quinta-feira, 25 de abril de 2013

PENSAR E SENTIR

O ser humano foi desmembrado por Platão quando ele separou as sensações das abstrações. Essa cisão, da qual já falei em outra oportunidade, mostrou que o ser humano pode viver dois tipos de conteúdos. Um dos conteúdos que pode ser vivido é o conteúdo das abstrações, o que chamamos de pensamento. O outro conteúdo que o ser humano vive é o conteúdo das sensações, aqueles conteúdos que provém dos cinco sentidos. É possível que o ser humano viva mais as sensações ou o pensamento, mas um está intimamente ligado ao outro, pois todo o conteúdo do nosso pensamento teve uma primeira origem nas sensações, ao menos é isso que diz o filósofo empirista David Hume. O que muitas pessoas não sabem é que podemos escolher se queremos viver as sensações ou o pensamento. 


Num dia de inverno você senta na varanda e vai longe no pensamento, ligado às questões da empresa, aos trabalhos dos alunos na escola, às contas que tem para pagar na segunda. O corpo está ali na varanda, todos os sentidos estão ali, mas o foco está no pensamento, ou seja, a pessoa não consegue controlar o pensamento e ele voa para longe do corpo. O problema é que para muitas pessoas a vida nos pensamentos é muito ruim, eles vão para o que a vida tem de pior: dívidas, brigas, medo, etc. Em Filosofia Clínica é possível tirar a pessoa dos pensamentos e levá-la Em Direção às Sensações, ou seja, tirá-la das ideias e reconectá-la ao corpo. A pessoa que estava na varanda perdida nos pensamentos pode voltar para o corpo ao sentir o cheiro do orvalho das primeiras horas da manhã. A partir do cheiro do orvalho a pessoa sente a brisa fria, o arrepio do friozinho que gela as orelhas, assim como a sensação reconfortante do casaco quentinho. Para muitas pessoas, sair do pensamento e ir “em Direção às sensações” é se livrar da angústia, do medo, é reduzir a velocidade do tempo, para muitos sentir é viver de verdade.

Há, no entanto, algumas pessoas que têm problemas no corpo, têm dores, sofrem de enfermidades que fazem do corpo um péssimo lugar para se estar. Assim como não há prisão que prenda uma pessoa no pensamento, também não há prisão que prenda uma pessoa no seu corpo, nas suas dores. Quando isso acontecer é possível afastar a pessoa do corpo levando-a “em Direção às Ideias Complexas”. Aqui o movimento é contrário: enquanto o anterior leva a pessoa de volta para o corpo, esse retira a pessoa dele. Uma pessoa pode sair do corpo quando escreve um livro, como no filme “O escafandro e a borboleta” ou podem sofrer terrivelmente as mazelas do corpo como o filme “Jhonni vai à guerra”. Para sair do corpo é necessário observar o que leva a pessoa para o pensamento, mas também é preciso observar para quais pensamentos levamos a pessoa. 

Trazer uma pessoa de volta a seu corpo ou levá-la para as ideias pode ser um caminho para melhorar a qualidade de vida. Se suas ideias não são boas, se seu corpo não lhe faz bem, não é necessário ficar preso ao corpo ou às ideias, você pode se mover entre estes dois extremos ou vivenciar um meio termo. Mais do que saber viver o corpo ou o pensamento, a arte é saber em quais momentos o pensamento é necessário, assim como saber quando é necessário viver o corpo. Por: Rosemiro Sefstrom
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