultrapassei a sexta década e meus amigos, se for contá-los nos dedos, sobra dedos. E me sinto muito feliz por tê-los tantos. Sem falar que, em função de meu espírito nômade, estão dispersos por várias geografias e nem consigo reuni-los numa mesma mão ou mesa. Para o Facebook, amigo virou sinônimo de qualquer um. Amizade passa a ser sentimento de quem está conectado à rede. Não deve estar longe o dia em que a primeira providência para conseguir amigos será comprar um computador. Por: Janer Cristaldo

sábado, 19 de maio de 2012

Unidos pelo niilismo

Domingo passado, uma dúzia de escritores e poetas russos se juntou numa praça de Moscou para o que chamaram de "marcha-teste". Queriam testar a vigilância e a repressão da polícia a uma passeata do grupo contra o governo cesarista de Vladimir Putin, cobrindo um itinerário, com perdão da palavra, emblemático: da estátua do poeta Pushkin (exilado pelo czar Alexandre I) até o monumento ao dramaturgo Aleksandr Griboyedov (cujas gozações na aristocracia moscovita só foram liberadas pela censura czarista depois da morte do autor). A maior surpresa do grupo não foi passar incólume de uma praça à outra, mas a adesão espontânea de 10 mil pessoas, a maioria portando aquele emblema branco que identifica a oposição ao Putin. "Podemos ver por essa adesão em massa que a literatura ainda exerce uma autoridade em nossa sociedade", declarou, inflado de orgulho, o poeta Lev Rubinstein, um dos organizadores do protesto. Tem sido assim há 200 anos. Os intelectuais se organizam contra a ordem vigente, incandescem a insatisfação pública, são presos, censurados, banidos, fuzilados, viram heróis e depois ganham estátuas, ruas e praças. Começaram com os czares, prosseguiram com Stalin e seus epígonos, e agora, ainda expostos a uma sociedade espiritualmente feudal, enfrentam mais um autoritário Vladimir. Foram eles que inventaram a palavra intelligentsia, contemporânea do levante dezembrista de 1825, quando poetas românticos, aliados a militares e servidores públicos, conspiraram em vão para derrubar o imperador da vez (Nicolau I) e modernizar o império, com ideias importadas da Europa Ocidental, sobretudo da Alemanha. Os ideólogos alemães fizeram a cabeça da intelligentsia europeia, no século 19, mas não com a mesma facilidade encontrada na Rússia, campo virgem para todas as radicalizações filosóficas e políticas, desde Pedro, o Grande. Hegel, por exemplo, enfeitiçou tanto os russos que um de seus bardos transfigurou em versos a Ciência da Lógica. Falava alemão o conceito de niilismo usado por Friedrich Jacobi para caracterizar, negativamente, o idealismo transcendental dos herdeiros de Kant, no início do século 19. O niilismo, grosso modo, existe desde a Antiguidade, desde Demóstenes e Empédocles, precursores do ceticismo epistemológico. Nada é absoluto, os valores morais não têm qualquer validade, a verdade é sempre subjetiva, e o progresso da sociedade só será possível após a destruição do que socialmente existe - eis, em resumo, o credo niilista. Com o acréscimo de que Deus não existe e nenhuma espiritualidade deve ser levada a sério, chegamos ao Zaratustra de Nietzsche, o mais reverenciado corifeu da doutrina. Zaratustra "nasceu" em 1883 e o niilismo, oficialmente, está comemorando nesta primavera setentrional o seu sesquicentenário. A efeméride é russa. Pushkin e Griboyedov já haviam morrido quando, nas páginas do romance Pais e Filhos, de Ivan Turgenev, editado em 1862, surgiu a figura de Yevgeny Bazarov. Se Dimitri Pisarev foi o teórico do niilismo russo, conforme assegura Albert Camus em O Homem Revoltado, ninguém tira de Bazarov o título de demo padroeiro do movimento. Doutor por vocação, niilista por avocação, Bazarov pertencia, como o próprio Turgenev, a uma coterie de jovens intelectuais idealistas em choque permanente com a autocracia de Nicolau I. Repudiava tudo e a tudo almejava destruir. Só no décimo capítulo ele pronuncia pela primeira vez a palavra mágica. Turgenev criou um monstro, precursor de Zaratustra e também de um vasto elenco de terroristas, um Frankenstein moral que o próprio romancista, na falta de melhor alternativa, puniu com um final de vida terrível. Nietzsche admirava o personagem, mas não se aventurou a cumprimentar o escritor num parque de Baden-Baden, oito anos antes de Zaratustra começar a falar. Apenas trocaram olhares, segundo Lou Andreas-Salomé. Espremidos entre um estado reacionário e um campesinato miserável e analfabeto, Turgenev e sua turma - Herzen, Bakunin, Belinsky, Ogarev - formavam o que Dostoievski chamou de "o proletariado dos bacharéis". Sofreram a durindana czarista de várias formas. Muitos, entre os quais Turgenev, morreram no exílio. Hoje, fiéis à tradição, estariam em todas as passeatas contra Putin. Em março de 1848, poucas semanas depois da queda de Luís Filipe I, Turgenev e Bakunin encontravam-se em Paris. Não viram a queda porque estavam em Bruxelas quando ela ocorreu. Na segunda parte da trilogia The Coast of Utopia, que Tom Stoppard escreveu sobre as quimeras e andanças daquela turma para o teatro, os dois cupinchas de Moscou e São Petersburgo cruzam com outro rebelde que também perdera a chegada da Segunda República por estar, justamente, em Bruxelas: Karl Marx, que lá fora rodar a primeira fornada do Manifesto Comunista. Turgenev pega um exemplar do Manifesto e lê em voz alta a exortação de abertura. Marx lhe pergunta se a expressão "espectro do comunismo" soa mal aos seus ouvidos de escritor. "Não quero dar a impressão de que o comunismo morreu", revela seu temor. Antes que Turgenev possa dar sua opinião, o poeta Georg Herwegh, ativo participante da Revolução de 1848 na Alemanha, entra em cena e interrompe a conversa. As vidas de Turgenev e Marx se tangenciaram um bocado. Ambos nasceram e morreram no mesmo ano (1818-1883), estudaram na Universidade de Berlim, foram influenciados pela dialética hegeliana, estavam em Bruxelas na segunda derrubada da monarquia na França, foram espionados pela polícia secreta, tiveram filho ilegítimo, moraram e morreram no exílio. De certo modo, o espectro do niilismo igualmente os uniu. Por: Sérgio Augusto - O Estado de S.Paulo

sexta-feira, 18 de maio de 2012

CATEDRAIS

Catedral é o templo principal onde um bispo católico, anglicano, metodista, ortodoxo, luterano ou protestante tem sua cátedra, ou sede. Normalmente é o maior e mais imponente templo da diocese. O termo catedral deriva do latim, ecclesia cathedralis, e é utilizado para designar a igreja que contém a cátedra oficial do bispo. O adjetivo cathedra foi ao longo dos tempos assumindo o caráter de substantivo, e é hoje o termo mais comumente utilizado para designar estas igrejas. O termo ecclesia cathedralis, foi aparentemente utilizado pela primeira vez nos atos do concílio de Tarragona em 516. Outra designação utilizada para ecclesia cathedralis, era ecclesia mater, ou igreja-mãe, indicando assim que esta seria a igreja “Mãe” da diocese. Outro nome ainda era ecclesia major, ou igreja-Mor, por ser considerada a casa principal de Deus na região. Denominada também de Domus Dei, de onde deriva a palavra italiana Duomo para designar igreja. Em português utiliza-se o termo sé catedral ou apenas sé, para designar uma catedral, derivada da palavra sede, como Santa Sé(Santa Sede).
 Barcelona. O nome Barcelona deriva do antigo Ibero Fenício Barkeno, e em latim como Barcino, Barcilonum e Barceno. Durante a idade média a cidade ficou conhecida como Barchinona, Barçalona, Baechelona e Barchenona, atualmente Barcelona. A história de Barcelona estende-se ao longo de mais de 4 mil anos, desde o final do período neolítico. A região onde situa-se a cidade atual foi habitada por povos iberos, cartagineses, romanos, judeus, visigodos, muçulmanos e cristãos. Apesar de terem sido encontrados vestígios dos povos iberos e cartagineses, o verdadeiro nascimento da cidade ocorreu através dos romanos por volta de 218 a.C. O povoado foi evoluindo até tornar-se um dos principais portos do mar mediterrâneo ocidental, alcançando na idade média o domínio sobre o restante dos condados catalães, convertendo-se na capital da Coroa de Aragão. Após a união de Castela e Aragão, deixou de ser a capital de um estado independente. Barcelona sempre teve posição de grande relevância no desenvolvimento político, social e econômico do estado espanhol. Mais recentemente acontecimentos como os Jogos Olímpicos em 1992 e o Fórum Universal das Culturas colocaram Barcelona como uma cidade mundialmente reconhecida e celebrada, importante ponto turístico e cultural, bem como centro financeiro e de congressos de reconhecido prestígio. Barcelona é a maior cidade e a capital da comunidade da Catalunha, no nordeste da Espanha, é também a capital da comarca de Barcelonés e da província de Barcelona. É a segunda maior cidade da Espanha, após a capital, Madri. Possui uma população de cerca de 1.62 milhão de habitantes e uma área de 101 km quadrados. A área urbana estende-se além dos limites da cidade a abriga uma população de mais de 4,2 milhões de habitantes em uma área de 803 km quadrados. É a sexta área mais populosa da União Européia, apos Paris, Londres, Vale do Ruhr, Madri e Milão. Barcelona está localizada na costa do mar mediterrâneo entre a foz do rio Llobregat e a foz do Rio Besós, limitada a oeste pela Serra de Collserola. 

 A catedral de la Santa Cruz e Santa Eulália, também chamada, ao invés de catedral, Seo ou Seu em língua catalã, é a catedral gótica de Barcelona, sede do arcebispo de Barcelona na Espanha. Foi construída durante os séculos XIII ao XV sobre a antiga catedral românica, edificada por sua vez sobre uma igreja da época visigoda e esta precedeu uma basílica paleocristã, cujos restos podem ser vistos no subsolo, no museu de História da cidade. A fachada de estilo neo-gótico, entretanto, é muito mas moderna, do século XIX. Foto abaixo. 


Está dedicada 1ª Vera Cruz ou Santa Cruz e a Santa Eulália, patrona da cidade de Barcelona, atualmente é mais celebrada como a Virgem da Mercedes que, estritamente, é patrona da Arquidiocese de Barcelona, uma jovem donzela que, de acordo com a tradição católica, sofreu o martírio durante a época romana. A dedicação a Santa Eulália data do ano de 877 quando o bispo Frodoí localizou os restos da santa e os levou solenemente para a catedral. 
 A Espanha como país predominantemente católico tem uma verdadeira coleção de templos. Possuem grande valor histórico, religioso e arquitetônico, sendo parte importante de patrimônio histórico espanhol. Construídos ao longo de séculos tornaram-se referência nas cidades. A Espanha tem um Plano Nacional de Catedrais, que pretende proteger e conservar 91 templos, entre catedrais, concatedrais, antigas catedrais e duas igrejas significativas a Basílica do Pilar e a Sagrada Família. Estes templos tem grandes dimensões e precisam de enormes recursos para a conservação dos diferentes estilos arquitetônicos. As construções dos templos começava pela cabeceira e consagrava-se o altar-mor para celebração do culto. Depois continuava com o cruzeiro e as naves. Assim os estilos mas tardios, barroco e neoclássico, desenvolveram-se com a edificação muito avançada e dada a necessidade de manter o estilo arquitetônico do projeto primitivo, os arquitetos dos estilos tardios ampliaram-nas desenhando estâncias completas e fechadas novas, para projetar com maior liberdade e sem condicionantes. A construção era financiada com recursos da diocese, com recursos do bispo, com contribuições reais e com doações dos fiéis. Abaixo foto capturada em visita a cidade de Barcelona.

Templo Expiatório da Sagrada Família, também conhecido simplesmente como Sagrada Familia, é o grande templo católico da cidade catalã de Barcelona, desenhado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí, é considerado por muitos críticos como a sua obra-prima e expoente da arquitetura modernista catalã. Financiado unicamente com contribuições privadas. O projeto foi iniciado em 1882 e assumido por Gaudí em 1882, quando tinha 31 anos de idade, dedicando-lhe os seus últimos 40 anos de vida, os últimos 15 de forma exclusiva. A construção foi suspensa em 1935 devido à guerra civil espanhola e não se estima a conclusão para antes de 2026, centenário da morte de Gaudí. A construção começou no estilo neo-gótico, mas o projeto foi reformulado por Gaudí, ao assumi-lo. O templo foi projetado para ter três fachadas: A Fachada da Natividade, Fachada da Paixão e a Fachada da Glória. O templo quando terminado disporá de 18 torres, quatro em cada uma das entradas-portais, um sistema de seis torres, com a torre de zimbório central dedicada a Jesus Cristo, de 170 metros de altura, outras quatro ao redor desta, dedicadas aos evangelistas, e um segundo zimbório dedicado a Virgem. O interior estará formado por inovadoras colunas arborescentes inclinadas e abóbadas baseadas em hiperboloides e paraboloides buscando a forma ótima da catenária. Estima-se que poderá levar ao seu coro 1500 cantores,700 crianças e cinco órgãos. Em 1926, ano em que faleceu Gaudí, apenas estava construída uma torre. Desde então prosseguiram as obras: atualmente estão terminados os portais da Natividade e da Paixão, e foi iniciado o da Glória, estando em construção as abobadas interiores. A obra foi incluída pela Unesco em 2005 no Sítio do Patrimonio Mundial com o título “Obras de Gaudí”. 
Eu poderia escrever sobre milhares de outras catedrais situadas mundo afora, muitas delas mais importantes do ponto de vista religioso, histórico e arquitetônico do que as acima citadas. Revolvi escrever sobre duas catedrais, ambas situadas em Barcelona porque lá estive juntamente com minha família durante uma semana. Barcelona, uma cidade linda, vibrante com um povo que adora celebrar a vida. Fala-se muito da crise europeia, o que não  se observa ao caminhar pelas ruas da cidade cheia de turistas, restaurantes com fila de espera, pontos turísticos praticamente inacessíveis atulhadas de gente. Para quem está pensando em viajar ao exterior recomendo não só Barcelona como toda a Espanha. Boa viagem. Por: Aloysio Tiscoski