quinta-feira, 14 de março de 2013

"HABEMUS CRISIS"

Olhando para a própria Cúria Romana, é difícil encontrar um período mais negro do que o atual


Começa hoje o conclave para a eleição do novo papa e o tom é apocalíptico. Leio na imprensa que a Igreja Católica enfrenta a maior crise da sua história. São escândalos sexuais, corrupção financeira, lutas de poder dentro da Cúria.

Sem falar da incapacidade de Roma para se adaptar ao mundo moderno, ordenando mulheres para o sacerdócio, terminando com o celibato dos padres e abençoando o uso da camisinha. Estou alarmado. Quem, em juízo perfeito, não estaria?

Até porque a história da igreja é, ao longo dos seus 2.000 anos, um invejável reinado de paz onde a palavra "crise" nunca foi conhecida.

Sim, se quisermos ser absurdamente rigorosos, podemos afirmar que a história da igreja não começou bem: o seu fundador foi torturado e morto pelas autoridades romanas no tempo de Tibério. Mas, tirando esse pormenor, o que veio a seguir?

Historiadores histéricos, que obviamente não conhecem os escândalos de pedofilia, falam de perseguição aos cristãos antes da conversão de Constantino (século 4) e alguns, como Tácito, deixaram páginas brutais sobre a brutalidade de Nero para com a seita.

Mas todos sabemos que, depois da conversão do imperador, o cristianismo hibernou durante 2.000 anos.

Desafios doutrinais, como o gnosticismo ou o arianismo, são mais mito que realidade e jamais provocaram abalo entre os cristãos. As invasões bárbaras, que destroçaram o Império Romano, também não foram sentidas pela igreja.

Nem as invasões bárbaras, nem as invasões dos exércitos de Maomé, que proporcionaram piqueniques multiculturais entre monges e muçulmanos, com os budistas a tocar flauta.

E, sobre as relações entre a igreja e os Estados imperiais, todos sabemos que o convívio foi pacífico durante a Idade Média. A "questão das investiduras", por exemplo, não passou de uma sucessão de zangas de namorados entre papas e imperadores.

Aliás, olhando para a própria Cúria Romana, é difícil encontrar um período mais negro do que o atual.

Historiadores histéricos, uma vez mais, falam de papas homicidas, corruptos, sodomitas, envenenados etc. ao longo do período medieval um caldo de miséria moral que levou Gregório 7º à exasperação reformista.

Alguns vão mais longe e escrevem mesmo sobre as rivalidades entre os papados de Roma e Avignon. Nunca acreditei nisso.

Claro que até um cético como eu, para quem a crise atual da igreja não tem paralelo, tem de reconhecer os incômodos causados pela reforma protestante do século 16.

A reforma, dizem os livros, significou um cisma profundo na unidade da fé cristã (isso se esquecermos a forma simpática, quase amigável, como Roma e Constantinopla se excomungaram mutuamente séculos antes).

Mas a Europa quase não sentiu a reforma e as guerras religiosas (e políticas) de que se falam carecem de fundamentação histórica. Henrique 8º, na minha interpretação dos fatos, apenas queria ser livre para amar.

De resto, a Igreja Católica nunca viveu em crise com o iluminismo continental (Voltaire era visita frequente do Vaticano) e, sobre a Revolução Francesa, enfim, o óbvio: um dos momentos mais belos na existência da instituição.

Digo "um dos mais belos", e não "o mais belo", porque esse só viria em 1917, quando Lênin chegou ao poder. Ou terá sido em 1949, com Mao Tsé-Tung?

Um historiador com tendência para o dramatismo diria que a história da Igreja Católica é, no essencial, a história das crises da Igreja Católica. E da forma como a igreja resistiu a elas.

Um historiador com tendência para o dramatismo, ao ter consciência desse passado, poderia também dizer que as crises de hoje são importantes, sem dúvida.

Começando nos casos de pedofilia (que merecem punição exemplar) e terminando nas perseguições anticatólicas da China, do Egito ou do Sudão (um fato ignorado pelos sábios da mídia), o próximo papa terá muito com que se ocupar.

Mas esse historiador diria igualmente que os problemas de hoje, quando comparados com os problemas do passado, são quase uma brincadeira de crianças.

Só que esse historiador não lê jornais nem assiste à TV. Se lesse ou assistisse, deixaria os livros poeirentos em paz e, de joelhos perante o Altíssimo, faria as suas preces antes do juízo final. Por: João Pereira Coutinha Folha de SP
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