quarta-feira, 17 de abril de 2013

FRANCISCO E A RAZÃO DE ESTADO

A passagem de Bento XVI para Francisco na Sé romana faz recordar a diatribe de Dupanloup sobre os liberais do século 19. "Vocês nos falam",diz ele,"de progresso, liberalismo e civilização como se fôssemos bárbaros (...), mas estas palavras sublimes que vocês desnaturam fomos nós que lhes ensinamos, que lhes demos o verdadeiro sentido e, melhor ainda, a realidade sincera. (...) O dia em que este sentido perecer, perecerá todo progresso real, todo liberalismo sincero, toda civilização verdadeira". As palavras do bispo são claras para quem estuda a hierarquia eclesiástica. Elas defendem dois textos pontifícios contra a modernidade: o Syllabus (coleção de erros modernos condenados pela doutrina católica), adendo à encíclica Quanta Cura. Estranho notar que Dupanloup integra as hostes modernistas. Na França e na Alemanha os liberais católicos formaram minorias combativas que resistem ao controle pontifício. Tivemos repercussões de sua militância no Brasil. Rui Barbosa traduz o livro O Papa e o Concílio (Rio de Janeiro, 1877).O autor original é Döllinger, líder dos católicos liberais alemães.Analistas até hoje se espantam com a defesa feita por Dupanloup de escritos pontificais que proíbem o liberalismo católico. É preciso ver o contexto da brochura: ela une dois eventos diversos, mas presos à razão de Estado e à razão da Igreja. Vejamos o título:A convenção de 15 de setembro e a Encíclica de 8 de dezembro. Em 15 de setembro (1864)Victor Emmanuel assina um tratado com o imperador Napoleão III em prejuízo do Vaticano. Em 8 de dezembro o papa lança a Quanta Cura, na qual o secularismo político é condenado. Impossível ignorar o elo entre os eventos.Contra a Real politik o pontífice endurece princípios. Dupanloup, embora favorável a mudanças na ordem eclesiástica, não pode abandonar normas que permitem à Igreja resistir ao secularismo político, pois elas convocam as massas católicas na Europa e no mundo contra o Estado agnóstico ou ateu. O "verdadeiro"liberalismo, segundo Dupanloup, encontra-se na Igreja, mesmo que ela siga uma rota que leva a sendas espinhosas. Após a Quanta Cura a política disciplinar vaticana doma os liberais católicos na Alemanha, na França e... no Brasil. Depois da Questão Religiosa é impossível achar pessoas como o liberal Diogo Feijó:estadista,leitor do kantismo e padre. No primeiro momento do século 20 a Igreja brasileira exorciza o liberalismo com a força de imensas multidões. (cf. Romualdo Dias,Imagens de Ordem, a Doutrina Católica sobre Autoridade no Brasil, 1922-1933).

Volto à História atual. Quem segue a CNN e similares só tem notícias dos escândalos eclesiásticos (pedofilia, finanças, Vatileaks, etc.). A instituição que recolhe milênios de culturas, políticas, filosofias, estéticas é vista em prisma anamorfótico que tudo deforma. Analistas falam em "modernidade", "adaptação da Igreja ao mundo moderno", como se atrás de tais frases se escondesse o paraíso. Num mundo imerso em guerras genocidas, crises econômicas que jogam milhões na fome e no desemprego, no qual o Estado não exerce plenamente a soberania interna ou externa e a propaganda esmigalha a política, é quase delírio dizer que a Igreja deve adaptar-se ao padrão cultural vigente. A modernidade e a pós-modernidade exibem chagas mais purulentas do que as mostradas no corpo eclesiástico.

Quando Bento XVI abdicou, fui ao prestigioso Globo News Painel, coordenado pelo competente William Waack. Após ouvir a tese de que Bento não se abriu para a cultura atual, repliquei que o problema não é do pontífice, mas da Igreja desde o século 16. Recordei o filósofo Leibniz, que elogia os jesuítas na China e o convívio entre catolicismo e cultura oriental. Na América, as reduções guaranis seguem rumo similar (Lugon, Clovis: A República Comunista Cristã dos Guaranis, Paz e Terra, 1968, e, contra Lugon, Sylvio Back, no filme A República dos Guaranis). O etnocentrismo soba batuta dos padres dominicanos proibiu as experiências jesuítas: tudo na China e no Japão devia ser feito segundo o padrão latino, das vestes litúrgicas às doutrinas morais.No momento do debate na Globo News ninguém sabia que um papa jesuíta seria escolhido.Recebi mensagens de colegas estranhando minha intervenção.

Explico o ponto resumindo os enunciados deste artigo.Trabalho desde longa data com a razão de Estado como fruto de doutoramentos obre Igreja e poder estatal (Brasil: Igreja contra Estado, 1979). Os textos de Leibniz sobre os Estados, o Direito e a religião entram na pesquisa(cf., entre muitos, Lach, D.F.:Leibnizand China,no Journal of the History of Ideas, 1945).

Dupanloup,embora liberal,discursa num instante em que dois Estados (Itália e França) prejudicam a Igreja. Para salvar sua instituição ele segue o "sacrificio dell'intelletto", pedra de toque da obediência na fé.

Existem muitos hierarcas,padres e leigos como Dupanloup.

Eles sacrificam teses em proveito do todo eclesiástico. Assim militam os jesuítas. Donos de refinada técnica missionária, eles compreendem a razão de Estado e a razão da Igreja. O santo que mais serviu ao poder papal é jesuíta, Roberto Bellarmino, alvo de ataques no Leviatã hobbesiano. Seu colega de colégio jesuíta foi Giovanni Botero, que escreveu o primeiro livro explícito sobre a razão de Estado (cf.Della Ragione di Stato, 1588). Para quem estuda a Igreja e o Estado, portanto, era clara a via a ser trilhada pelo Colégio Cardinalício após Bento XVI: eleger um jesuíta com domínio da política e da religião, afeito às culturas do mundo,mas defensor da Igreja.Trata-se de corrigir a rota após a desastrosa decisão de impor formas europeias à fé católica, ou seja, universal. Francisco buscará a mudança em relação à política pontifical do século 17.Nela venceram os dominicanos, mas a Santa Sé perdeu a China e, talvez, o mundo. Por: Roberto Romano O Estado de SP
Postar um comentário