sexta-feira, 7 de setembro de 2012

SABER FAZER COM O SINTOMA!


Mas, meu Deus, o que fazer com o sintoma desse homem? Vocês não veem que ele só consegue cantar suas óperas quando está tomando banho no chuveiro! O que fazer, ficamos paralisados, sem nada fazer?

Nada disso, temos de encontrar uma saída para este impasse, pois eu me lembro muito bem que Picasso certa vez disse: “eu não procuro, acho”. Sim, vamos pois achar uma saída, um meio para que esse desejo se realize, para que uma voz venha ser cantada, exaltada, sem medo de um sucesso, em sua revelação pública.
Mas ele só consegue cantar.... 

Ora, bolas, inventa-se alguma coisa, pense, algo deve ser possível. É isso, vamos colocá-lo em cena, cantando as suas mais lindas óperas, tomando banho num chuveiro, em público. Mas que escândalo! 

Quem poderia pensar numa loucura, tão criativa quanto iluminada, senão alguém que, certamente, fora levado em sua vida, a construir algumas saídas tão exuberantes como esta?

O que falar sobre este fantástico deslocamento, disso que leva alguém a ultrapassar suas inibições, rumo ao sucesso de uma realização? O sujeito não vai mais se acovardar diante de seu desejo, ele passa a aprender a fazer um bom uso das suas dificuldades, chega de acomodações!

Esta cena se passa no último filme de Woody Allen, “Para Roma, com amor”, onde ele diz que desejar é preciso. E ela somente foi possível em função do transcurso da vida psicanalítica. O diretor e ator, Woody Allen, submete-se à psicanálise desde sua infância. Por sofrer, ele pode criar, passar para outra coisa.

O seu entendimento do psiquismo humano permitiu a ele mostrar que é possível realizar mudanças significativas na vida de alguém, que é possível fazer algo positivo, criativo, com o sofrimento humano, no sentido de transformá-lo no melhor, mais livre, de enfrentar as angústias, os emperramentos que acometem o sujeito no mais fundo de seu ser, quebrar as amarras dos sintomas, das inibições, olhar no olho do lobo, olho no olho do furacão, dos transtornos que o abatem, aí, sim, ele pode mostrar, com todas as letras, como fazer um bom uso de seu sintoma. Isso que o molestava agora trabalha a seu favor.

O desenrolar do filme transcorre sob o matiz da busca de um certo desejo daquilo que já está ali. Um desejo que mais tarde será colocado, em sua arte de viver, na voz de um pai, que sob o manto de todas as resistências, sociais e familiares, explode ao olhar do público.

O personagem central do filme é um homem, já aposentado, que é obrigado a ouvir os absurdos insistentes da sua mulher, uma psiquiatra, que não faz outra coisa senão repetir uma mesma interpretação: “você está doente, vive associando sua aposentadoria com a morte”. 
Uma crítica séria mas, ao mesmo tempo, ilustrativa de uma realidade humana. Mas, ele estava ali, mais vivo do que nunca, e somente ele pode escutar que, por trás do ambiente cerceado pelos fantasmas de morte, a vida emerge como uma gigantesca fome de viver. É coisa de pai para pai!

Ele e a sua mulher partem para Roma para conhecer o noivo de sua filha e, de saída, sua família. O noivo é um belo italiano, jovem advogado, cujo sintoma é se esconder numa farsa do capitalismo, se acoberta nos bastidores de uma falsa ideologia de esquerda, ligada aos sindicatos trabalhistas. É evidente que o jovem não faz outra coisa senão justificar, com a sua acirrada posição socialista, o grande medo que ele e, portanto, sua família, tinha do sucesso. 

O sucesso do pai que cantava belíssimas óperas no chuveiro tomando seu banho ao entardecer. O sintoma, que se fazia recobrir de medos e fartas justificativas, o sucesso que vivia na sua alma, ao seu lado, dentro de sua casa, e que fazia tanto barulho, que era impossível não escutá-lo... na voz do pai. 

Woody Allen, o aposentado, especialista em óperas, deixa transparecer seu sintoma obsessivo, é lógico, que já por demais analisado, com seus temores de contaminação. O pai do noivo lida diretamente com a morte. Ele é proprietário de uma agência funerária, sua vida caminha às custas da morte, mas seu desejo estava à espera de uma escuta.

José Nazar é psiquiatra e psicanalista.

Artigo publicado no Jornal A Tribuna - ES
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