quarta-feira, 24 de abril de 2013

O SILENCIAR

Usar palavras para falar sobre o silêncio poderá parecer mais umas das tagarelices epistemológicas. Lembrei-me, então, de uma frase de Rubem Alves: “Falamos palavras a fim de não ouvir a palavra que brota do silêncio”. Como falar do silêncio com palavras, senão convidando a todos a um instante de silenciar.


Sei que se torna quase impossível falar do silêncio, pois é do próprio silenciar que surgem as palavras. O silêncio não é mudez, nem verbalização que se cala. Nosso eu superficial precisa calar e se acalmar sem a ansiedade do ter que fazer e dominar.

Silenciar não é fugir da vida, pelo contrário, é fluir na plenitude da vida. Silenciar é mergulhar na existência a fim de colher da vida tudo que ela nos oferece de sublime. Silenciar é comungar com tudo e todos. Silenciar é graça e beleza gratuita.

“O silêncio puro fica para além das palavras, dos sentidos, das ilusões; o silêncio verdadeiro inaugura-se logo que o eu superficial desfalece” diz Moratiel. O silêncio diz muito mais que alguém pode dizer. As palavras podem limitar, enquanto o silêncio pode revelar.

O silenciar nos convida ao caminho das não-palavras, sem julgamentos, interpretações, previsões e conjecturas. Por isto transforma-se numa grande rebelião contra nossa desordem própria.

Quando silenciamos derrubamos muros que nos separam da vida, pois o silêncio não é prisão, mas sim um respirar livre e profundo. Assim posso conectar com meu eu interior, pois muitas vezes não sei o que sou. Silenciando posso possuir-me e saborerar-me.

Não basta calar a boca para que o silêncio aconteça. Estamos cheios de gestos, de ruídos interiores, tagarelices. Muitas vezes pegamos um livro, ouvimos uma música, quando o silêncio se apresenta. Não é só a palavra que emudecer. O repouso precisa ser absoluto. Importante calar o corpo, imobilizar até as células.

O silêncio brota do coração. Ele acontece naturalmente da consciência unificada. Não tem como impormos o silenciar. Podemos sim treinar o aquietar corpo e psique.

Para mim, silenciar é primeiro esvaziar. Esvaziar as palavras que transitam pelos pensamentos. Como é difícil esvaziar? Meditação é a tentativa de esvaziamento. Não mais brigar com as palavras do pensamento. Ser apenas observadora sem interpretações e julgamentos.

No cotidiano agitado, sedutor, midiático, se não treinarmos bastante o aquietar ficará difícil para experimentar o silenciar que é uma atitude natural do humano. Fomo-nos perdendo frente aos excessos de sons e palavras. O silêncio não se compreende, pratica-se, pois é ação.

Agora por exemplo, estamos calados, mas as palavras se fazem presentes e distanciam o silenciar. “O silêncio é tarefa artesanal. É arte de aprender a estar onde se está. Ë uma atitude que exige de nós toda a atenção. Ë uma espécie de entrega e oferta à presença.”

Quando o silenciar acontece, perdemos a necessidade de procurar seja o que for. Silenciar é um encontro com o vazio que nada mais é que nossa plenitude. Não alcançamos o silêncio com conceitos. Não temos nada a esperar, mas apenas que acolhê-lo.

O silenciar nos faz apreender através de tudo que é dito. Existem mensagens indizíveis. Se nos prendermos a palavra expressa corremos o risco de perder o essencial da unidade profunda que a diversidade das palavras tenta mostrar.

Sair da Banalidade e velocidade grotesca não é tão fácil assim. Até a filosofia torna-se muitas vezes instrumento de barulho.

Perseguindo os rastros do silêncio fui passando por práticas orientais e fui conduzida ao filósofo Plotino. Em Plotino a busca do silêncio se revela e muito nos orienta ao mergulho. Ele revela-nos a dist6ancia entre O Um e a existência. Com ele aprendi que a “busca do silêncio”só é burburinho e que o silenciar é a única via para o silêncio, pois silêncio é presença que ocupa todos os lugares não estando ausente de nada. Nós é que não nos colocamos no lugar de percebê-lo. Plotino não fala do silêncio mas nos conduz a ele.

Segundo Plotino é importante à prontidão para a escuta, que depende de nossa disponibilidade em nos livrarmos de todos os demais sons, a fim de escutar o som que vem do alto – O silêncio. O silêncio em Plotino é caminho. Todo nasce do silêncio, as formas, a alteridade e o movimento. Ele diz; ”O universo produz seu objeto no silêncio. A natureza é uma contemplação do silêncio”.

Para fins didáticos penso nos silêncios que encontramos emm nós e nos outros.

Existem silêncios que não brotam do coração, são os falsos silêncios:

Silêncio do medo – quando sentimos coagidos, tímidos, sem saber o que fala. Inseguros sobre como e o que falar.

Silêncio da angústia – sufoco e peito apertado. Muitas vezes não há o que falar por se estar confuso interiormente.

Silêncio da culpabilidade _ evito falar porque preocupo com o que vão pensar…. Evito falar porque vão me culpar…

Silêncio da debilidade – não sei o que dizer. Calo por impotência.

Silêncio da indiferença – sinto aborrecido. Estou alheio de tudo. Não me importo com nada; nada me interessa.

Silêncio da inveja – acabam os elogios, apoios e comentários positivos que dão entusiasmo. Silêncio perigoso, pois tenta destruir o outro.

Silêncio do Orgulho – sinto-me melhor que você. Coloco hierarquia.

Estes silêncios nos adoecem e vão matando a comunicação.

Mas há os silêncios positivos:

Silêncio da Humildade- Silêncio do respeito. Ouvidor. Acolhedor. Amoroso.

Silêncio da admiração – Silêncio da atração . O olhar diz tudo. Os gestos revelam.

Silêncio maravilhado: Silêncio que do encantamento. Se perguntarmos algo se quebra o silêncio. Silencio da criança, pureza simples.

Silêncio da alegria: Coração pulsante. Felicidade. Êxtase.

Silêncio do amor: Silêncio da pura comunhão. Olhar que tudo revela. A presença que preenche tudo.

2-Silenciar no encontro com o outro.

Outro que esta a minha frente. O Silêncio meu e silêncio do outro. Primeiro encontro. Desconhecidos um para o outro. O outro ansioso por saber se pode compartilhar com ele de suas dores, angústias e dúvidas. E eu no silêncio que espera, espera ouvir. Silêncio ouvidor. Silêncio sem a onipotência do saber/poder. Silêncio de quem quer realmente estar com o outro por inteiro. Silêncio que olha sem julgamento. Silêncio aprendiz.

Silêncio que ensina sobre o outro a minha frente. Silêncio que permite o outro se pensar e se sentir.

O meu silêncio no encontro com o outro é exercício de muito treinamento. Treino de se esvaziar das vaidades e dos orgulhos. Treino de se esvaziar das teorias e regras. Treino de não tentar colocar o outro dentro de regras e normas pré-estabelecidas. O outro não é uma coisa, mas gente muitas vezes sofrida e em dor. Treino de se fazer apenas ouvidor de almas. Treino de amar o humano na sua singularidade.

O silenciar na escuta, sem interpretar, no apenas ouvir. Quanto treino se faz necessário! Escutar não só com os ouvidos, mas com o coração e corpo inteiro. Silenciar na escuta atenta de cada palavra, gesto e sentimento que brota do outro a minha frente. Eu, vazia dos meus pensamentos, aberta ao outro que anseia por falar de si. Pura escutatória.

No exercício de aprender a ser terapeuta, quantas vezes me encontrei tentando interpretar? Quantas vezes caí na armadilha de buscar uma solução para o outro? Quantas vezes parei de ouvir o outro e fiquei a voar em meus pensamentos? Quantas vezes agendei e enraizei? Cada vez que percebia que longe estava da minha proposta de silenciar e escutar o outro mais ia aprendendo o ser terapeuta. Fui me libertando da culpa de errar na compreensão que a jornada do ser terapeuta é longa, com esforços múltiplos e treino contínuo. Na vida é a mesma coisa. Com amigos, com filhos, com o amante…

Na jornada de ser terapeuta, fui compreendendo que o silêncio diz muito.

Silêncio como pausa no convite à escuta plena. Mas não precisa ser terapeuta para aprender a grande arte de silenciar, escutar e encontrar o outro. Este é o grande segredo do amor. Este é o grande segredo da vida viva.

No esvaziar e silenciar ia cada vez mais mergulhando no labirinto junto com o outro. Mergulhando em suas palavras e em suas pausas. Junto com ele caminhando em parceria, possibilitando o outro a se ouvir e se compreender. Tornando-me um espelho por onde ele, o Outro, refletia sua historicidade, sua vida. Belo desafio este de compartilhar dores e alegrias! Só silenciando e ouvindo.

No silêncio do encontro com o Outro, vou me permitindo:

ü Estar com o Outro por inteiro

ü Consciente que o Outro quer ser ouvido e compreendido

ü Coração aberto

ü Mente observadora

ü Humildade de aprendiz

ü Vazia de mim

ü Perceptiva ao corpo, que no seu silêncio diz muito.

No silêncio, pura escutatória. Rendo-me ao Outro. O outro vai me ensinando os caminhos que vou trilhar com ele. Neste instante não há teoria, não há regras, nem normas, há apenas o silêncio que tudo diz

Ah! Mas quando o outro silenciava, quanta ansiedade brotava em mim. No início queria por palavras para fugir do vazio e da incomodação do silêncio. A ansiedade não permitia deixar o silêncio do Outro acontecer. Só mais tarde fui compreendendo que era exatamente neste silêncio que brotavam as estranhas palavras que precisavam ser ouvidas.

O silêncio, muitas vezes, incomoda, pois traz à tona palavras que se escondem e fogem, para não ser ouvidas. Fugimos, muitas vezes, do silêncio para não confrontar com a realidade. Tagarelamos para ludibriar as verdades que nos faz doer.

O silêncio do Outro pode estar dizendo dos seus medos, de sua timidez, dos seus disfarces, do seu desinteresse, de suas repressões e de suas mil e uma coisas difíceis de revelar para si mesmo, quanto mais para um estranho – terapeuta- a sua frente. Ou o silêncio pode ser um grande desafio. O silêncio pode dizer muitas coisas que as palavras não conseguem dizer. Este silêncio pode falar da profunda angústia ou do profundo amor.

Este é um dos pontos mais delicados do encontro, pois interpretar pode destruir toda a magia do encontro. Cria uma distância. A interpretação pode agendar e destruir a possibilidade do Outro se descobrir.

Nos encontros devemos prestar atenção para:

O silenciar-ausência:

ü Silenciar teatral, que é fingido pela técnica aprendida.

ü Silenciar medo de se revelar.

ü Silenciar desinteresse, o que o outro fala é monótona para mim.

A silenciar-máscara:

ü Silenciar no Calar as palavras, mas as expressões falam o não dito.

ü Silenciar com rosto boneco de cera que tenta esconder sentimentos e pensamentos.

ü Silenciar falsas expressões.

O silenciar-inteireza:

ü Silenciar natural, puro interesse.

ü Silenciar coragem de deixar vazios no fluir angústias.

ü Silenciar interesse verdadeiro pelo outro.

ü Silenciar amoroso do gostar de gente.

Como se torna perigoso a tendência interpretativa diante do silenciar do outro!

Onipotência. Vale aqui a lembrança do nosso velho sábio Sócrates: – Só sei que nada sei. Diz Fernando pessoa: -Que sei eu?

Que sei eu do outro a minha frente? A história de cada um é única. Não posso reduzir o Outro a uma tipologia como se fosse ‘coisa’ a ser catalogada.

Cada um é um mistério a ser revelado. Cada um é um enigma a ser decifrado.

Cada um é humano a ser compreendido. Que direito tenho eu de invadir o espaço do outro com meu saber/poder?

Só nos resta agora silenciar. Respirar fundo e sentir as vastas possibilidades que a quietude pode nos oferecer para qualificar não só nossa vida, mas os encontros com os Outros.

O Silêncio é um caminho.

Caminho do encontro verdadeiro e pleno.

Caminho da psique.

Silêncio é encontro.

Encontro sublime do eu comigo mesmo

E do meu todo entregue ao Outro

Outro que pode simplesmente ser agora: Você

Por: Rosângela Rossi
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