quinta-feira, 23 de maio de 2013

ANGELINA E A NEUROSE MÉDICA


A mutilação de Angelina Jolie que, ao amputar os próprios seios colocando próteses no lugar, acredita ter reduzido as chances hereditárias do câncer, é o resultado de um tipo de mentalidade paranóica comum em celebridades. Mas por trás dessa aparente extravagância, está a evolução de um longo processo que atinge grande parte da população por meio da construção de um ideal de saúde desconexo da realidade.

Geralmente é o lado emotivo que fala mais alto quando alguém, por ter perdido um ente querido por causa do câncer, louva Angelina Jolie como heroína da luta contra a doença. As defesas acaloradas são fruto da mesma paranóia que motivou a atriz em seu ato mutilatório e aparentemente inspirador também para outras celebridades.

Nas redes sociais se vê muitos que a atacam e a elogiam pelo ato, mas ambos centram-se no aspecto histórico da atriz ou da suposta inevitabilidade da doença hereditária. Mas este aspecto obstrui a visão do que está por trás do ato paranóico, e que diz muito mais sobre como as pessoas perderam a capacidade emocional de lidar com a possibilidade do adoecimento. Nada disso é novidade para quem leu ‘Nemesis Médica’, de Ivan Illich, que mostra o progressivo pânico gerado a partir da institucionalização da medicina.

Ivan Illich já dizia nos anos 1970 que a medicina institucionalizada era uma grande ameaça à saúde. O termo iatrogenia, que se refere ao estado de doença ou complicação causada pelo tratamento médico, aparece pela primeira vez na obra de Illich e, segundo ele, pode se manifestar de três formas apresentando-se simultâneos na sociedade atual e, ao mesmo tempo, decorrem um do outro quase que inevitavelmente.

O primeiro é a iatrogenia clínica, causada pelo cuidado médico, falta de segurança no uso de equipamento cirúrgico ou determinada tecnologia, uso ou abuso de drogas médicas. O famoso erro médico ou de diagnóstico. Em segundo lugar, há a iatrogenia social, decorrente da crescente dependência da população em relação ao uso de drogas que amenizam o sofrimento, tratamentos prescritos pela medicina em seus ramos preventivos, curativo, ambiental e industrial. Trata-se de um estabelecimento do papel do doente como ser passivo e que aguarda as soluções mágicas do medicamento, enquanto o médico salvador trará a tão sonhada cura. A dependência, neste aspecto, é a da autoridade médica que é uma extensão da autoridade científica. Este fenômeno real e que afeta inevitavelmente quase todo mundo, produz, por sua vez, um terceiro aspecto da iatrogenia que é a de feição cultural.

A iatrogenia cultural é a destruição potencial da capacidade de lidar com a enfermidade ou com a morte. A perda gradual de tudo o que as civilizações criaram como expedientes culturais eficazes para lidar com a vulnerabilidade da condição humana diante do inevitável, das contingências da vida. Todas as práticas culturais e tradicionais antigas foram substituídas pela figura do médico e da técnica profissional. Neste aspecto há o sonho, a perspectiva, da possibilidade da técnica estender indefinidamente a existência corporal humana, da eliminação definitiva de todo e qualquer sofrimento físico.

No final dessa linha está a ideologia do transhumanismo, que propõe libertar o ser humano de todas as suas limitações físicas e biológicas chegando até a propor a eliminação completa da dor e de todo tipo de sofrimento. Illich ressalta que essa mentalidade teria começado na Revolução Francesa, que deu origem ao mito de que os médicos podia substituir os clérigos e que a sociedade poderia voltar a um estado de “saúde original”, onde inexiste o sofrimento. Datam daquele período as primeiras propostas de saúde pública.

Pior do que a idealização da saúde, que em alguns casos pode estar associada a padrões de beleza e moralidade, é o pânico do sofrimento, a neurose causada pela inconformidade extrema com qualquer possibilidade de sofrer e mesmo de enfrentar o risco do sofrimento, como mostra bem o caso de Angelina Jolie.

Hoje o sofrimento é uma cruz por demais ingrata e inútil, afinal, a referência cristã que o laicismo militante considera tão cruel era a única coisa que conferia alguma dignidade ao sofrimento físico do ser humano, que, em certa medida, é inevitável. A dor de muitas pessoas se torna ainda pior e mais insuportável quando, em nome de um ideal de saúde, relaciona-se às doenças todo tipo de impureza, tal como em tempos remotos. Não tardará para que esta sociedade apartada da caridade cristã jogue seus “leprosos” em guetos imundos, para evitar o contágio dos considerados saudáveis ou, mais precisamente, dos que tenham dinheiro para pagar pelo tão sonhado fim de todos os seus sofrimentos.
Por: Cristiano Derosa é jornalista.


Postar um comentário