sexta-feira, 13 de setembro de 2013

MEDALHAS DO BRONZE

O verão dá os últimos suspiros na Europa e o ritual é conhecido: os veraneantes regressam aos seus trabalhos e quando alguém formula a questão clássica ("Como foram as férias?"), o outro faz um sorriso forçado, enorme, gigantesco, planetário e responde com uma longa lista de proezas e delícias dignas de um filme Disney.


Honestamente, já deixei de fazer a pergunta. Hoje, prefiro outra: "Quão fabulosas foram as tuas férias?" O outro fica aturdido com a questão. Mas nem a ironia manifesta dela o convida a refrear o teatro.

As férias foram incomparáveis / inacreditáveis / paradisíacas. O bronzeado ali está, estampado no corpo, para o provar. Desconfio até que muitos veraneantes se entregam ao bronzeado, não apenas por prazer --mas por dever: o dever de terem uma medalha olímpica para mostrar.

Então penso: ah, como seria bom! Ou, pelo menos, diferente. Encontrar alguns colegas de trabalho, perguntar pelas férias e ouvir uma resposta honesta:

"As férias foram normais."
"Não foram grande coisa."
"Uma bosta, para falar a verdade."
E depois, alguns pormenores:
"A minha mulher / marido está cada vez mais insuportável."
"O turismo de massas é para gado, não para seres humanos."
"Você acredita que eu já tinha saudades do trabalho?"

Até lá, e sempre que setembro começa, também começa o festival para ver quem mente melhor. Estranho mundo, este, em que as férias deixaram de ser férias e passaram a ser mais uma forma de competição social.

2.
E por falar em setembro: as noites estão mais frias em Lisboa. Os dias também. Que é feito do aquecimento global que os cientistas prometiam para o século 21?

Pelo visto, ninguém sabe: desde finais do século 20 que os termômetros nunca mais espantaram as manadas. Pior: segundo o "Sunday Telegraph", parece que em 2013 houve um aumento de 60% na superfície oceânica coberta por gelo. E o ano ainda nem acabou. Nem o inverno chegou ao hemisfério norte.

A situação é tão preocupante que vários cientistas já admitem que o mundo pode estar a entrar num período glaciar que durará até 2050. O mesmo jornal relembra os leitores que, anos atrás, a BBC avisava que em 2013 a região ártica deixaria simplesmente de ter gelo.

Perante esta catástrofe para os "profissionais da catástrofe", talvez não seja de excluir que as próximas recomendações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas seja para aumentarmos, e não para diminuirmos, a emissão de gases com efeito de estufa para a atmosfera. Um novo documentário do sr. Al Gore a respeito talvez não fosse má ideia.

Se o planeta não aquece rapidamente, a única coisa que promete derreter são as reputações acadêmicas de quem fez do aquecimento global uma carreira.

3.
Chegou aos jornais da Europa o estranho caso de um brasileiro que, depois de um acidente vascular cerebral, desenvolveu um gosto extravagante pelo altruísmo. Ele distribui presentes pelos amigos, dinheiro pelos pobres, prendas pelas crianças da rua - e a família, claro, está à beira da colapso financeiro e mental.

Os médicos estão intrigados com o fenômeno e explicam tudo com alterações orgânicas na massa cinzenta. Mas notável é escutar o próprio, um empresário de 49 anos, que afirma: "Estou plenamente consciente dos meus atos; mas depois de ter olhado a morte de perto, estou cansado de trabalhar e quero desfrutar a vida, que é bem curta."

Depois destas palavras, não sei quem estará realmente doente. Desconfio que não é o doente.

Por: João Pereira Coutinho Folha de SP



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