quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O OCIDENTE ACREDITA EM SI MESMO?

O declínio da economia é um reflexo do declínio da liberdade e da nossa crença naqueles valores que engendraram liberdade.

No final do livro Da Alvorada à Decadência, Jacques Barzun nota que a cultura popular do nosso tempo não “sofreu de inércia”. Ela está sempre se movendo, escreveu Barzun, “de acordo com a sua categoria...”. É uma cultura guiada pela “paralisia em um domínio” e “incompetência em muitos”. A ciência e a tecnologia têm continuado a avançar enquanto a arte e a literatura padecem de um completo declínio. Muitos observadores relutam em usar a palavra “decadência” para descrever o que tem nos acontecido desde meados do último século. Tal relutância, disse Barzun, é até natural. Contudo, se olharmos pela perspectiva econômica da cultura, considerando a esfera dos negócios, produção, comércio e mercado, encontraremos algumas tendências preocupantes, dado que na esfera econômica podemos rastrear objetivamente um cenário de estagnação.

A economia é parte de uma cultura maior. Quando a decadência econômica aparece, os problemas econômicos não estão muito longe. Não é estranho então que as taxas de crescimento econômico na América e na Europa tenderam a diminuir no último século. Muitas evoluções paralelas podem ser citadas como causas parciais – ou corolários – da desaceleração econômica. Barzun, subscrevendo um analista ‘anônimo’, afirmou que “Após um tempo – por volta de um século ou um pouco mais – a mente ocidental foi atacada por uma praga: era o tédio”.

Tratando do tema, Diana West caracterizou o corolário essencial desse tédio no livro The Death of the Grown-Up: How America’s Arrested Development Is Bringing Down Western Civilization [NT.: A morte do adulto: Como a infantilização americana está destruindo a civilização ocidental, tradução livre]. Segundo West, “O mundo das sensações engloba tanto adultos quanto crianças. E assim que passamos a ignorar os limites que outrora definiram a esfera da infância tradicional, também ignoramos o que uma vez regulou os padrões médios da vida adulta. Tais limites – estabelecidos há muito tempo por mandamentos religiosos, por leis e por convenções sociais de autodomínio – se esvaeceram maciçamente das cortes e da cultura no final da década de 1960”. Eu seu último livro, American Betrayal: The Secret Assault on Our Nation’s Character [NT.: Traição Americana: O ataque secreto às características da nossa nação, tradução livre] analisa mais a fundo as causas da nossa degeneração cultural. Em uma parte do livro ela diz: “fazendo o caminho de volta, chegamos à pergunta básica que representa o fim da linha: Por quê? Por que todas essas coisas começaram a acontecer em primeiro lugar? A resposta comum [...] que se chega é: Perdemos nossa convicção cultural. Não acreditamos em nós mesmos, nos nossos valores ou qualquer outra coisa”. West está dizendo que não acreditamos da mesma forma que outrora, como no cristianismo ou no livre mercado ou na América. E o que pode ser mais danoso a uma economia baseada no livre mercado que esse súbito colapso de cnfiança?

“A questão então passa a ser”, escreveu West, “E se essa perda de convicção cultural for o resultado de uma progressão inevitável da moralidade tradicional rumo ao relativismo cultural? E se houvesse, de fato, algum culpado ... por trás da espiral de eventos .... E se a 'morte dos adultos' resultante for, na verdade, ... um assassinato?” West considera essa uma “conclusão meio extravagante”, mas ela não é mais extravagante que a afirmação do economista austríaco Ludwig von Mises quando ele diz que “a história da civilização ocidental é o registro da incessante luta pela liberdade”. Isto é dizer que é uma luta pela liberdade contra aquelas forças que procuram restringir a atividade econômica humana.

O economista Wilhelm Röpke uma vez observou que nos períodos de genuíno esclarecimento e liberdade foi necessária a existência de uma grande classe média (i.e., a burguesia). Uma grande classe média não poderia existir sem um mercado relativamente livre. É desse mercado que a classe média tirou sua riqueza e seu desejo de avançar na causa da liberdade. Assim, a verdadeira classe média, no fundo do seu coração, foi pela Grécia contra a Pérsia, por Demóstenes contra Filipe, por Brutos e contra César, pela América contra o Rei George, pela OTAN contra o Pacto de Varsóvia, etc. É nessa mesma classe média que encontramos Paulo de Tarso, fabricante de tendas, Pedro, o pescador e Cristo, o carpinteiro. Esses homens são o oposto dos homens fortes da história – estes últimos foram os perseguidores da liberdade. César, Napoleão e Hitler eram perseguidores de algo no extremo oposto do espectro deles. Quando Mises escreveu que “a história da civilização ocidental é o registro da incessante luta pela liberdade” podemos mapear o surgimento e a queda dessa liberdade como o surgimento e a queda da própria civilização. É, ao mesmo tempo, o surgimento e a queda da classe média e do livre mercado, pois todas essas coisas estão interconectadas. Em meados do século XX, disse Mises, “poucas pessoas puderam prever o sobrepujante impulso que todas as ideias anti-libertárias estavam destinadas a ter em tão pouco tempo”. Essas ideias anti-mercado, diz ele, estão camufladas como o “cumprimento e a consumação das próprias ideias de independência e liberdade. Elas vêm disfarçadas de socialismo, comunismo e planejamento”.

Na introdução ao livro Moral Foundations of Civil Society [NT.: Fundações morais da sociedade civil] de Röpke, William F. Campbell escreveu que a civilização europeia é melhor definida “como um movimento de resistência contra a sedução do oriente”. Campbell observou que “a busca do homem por conforto e segurança sempre o torna vulnerável à tentação totalitária”. De acordo com Campbell, precisamos ter em conta o extremo perigo ao qual estamos expostos atualmente, pois assim como os romanos caíram, nóstambém estamos na beira do abismo. Roma foi destruída, escreveu Campbell, “por conta de uma infecção interna e não por conta da invasão dos bárbaros. Sua guinada para o coletivismo e para uma vida de inseto [...] foi o que caracterizou a era que se seguiu após Augusto. O gosto pelas luxúrias, novidades e o culto do colossal corromperam os lares e as famílias. A liberdade foi colocada de lado”.

As inter-relações entre cultura, religião, moralidade, auto-disciplina e liberdade são inegáveis. Como Röpke explicou, “O elemento cristão [da nossa herança] foi [...] sujeito a um processo contínuo de secularização até que finalmente, o poder da fé começou a enfraquecer, conforme primeiro conscientemente e depois inconscientemente floresceram os conceitos secularizados de racionalismo, progresso, liberdade e humanidade...”. Não encontramos evidência disso em todo lugar. Permitimos que nossa herança caducasse. A religião do Ocidente, junto do legado da antiguidade pagã, fez com que encontrássemos a liberdade. Mises explicou: “A ideia de liberdade é e sempre foi peculiar ao Ocidente”. A era do capitalismo, disse, “aboliu todos os vestígios de escravidão e servidão. Pôs um fim às punições cruéis e reduziu a pena por crimes cometidos pelo mínimo indispensável para desencorajar os infratores. Mandou embora a tortura...”.

Com efeito, o leitor deve entender que o declínio da economia não é um mero problema administrativo. Não é um problema para ser solucionado pela intervenção governamental. O declínio da economia é um reflexo do declínio da liberdade e da nossa crença naqueles valores que engendraram liberdade (i.e. os valores ocidentais). Se nessa conjuntura, qualquer um pensar que estamos prestes a entrar em uma fase de prosperidade sem precedentes, deixando a crise econômica para trás, então que nos mostre que os valores ocidentais estão sendo revividos. Mostre que as forças da tirania estão recuando. Mostre que o Ocidente, mais uma vez, acredita em si mesmo.

POR JEFFREY NYQUIST Publicado no Financial Sense. Tradução: Leonildo Trombela Júnior
Postar um comentário