sábado, 18 de maio de 2013

EUA CRIAM NOVAS DOENÇAS

Sou homem antigo. Da época em que não existiam TPM nem ponto G. Minha mãe nunca teve TPM. Minhas tias e avós muito menos. Minha filha já tem. 

Doenças novas surgem a cada dia, para regozijo dos laboratórios. Ano passado, a Folha de São Paulo trazia um caso interessante sobre como pintar com palavras eruditas o que vulgarmente atende por um nome bem banal, a notícia de um contador de 31 anos que não conseguiu mais pagar a comida nem o passe de ônibus: "Cheguei ao fundo do poço em três anos. Devia cerca de R$ 35 mil quando ganhava R$ 1.000 por mês." O contador, que não quer se identificar, participa de reuniões do Devedores Anônimos em São Paulo, um grupo de apoio a pessoas que sofrem de compulsão pelas compras (oniomania).

Em meus dias de guri, isso tinha outro nome. Quem assim se portava, só por eufemismo chamávamos de irresponsável. Na verdade, era um caloteiro. E merecia ser punido. Hoje é um oniômano. E faz terapia. Desde 2010 – prossegue o jornal - três grupos desse tipo foram abertos na capital paulista, na Grande São Paulo e no Rio de Janeiro. Em São Paulo, o grupo mais antigo, que funciona nos Jardins desde 1998, aumentou o número de encontros de um para dois por semana desde janeiro.

Pelo jeito, ao lado dos equoterapeutas e bototerapeutas, temos agora os oniomanoterapeutas – comentei na ocasião. Nestes dias de crédito fácil, a profissão tem futuro. Me pergunto como serão as reuniões desses grupos. Vai ver que discutem as melhores fórmulas de como rolar a dívida, de banco a banco, de cartão a cartão.

Na época, comentei ainda o surgimento de um novo profissional neste mundo de doenças novas, os gigolôs do luto. Uma atriz, Cissa Guimarães, optou pela terapia do luto após perder o filho. "A terapia do luto foi fundamental para que eu conseguisse sobreviver à maior dor de um ser humano", disse "Consegui isso com a ajuda terapêutica de Adriana Thomaz. Com ela, entendi melhor a morte, como fazer a conexão com o amor do meu filho e como reaprender a viver."

No início do tratamento, o indicado é visitar o profissional duas vezes por semana. Conforme o progresso do paciente, as sessões se tornam semanais e, posteriormente, quinzenais - até que o paciente receba alta. E isto, obviamente, quem vai decidir é o terapeuta. De acordo com Adriana Thomaz, ainda existem poucos especialistas em luto no Brasil, e a maioria atua na capital paulista. Normal. São Paulo, com sua diversidade e incultura, é berço fértil para todos os engodos e crendices. Aqui nasceram as prósperas igrejas dos bispos Edir Macedo, R. R. Soares, apóstolo Hernandez, bispa Sonia et caterva. Grandes vigarices não vicejam em cidades pequenas.

Pelo jeito, o homem contemporâneo, apesar de milênios de evolução, ainda não aprendeu a lidar como o mais corriqueiro dos fatos humanos. Se a moda pega, os terapeutas do luto vão brotar como cogumelos após a chuva. Se cada vez que morre uma pessoa querida, temos de pagar um analista para enfrentar sua morte, o leitor pode ter uma idéia do baita mercadão que se abre aos gigolôs das angústias humanas.

Cala-te boca. Depois de amanhã, a Associação Americana de Psiquiatria (APA), divulgará a nova edição do manual que define os critérios para diagnóstico de todos os transtornos mentais classificados pela entidade. Conhecido como a "bíblia da psiquiatria", esse documento é resultado de uma década de debates entre 1.500 especialistas e de um compilado de novas descobertas feitas desde a publicação da última versão revisada do manual, há 13 anos. Esta será a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, sigla em inglês para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders).

A economia é uma bicicleta que não pode parar. As novidades são muitas. Me atenho a algumas delas. Você tem um súbito desejo de empanturrar-se com um churrasco? Cuidado. Se ocorrer uma vez por semana, é doença e das mais graves. Chama-se compulsão alimentar. Estamos cercados de enfermos e não sabíamos.

Quanto à TPM, aquela doença que minhas contemporâneas desconheciam e a chamavam de cólicas, se antes era classificada como um problema que merecia mais atenção (e não como um transtorno psiquiátrico), agora é transtorno mental.

Você é daqueles que adoram tirar umas casquinhas da pele quando elas surgem por qualquer motivo? Pois agora sua inocente mania virou doença. Transtorno da escoriação da pele ou, em inglês, skin-picking. A APA afirmou que a doença será incluída no DSM-5 por haver "fortes evidências para a validação e a utilidade clínica desse diagnóstico." 

Não bastasse isto, dor pela perda de uma pessoa querida agora tem prazo. Se você chorar por muito tempo, é doença. Uma pessoa que está de luto por ao menos duas semanas pode ser diagnosticada com depressão. Está aberto o caminho para a regulamentação da profissão de gigolô do luto. Chorar duas semanas é o máximo permissível. Na terceira semana, você já está precisando de terapeuta.

"As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir; a esfera do normal está encolhendo", disse o psiquiatra Allen Frances, que comandou a comissão responsável pela quarta edição do DSM, em uma carta ao jornal The New York Times.

"Como presidente da Força-Tarefa do DSM-IV, eu devo assumir responsabilidade parcial por essa inflação de diagnósticos. Decisões que pareciam fazer sentido foram exploradas por empresas farmacêuticas em campanhas de marketing agressivas e enganosas. Elas venderam a idéia de que problemas da vida cotidiana são na verdade doenças mentais, causadas por desequilíbrios químicos e curadas com uma pílula", diz Frances, que é professor emérito da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, e um dos maiores críticos do DSM-5. 

Somos todos enfermos. Só não sabíamos disso. Ainda bem que os laboratórios ianques aí estão, onipresentes, para nos fazer retornar à saúde. Por: Janer Cristaldo

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