domingo, 7 de abril de 2013

O CÉSAR E DEUS

Eu diria que é realmente surpreendente o impacto político que teve a nomeação como Papa do Cardeal Bergoglio. É indubitável que um dos fatos mais transcendentes na história do Ocidente foi haver conseguido a separação entre o Estado e a Igreja e, conseqüentemente, a liberdade religiosa. Liberdade que se ignorou por séculos, e imperava o direito divino dos reis que significava que os que não eram reis não tinham direitos. E não esqueçamos que esse princípio liminar está no cristianismo: “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Diria que é a única doutrina religiosa que proporcionou este crucial princípio de liberdade.


Assim, como devemos lembrar, Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum de 1891, acreditou procedente lembrar o estado e a situação da Igreja durante o papado de Pio IX, quando prevalecia a Quanta Curaee seu adendo o Sylabus de Erros. Esse documento que refletia o ultra-montanismo, estabelecia que um dos erros era considerar que a Igreja estava a favor do desenvolvimento (sic).

Insisto então em que a ingerência da Igreja na política constitui uma violação do princípio fundamental do cristianismo que foi a separação do Estado da Igreja. Até certo ponto, nos últimos anos universalmente se havia respeitado esse princípio no Ocidente, além de alguns casos particulares como a chegada de Perón na Argentina via o Nacionalismo Católico, organização inspirada na encíclica Quadragesimo Anno, resultante do acordo de Pio XI com Mussolini, e portanto impregnada de fascismo, em contradição com sua precedente, a Rerum Novarum. Certamente tampouco posso ignorar as visitas de João Paulo II e de Bento XVI aos irmãos Castro, representantes por antonomásia do crime em nome da igualdade e certamente do anti-americanismo. E em Havana no presente prevalece o bispo Ortega que mantém relações com o governo de Raúl, que já aparece felicitando Bergoglio. Embora como disse antes a Igreja aparecia afastada da política, sua presença recente no Ocidente esteve tristemente caracterizada pela pedofilia que, segundo as notícias, custou ao Vaticano milhares de milhões de dólares em compensação.

Pois bem, a julgar pela imprensa falada e escrita, o advento de Francisco ao Papado aparentemente não tem outra conotação que a possível influência política na América Latina e particularmente na Argentina. No momento parece ignorar-se as razões pelas quais aparentemente Bento XVI decidiu renunciar ao Papado. Todas as notícias a respeito mostram a realidade do enfrentamento existente no Vaticano. A respeito da corrupção existente no Vaticano apareceu o Vatileaks que aparentemente mostra em 300 páginas essa situação. Esse fato fez com que Bento XVI pedisse a renúncia do cardeal que deu publicidade e que era seu ajudante. Portanto, creio que a razão de ser da renúncia do Papa foi produto do medo e do reconhecimento de sua incapacidade para resolver os problemas anteriores.

No que diz respeito ao pensamento de Francisco, não tenho informação suficiente para analisá-la. Agora bem, se tenho em conta alguns relatos jornalísticos a respeito, parece ser uma pessoa austera e preocupada com os pobres. Esse, entretanto, não é dado suficiente para saber realmente qual seria seu pensamento político. Já sabemos ou deveríamos saber a realidade política dos supostos preocupados pelos pobres, que se fazem ricos a custa do pranto. Porém, indubitavelmente existem os que acreditam de boa-fé, mas o que não se pode evitar é que como bem disse Hanna Arendt: “Quando em nome da compaixão se violam os direitos individuais, desaparecem a liberdade e a justiça”.

Poderia dizer que a existência da pobreza ou da desigualdade econômica parece ser a fonte do poder no mundo Ocidental e Cristão, ao qual também pertence a América Latina, em que mal pese a Samuel Huntington. Assim, acredito que na América Latina prevalecem a pobreza e o anti-imperialismo como as condições supostamente éticas para alcançar o poder. Com relação à primeira, existem dois tipos de expositores: os que realmente se preocupam e os que o usam demagogicamente. Não me cabe a menor dúvida sobre a boa-fé de Francisco. O que me preocupa é a possibilidade de que esse sentimento seja aproveitado politicamente para justificar o socialismo e desconhecer os direitos individuais.

Nesse sentido, é muito possível que a vocação de Francisco possa se converter em um aparente aval a essa tendência demagógica prevalecente no chamado mundo Ocidental e Cristão. Como já repeti até o cansaço, o socialismo é a denominação que o Iluminismo deu à demagogia. Seguindo a Aristóteles, que tomou consciência de que “os pobres sempre seriam mais do que os ricos, e quando o povo se faz monarca os aduladores do povo têm um grande partido”. E já deveríamos ter constatado que, como assinala Alexis de Tocqueville: “O socialismo e a concentração de poder são frutos do mesmo solo”.

Até onde pude conhecer Francisco, ele é contra o poder absoluto e certamente na Argentina contrário ao enfrentamento social. Porém, nesse aspecto não acredito que seja possível que o Papa possa ter o poder para influenciar comportamentos opostos aos propósitos autoritários da América Latina. E o que certamente parece possível é que sua virtude de preocupação pelos pobres seja usada para justificar eticamente o poder político e sua conseqüência, a falta de liberdade. Já pudemos ver essa atuação na Venezuela, onde o atual e aparentemente futuro presidente Nicolás Maduro, se permitiu expressar que a nomeação do Cardeal Bergoglio como Papa foi o resultado da morte de Chávez. Certamente que tal pretensão é uma palhaçada, mas mostra claramente o projeto de usar as virtudes do Papa como suporte do poder que se detém.

Outro aspecto ponderável da atitude de Francisco é sua intenção das relações com outras igrejas. Ou seja, que aparentemente leu a Carta de Tolerância de John Locke que diz: “O evangelho declara freqüentemente que os verdadeiros discípulos de Cristo devem esperar e sofrer perseguições, mas não lembro de ter lido nunca no Novo Testamento que a verdadeira Igreja de Cristo deva perseguir os outros ou atormentá-los, ou obrigá-los a aceitar suas crenças e conduzi-los à fé com a força, a espada ou o fogo”. Esse princípio que finalmente foi aceito no Ocidente é alheio ao mundo islâmico. E lá ainda prevalece o ressentimento com o Ocidente desde o tempo das Cruzadas.

O outro tema que o Papa parece ter encarado e assim o manifesta em seus discursos, é a projeção de uma Igreja para os pobres e longe da pompa. Essa atitude valida igualmente o pensamento de John Locke:“Quem se aliste na Igreja de Cristo, primeiro tem que lutar contra seus próprios vícios, contra sua soberba e contra seu prazer, pois de nada serve usurpar o nome de cristão, se não pratica a santidade de vida, a pureza dos costumes, a humildade e a bondade de espírito”. Nesta atitude tudo parece indicar que terá que enfrentar seus maiores problemas no próprio Vaticano, onde parece reinar uma certa corrupção e ao mesmo tempo, um enfrentamento interno. Por algum motivo Bento XVI renunciou. Esperemos que Francisco possa superá-lo. Por: Armando Ribas

Tradução: Graça Salgueiro
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