domingo, 16 de setembro de 2012

SE BEBER, NÃO DIRIJA


Se beber, não dirija. Também não faça declarações.


Trinta e cinco mil pessoas por ano perdem a vida em decorrência de acidentes de trânsito no Brasil. Preste atenção: 35 mil!!! Quase cem pessoas por dia!!! Estes números são alarmantes e a tendência é de crescimento. Segundo o Ministério da Saúde, metade destas mortes está relacionada ao uso de álcool por motoristas.

O álcool é um forte depressor do Sistema Nervoso Central. Inicialmente quem bebe perde a inibição e sente-se mais corajoso, mas com a progressão da ingestão, passa a ter reflexos mais lentos, perde a noção de distância e torna-se sonolento, sendo uma vítima e um agressor potencial ao volante.

Campanhas educacionais não foram eficazes para estancar esta mortandade alcoólica automotiva. Os números cresciam ano a ano. Quando a sociedade ameaça entrar em colapso devido a determinado comportamento funesto, o governo está autorizado a regulamentar tal conduta criando uma lei para preencher o vazio. A lei invade o território da ética para evitar uma degradação ainda maior. 

Foi com este espírito que surgiu a “Lei Seca”, apelido carinhoso da lei 11.705 do Código de Trânsito Brasileiro que penaliza o indivíduo que estiver dirigindo com uma taxa maior que 0,1 grama de álcool por litro de sangue (0,1%) em 957 reais e suspende seu direito de dirigir por um ano.

Esta dosagem sanguínea de álcool é atingida com a ingestão de apenas uma lata de cerveja ou um cálice de vinho. Na medida em que a dosagem aumenta, a lei torna-se mais rígida. Se o individuo estiver com uma medida superior a 0,6% (equivalente a 2 latas de cerveja) a infração é considerada crime e a punição envolve prisão em flagrante, detenção entre 6 meses a 3 anos, multa e suspensão ou proibição de obter a permissão ou habilitação para dirigir veiculo automotor.

Barreiras policiais são montadas aleatoriamente e os motoristas são submetidos a testes de ingestão alcoólica através do etilômetro ou bafômetro (aparelho que permite determinar a concentração sanguínea de álcool analisando o ar exalado dos pulmões).

Apesar desta iniciativa louvável, muito ainda precisamos progredir para coibir a mistura álcool e direção. Além de o Brasil ostentar o triste titulo de detentor de um dos mais altos índices de mortes no trânsito por habitante, o povo brasileiro é o campeão em criatividade no quesito malandragem para burlar a lei.

Não bastassem os traumatismos e seqüelas físicas que o álcool pode causar ao volante, preocupo-me sobremaneira com os abalos, ferimentos e mortes emocionais causadas por atitudes decorrentes da ingestão alcoólica. Certamente este número ultrapassa em muito os 35 mil óbitos/ano nas estradas.

O individuo começa a beber, fica sociável, alegre, torna-se sábio, acha-se bonito, perde a inibição, cria coragem, faz declarações, fala alto, paga contas... A bebida vai descendo e o individuo entra em um estágio no qual perde a noção do ridículo, acredita que as pessoas estão rindo com ele e não dele, leva para a cama uma deusa e acorda ao lado de uma bruxa e pior de tudo, vai ficando desmemoriado. Por vezes no outro dia não lembra o que fez ou finge que esqueceu.

Imagine quantos pedidos de casamento, declarações de amor, convites para transar, beijos, agressões, humilhações, rompimentos foram realizados no embalo etílico. Não seria justo uma dosagem do teor alcoólico para verificar a credibilidade das propostas? Um bafômetro retirado da bolsa no momento certo pode evitar tanto desastres físicos como emocionais.

Claro que não fosse pelo estimulo de uma cerveja ou de um espumante, muitos romances não teriam iniciado. A bebida é responsável por muitas mortes, mas também por muitos nascimentos, alguns indesejados. O álcool é capaz de provocar grandes metamorfoses, discursos eloqüentes e atitudes imponentes, porém vale lembrar que a mistura álcool e paixão quase sempre faz perder a razão.

Geralmente quando se cometem excessos sem danos físicos, panos quentes são colocados e a culpa recai sobre a bebida, que é socialmente aceita e oferecida sem limites nas grandes comemorações. O problema são as conseqüências. Uma palavra mal dita pode destruir uma vida. Será que o álcool pode ter alguma influência?

Talvez o conselho de Ernest Hemmingway seja útil: “Faça sempre lúcido aquilo que você disse que faria bêbado. Isto o ensinará a manter sua boca fechada”.

Se beber não dirija. Também não faça declarações. Por: Ildo Meyer
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