segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Tango de Tibério e Lola

O amor é um tango. Hoje vou contar uma história de amor que ouvi de alguém esses dias. Esta história é real e nos faz pensar, afinal, quem somos nós. Tibério era um jovem promissor. De boa família e com bons antecedentes, era visto como alguém inteligente, vivo e alegre. Vivia sua vida, numa casa de classe A, quando, numa noite de calor, viu alguém chegar à vizinhança. Loira, naquela idade que as avós chamavam de menina-moça, mesmo que ainda novinha, já se mostrava pronta para um investimento erótico. Lola passeava pela vizinhança, livre e senhora de si, como são as fêmeas da espécie quando seguras de sua beleza e de seu charme. Para o coração do jovem Tibério, aquilo foi demais. Ficou obcecado por Lola. Tentou voltar para sua vida pré-Lola, mas não adiantou. Nada do que tinha fazia mais sentido, pensava naquela jovem loira todo o tempo. Ficava parado olhando para parede, como se sua casa, sua vida e seus objetos de valor tivessem se esvaziado de sentido. Se Tibério soubesse filosofia, diria que a vida perdera o significado. Ele era ainda virgem. No fundo da alma, se envergonhava disso e preferia que este fato permanecesse em segredo. Mas, de repente, tomou uma decisão e resolveu abordar a bela e irresistível Lola, a loira arrasadora do "cartier", como dizem os franceses. Quem sabe, pensou Tibério no silêncio de sua alma, ela fosse, ainda que jovem e virgem, uma loira devassa em potencial? Pelo caminhar dela, balançando, ainda que discretamente, as promissoras ancas, ele pensou que tinha alguma chance. Chegou perto e tentou falar com ela. Nada. Aquele olhar de desprezo que só fêmeas lindas da espécie sabem dar quando percebem que algum jovem candidato está por perto. Mas, percebia Tibério, Lola o olhava pelo canto dos olhos. Tibério tinha razão. Ela estava dando sinais de interesse. Aproximou-se e tentou chegar bem pertinho. Lola, literalmente rosnou para ele. De primeira, Tibério temeu que ela o fosse morder de fato. Tibério correu para casa, temeroso. Mas o desejo era grande, e Lola seguramente o olhava de longe, com olhos doces. Todos os seus genes ancestrais diziam: "Tibério, vá fundo, cara!". O jovem voltou à carga. Pensou naquilo que todo macho pensa: "Ela quer um presente!". Não tinha nada à mão e, infelizmente, dependia da sua família para ir a um shopping, portanto teve uma ideia desesperada: "Vou dar para ela o que eu mais gosto e assim ela vai ver que eu quero muito ficar com ela". Correu e pegou um objeto (pouco importa o que era, mas sim o valor que tinha para ele; de longe alguém diria que não passava de uma bola). Colocou carinhosamente o objeto diante da bela Lola. Ela, de novo, desprezou o infeliz Werther. Recuou. De longe, de novo, percebeu o discreto sorriso da bela Lola. Ela estava mesmo dançando um tango com ele: quando ele ia, ela recuava, quando ele recuava, ela vinha. Uma dor grande se apoderou do pobre coração apaixonado. Mas, de novo, seus genes clamavam pela jovem Lola. Decidiu fazer-se de macho poderoso do pedaço e se aproximou confiante. De repente, assim como quem ia roubar um beijo e um abraço, Tibério tentou se apossar de Lola. Ela, agora sem dúvida nenhuma, rosnou e o mordeu sem pena. Tibério fugiu humilhado. Perdido, tentou comer alguma coisa. Mas, de novo tomado pelo amor, pensou se Lola não o aceitaria em troca de sua comida importada, mesmo que por um segundo tivesse pensado que aquilo não eram modos de abordar uma dama fina como Lola. Docemente, ele empurrou a comida para ela. Lola comeu a comida dele e virou de costas. Tibério ficou arrasado e sentou-se, triste, enquanto a contemplava pela porta de vidro. Lola olhou para ele e ensaiou um sorriso, mas não adiantou. Tibério já estava triste e adormeceu. No dia seguinte, à mesma hora que Lola chegara, reconhecendo o carro, correu para o porta-malas para ver se a bela Lola voltara. Mas não. Alguém perguntará: como uma bela dama pode vir num porta-malas? Simples: basta ela ser uma golden retriever, e ele, um border collie. Sim, o amor é um tango, seja entre humanos, seja entre cães.Por: Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Fanatismo e submissão

“Anseio ardentemente por aquela condição psíquica em que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do mundo como um destino.” (Karl Kraus)Em 1951, Eric Hoffer escreveu um livro que logo se tornaria um clássico.The True Believer disseca as principais características que levam alguém a aderir a uma seita de forma fanática, dando início a um movimento de massa. O livro ainda é bastante atual, e serve como alerta para as diferentes formas de fanatismo, que acabam sendo bastante semelhantes entre si.

Os movimentos de massa produzem em seus adeptos a disposição de sacrifício pela causa santa, assim como um impulso à ação em conjunto. O entusiasmo, a esperança, a intolerância e o ódio aos que são diferentes representam sintomas deste tipo de fenômeno. Tais movimentos demandam fé cega de seus membros. A submissão é infinitamente mais importante do que o pensamento individual, o questionamento racional. Vale lembrar que Islã quer dizer justamente submissão, e que os dogmas católicos sempre tiveram que ser aceitos por seus crentes sem questionamento (creio porque absurdo).

Segundo Hoffer, todos esses movimentos distintos apelam ao mesmo tipo de mente. Talvez esta tenha sido a principal contribuição de seu livro: mostrar como são parecidos, no fundo, movimentos que na aparência são tão díspares. Apesar de vivermos em uma época “sem deus”, o fato é que vivemos em tempos bastante “religiosos”, onde inúmeras seitas fanáticas proliferam. Por isso é tão importante mergulhar mais na mente típica do fanático.

Os principais tipos de movimento de massa que atraem estas pessoas são religiosos, revolucionários e nacionalistas. Dentre estes, Hoffer considerava o nacionalismo aquele com maior capacidade de duração nos tempos modernos, citando como exemplos as revoluções francesa e russa, que desembocaram no nacionalismo para sobreviver. Nem sempre o advento de tais movimentos será totalmente maléfico. O caso de Ataturk na Turquia demonstra que estas mudanças oriundas de movimentos nacionalistas podem deixar algum legado positivo também. Mas os riscos são sempre enormes.

E o que levaria tanta gente a aderir a tais movimentos? Para Hoffer, um dos principais motivos é a angústia que a autonomia traz consigo para o indivíduo. Temos uma tendência de culpar forças exógenas pelos nossos fracassos, e as pessoas frustradas com suas vidas acabam desenvolvendo um fervor por mudanças radicais. O sentimento profundo de insegurança em relação ao presente faz com que estas pessoas abracem alguma boia de salvação que prometa um futuro melhor. Os movimentos de massa oferecem a sensação de um poder irresistível do grupo monolítico de moldar este futuro maravilhoso.

A liberdade de escolha deposita no próprio indivíduo o peso de seus fracassos. Quanto maior forem as alternativas de escolha, mais espaço há para frustrações. Para Hoffer, muitos se unem aos movimentos de massa para escapar da responsabilidade individual. Como disse um jovem ardente defensor do nazismo, a meta era ficar “livre da liberdade”. Movimentos de massa fornecem aos fanáticos uma forma de dissipar sua individualidade até o ponto de anulá-la por completo. A paixão pela igualdade é também a paixão pelo anonimato. O fanático se transforma em uma massa amorfa igual a todos os demais membros da seita, disfarçando então seu complexo de inferioridade.

Para uma massa dessas, o principal alvo de catequização e conversão é o indivíduo que se sustenta por conta própria, que não depende de algum corpo coletivo que lhe ofereça apoio. A mente independente, blindada de rótulos simplistas e avessa a seitas, o indivíduo criativo que não necessita de um movimento de massa para encontrar algum sentido em sua existência, este é o foco de inveja e ódio dos fanáticos de todas as matizes. Eles precisam destruí-lo, se não forem capazes de convertê-lo. Hoffer aponta que movimentos de massa podem nascer sem deus, mas não sem um demônio: são os bodes expiatórios das seitas, culpados pela desgraça que é o presente. Os judeus dos nazistas, os kulaks dos bolcheviques, os ímpios dos crentes.

Não se comunica com estes fanáticos por meio da razão, e sim da fé extravagante. Eles precisam ser ignorantes acerca das dificuldades envolvidas nesta tarefa vasta e hercúlea, muitas vezes utópica, de criar um novo mundo. A experiência de casos passados atua como um inibidor aos revolucionários, e por isso o desconhecimento da história costuma ser crucial na seleção dos adeptos. Os envolvidos na Revolução Francesa, no bolchevismo e no nazismo eram em sua grande maioria pessoas sem experiência política.

Uma classe média em crise, que acaba de perder parte de seus bens e se encontra frustrada com o presente, representa um terreno fértil para movimentos de massa. Foi assim na Itália fascista e na Alemanha nazista. Um movimento em ascensão prega a esperança imediata, um futuro róseo logo depois da esquina, uma “boa nova” para os escolhidos, que impele seus membros à ação. Movimentos de massa já estabelecidos contam com a promessa de um futuro fantástico, porém distante, para manter acesa a chama da esperança. O Stalinismo era o ópio do povo russo assim como religiões estabelecidas.

O núcleo familiar representa um grande obstáculo a tais movimentos coletivistas. Por isso quase todos eles combateram a família em suas origens. O Cristianismo inicial, segundo o autor, foi um dos movimentos de massa mais hostis ao núcleo familiar. Jesus teria dito que aquele que ama seu pai e sua mãe mais do que a ele não seria digno de ser seu seguidor. O mesmo para aquele que amasse mais seus filhos. Abraão seria o ícone perfeito deste tipo de fanático, ao se mostrar disposto a sacrificar o próprio filho em nome de sua fé. A causa santa vem em primeiro lugar, a família fica em segundo plano.

O ser humano em geral clama pela sensação de pertencimento a algum grupo maior. Suas frustrações alimentam ainda mais o desejo de sumir em meio a uma massa uniforme. O tédio diante da vida, a falta de sentido na existência, tudo isso joga mais lenha na fogueira, empurrando o indivíduo na direção da massa. Um movimento de massa representa o pacote completo que exime o sujeito da responsabilidade de desejar e arriscar por conta própria.

A submissão ameniza o fardo de sua autonomia. Seu fanatismo retira a necessidade de pensar e questionar por conta própria. A “certeza absoluta” da doutrina infalível fornecida pelo movimento conforta a angústia da hesitação. A aventura revolucionária lhe estimula e reduz o tédio de sua vida vazia. A causa fanática alivia seu sentimento de culpa e pecado. O futuro fantástico lhe dá forças para enfrentar o presente medonho, um fardo temporário, um vale de lágrimas e sofrimento até o oásis por vir. O ideal glorioso e indestrutível oferece a força que lhe falta como indivíduo, a eternidade que acalenta sua inexorável mortalidade e aniquilação.

Eric Hoffer não era otimista quanto à possibilidade de persuasão de um fanático. Para ele, o apelo à razão não surtia tanto efeito sobre um fanático. Seus medos e inseguranças lhe comprometem, e sua causa santa é uma necessidade de se segurar a alguma coisa para aguentar a vida. O mais provável seria um fanático se converter, não se convencer. Por isso é comum ver fanáticos pulando de seita em seita. Para Hoffer, é mais fácil para um comunista fanático se converter ao fascismo, chauvinismo ou Catolicismo do que se transformar em um liberal sóbrio com mente aberta. Os ateus fanáticos, que encontram sua razão de ser em deus da mesma forma que os crentes, pois vivem em função de sua negação, entravam para o grupo dos fanáticos de Hoffer.

A propaganda se faz importante para a ascensão do movimento de massa, mas sua sustentação só será possível com base na coerção. Foi apenas após Constantino que o Cristianismo conseguiu se estabelecer. A espada foi crucial para a sobrevivência do movimento, e onde o Cristianismo não foi capaz de dominar o poder estatal, ele raramente conseguiu se manter de forma permanente. O mesmo vale para o Islã. Seu crescimento se deu por conquista no começo, e a conversão foi um subproduto disso em muitos casos. A Reforma deslanchou quando ganhou o apoio de príncipes e governos locais. A ameaça comunista era infinitamente maior quando tinha o suporte de um dos exércitos mais poderosos do planeta.

Além disso, a conquista e a conversão de outras pessoas acabam dando legitimidade ao fanático. Trata-se do conhecido argumentum ad populum. Bilhões de pessoas que acreditam em algo, isso quer dizer que essa crença não pode estar errada! Eles ignoram o alerta de Anatole France, de que “se 5 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa continua sendo estúpida”. Isso também explica porque os fanáticos, apesar de desejarem exterminar uns aos outros, odeiam ainda mais aqueles que não compartilham de fanatismo algum. Um fascista fanático pode até nutrir algum respeito pelo comunista fanático, mas ambos desprezam o homem “sem fé”, sem uma causa santa que o faz disposto aos maiores autossacrifícios, incluindo seu martírio.

Estes fanáticos demandam um líder, alguém que assuma por eles o fardo da responsabilidade. Este líder, segundo Hoffer, deve ter audácia, uma fé fanática na causa santa, e a habilidade de despertar a devoção fervorosa no grupo. A qualidade das idéias em si tem menor relevância. O que importa é o gesto arrogante, o completo desprezo pela opinião dos outros, o desafio ao mundo. Algum grau de charlatanismo é fundamental para a liderança do movimento de massa. Os fatos precisam ser deturpados sempre a favor da seita, tarefa facilitada pela necessidade de crença dos fanáticos. Os fanáticos estão ávidos por obediência ao guru da seita. O crente deve ser acima de tudo uma pessoa obediente e submissa.

Normalmente, o movimento de massa joga descrédito e suspeita sobre o governo estabelecido, mas acaba adotando as mesmas práticas ou até piores uma vez que consegue chegar ao poder. Os revolucionários franceses adotaram o Terror, fazendo a monarquia parecer suave. Os bolcheviques mataram milhões em poucos meses, mais do que o regime dos czares em toda a sua existência.

O filósofo John Stuart Mill lamentou sobre o Cristianismo: “Que os cristãos, cujos reformadores pereceram na masmorra ou na fogueira como apóstatas ou blasfemos – os cristãos, cuja religião exala em cada linha a caridade, liberdade e compaixão... que eles, depois de conquistar o poder de que eram vítimas, exerçam-no exatamente da mesma maneira, é demasiado monstruoso”. A Igreja, uma vez estabelecida e cristalizada, soube ser autoritária e pegar emprestado do Império Romano sua hierarquia e burocracia.




O que todos os fanáticos condenam em conjunto é a democracia liberal do Ocidente, acusada de decadente e pusilânime. Os indivíduos sob tal regime não estariam mais dispostos ao sacrifício por uma causa santa. A perda de vigor, de fé cega, seria sinal de podridão moral. Sem dúvida há alguma verdade nisso. De fato, as democracias modernas dão sinais de covardia, ainda mais quando comparadas às teocracias islâmicas e seus terroristas fanáticos dispostos a tudo pela causa. Falar em reformas nunca tem o mesmo apelo emocional que falar em revolução, em derrubar todo o sistema podre, passar uma borracha no presente injusto e criar um novo mundo maravilhoso, ou então em resgatar um passado idealizado, um jardim do Éden sonhado.

Mas, como espero ter deixado claro acima, com base no excelente e importante livro de Eric Hoffer, a troca deste marasmo imperfeito por um movimento de massa revolucionário é algo extremamente perigoso. Talvez o mundo precise de alguns fanáticos de vez em quando, que abraçam causas santas com fé cega. Talvez alguns desses movimentos tenham tido efeitos líquidos positivos ao longo da história. Só que é fundamental ter em mente o risco que eles representam. Quando muitos sucumbem ao fanatismo e à submissão sem questionamentos racionais, então a liberdade individual corre sério perigo. Os fanáticos podem querer justamente fugir desta liberdade. Mas ela é crucial para o avanço da civilização. Por: Rodrigo Constantino.

Alma


Querido leitor, que você esteja bem e sua alma em paz! Então, hoje nosso tema vai ser justamente “alma”.
A vontade de escrever sobre esse tema me veio após uma visita a um templo muito bonito da Fé Bahá'í, localizado na cidade de Haifa, em Israel, fruto da minha recente viagem de estudos àquele país. E é justamente na Fé Bahá'í que me baseio nesse artigo, pois se trata de uma religião monoteísta fundada na Pérsia do século XIX que enfatiza a unidade espiritual da humanidade. Trata-se de uma religião independente que possui as suas próprias leis, escrituras sagradas, administração e calendário. Interessante é que ela não possui dogmas, clero, nem sacerdócio.
Estima-se que existam cinco a seis milhões de Bahá'ís espalhados por mais de 200 países e territórios. O que me chamou a atenção nessa religião, além do enfoque da alma, é que ela atribui grande importância ao conceito de unidade das religiões. A palavra deriva do termo árabe "Bahá", que significa glória ou esplendor.
Para os Bahá'ís, a história religiosa da humanidade é vista como um processo de desenvolvimento gradual, em que surgem diversos Mensageiros Divinos com ensinamentos adequados às necessidades de cada momento e à maturidade de cada povo. Esses mensageiros incluem Krishna, Abraão, Buda, Jesus, Maomé e, mais recentemente, O Báb e Bahá'u'lláh. Segundo os ensinamentos dessa religião, a humanidade encontra-se num processo de evolução coletiva a caminho de uma civilização mundial, e as suas necessidades atuais centram-se, essencialmente, no estabelecimento gradual da paz, justiça e unidade a uma escala global. Bonito, não é mesmo?
Mas, voltemos ao nosso tema, retornemos à alma. Para refletir sobre tema tão importante, a grande maioria das religiões usam metáforas, que é uma ponte poética para alcançar o entendimento de forma simples e eficaz. A Fé Bahá'í tem uma simplesmente maravilhosa que compara o corpo físico a uma gaiola e o espírito a uma ave que habita nela.
“Imaginar que o espírito pereça ao morrer o corpo, é como imaginar que o pássaro morra ao quebrar-se a gaiola”, diz o ensinamento Fé Bahá'í. Que continua: “Nosso corpo é apenas a gaiola, enquanto que nosso espírito é o pássaro. Nada tem o pássaro que temer com a destruição da gaiola”. Enfim, para os Bahá'ís, a alma é livre das limitações impostas pela matéria.
E sendo assim, talvez para alguns, as aves são símbolos que sempre nos recordam que um dia chegará a sua hora de voar, a minha hora de seguir a jornada, deixando esse plano denso e tridimensional, para ir para outro plano mais sutil.
Caso essa metáfora dos Bahá'ís esteja em harmonia com o que É, poder-se-ia dizer que o corpo, frágil argila, sofre os efeitos do tempo; já a alma, puro sopro, é eterna. Em resumo, a existência acaba, ao que muitos falam de morte, mas a vida, essa é infinita.
Se realmente for assim, se não em totalidade, mas parcialmente, que aproveitemos, então, nossos breves e incertos dias para alimentar nossa alma com coisas da alma, assim como nos preocupamos tanto em alimentar o corpo com coisas do corpo.
É assim como o mundo me parece hoje. E você, qual sua reflexão sobre alma? Por: Beto Colombo

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Periódico Existencial





Uma discussão a respeito de mente e cérebro acabou levando a uma discussão sobre se as doenças realmente existem ou não. Eu, e talvez você, conhecemos pessoas que já tiveram um problema de saúde e que, após muitos exames, nada foi diagnosticado, pessoas que percorreram um longo caminho na medicina e nenhum causador orgânico foi encontrado. Esse é o caso do problema que envolve a mente e o cérebro.

O cérebro é considerado nosso principal órgão, onde fica o centro do sistema nervos. É um órgão extremamente complexo, que nas últimas décadas vem sendo largamente estudado e mapeado. Estes estudos têm vários objetivos, entre os quais entender o funcionamento do cérebro e, a partir disto, construir diversos mecanismos que facilitem a fabricação de remédios que possam ter o efeito desejado para as mais diversas doenças que o afetam. Há ainda o interesse em desvendar a forma como o cérebro funciona, mecanicamente, e talvez aplicar o seu sistema a um computador.

Mente é o estado da consciência ou subconsciência que possibilita a expressão da natureza humana, segundo o site Wikipédia. Mas, em diversas bibliografias, podem ser encontradas outras definições. Segundo a definição acima citada, a mente é um estado, ou seja, uma manifestação de algo, orgânico ou não. Quando digo que estou feliz, segundo minhas vivências, estou vivendo um estado de espírito, isto é uma vivência da mente. Desta maneira a interação entre a mente e o cérebro é o que faz um ser humano algo completo.

Essa problemática mente e cérebro lembra as doenças das quais não encontramos motivos aparentes, orgânicos. Muitos dos males que vivemos no corpo têm suas origens na existência que temos. Quando eu, você, sua esposa ou esposo, vivem sob pressão, como alguns dizem, “no fio da navalha”, como é que o corpo reage? Para muitos nada acontece, mas para alguns o corpo adoece, mesmo com dietas corretas, remédios corretos, a doença do corpo é apenas um sintoma de um mal existencial.

Muitos de nós estamos existencialmente doentes, o corpo apenas avisa, quando assim é possível. Mas, pela facilidade, falta de conhecimento, desleixo, comodismo, acabamos apelando para a medicação química como modo de solução. Um câncer que devora aos poucos nossa existência é tratado com Rivotril. Isso não parece certo, mas é dessa maneira que se procede com frequência. Muitos casos chegam a procurar ajuda, mas vão depois que o mal já se espalhou tanto que só existe a possibilidade de remediar. Não há mais como voltar atrás e reajustar tudo o que ficou pelo caminho.

Olhando para a sua história, para o que vem fazendo no seu dia-a-dia, os remédios que anda tomando ou deveria tomar, estes podem ser os alertas de que é preciso mudar. Mudar não quer dizer deixar de ser quem somos, mas fazer o que sempre fizemos de maneira diferente, mais adequada a nós mesmos. Os males da existência podem ser identificados, assim como os males do corpo. Mas tanto um quanto o outro devem ser tratados.

É espantoso o quanto se fala de medicina preventiva para o corpo e o quanto não se fala de medicina preventiva para a mente. Todos fazemos exames médicos antes de assumir um emprego numa empresa, mas não fazemos exames existenciais para saber se estamos existencialmente prontos, preparados para este emprego. Nosso corpo pode estar preparado para uma maratona, mas nossa mente pode não estar e provavelmente sairemos perdedores. Deveríamos pensar mais na vida mental e também procurar um profissional para fazer um exame de rotina. A mente pode e em muitos casos é quem comanda a vida, se ela não estiver bem, provavelmente nossa vida não estará bem. Por: Rosemiro A. Sefstrom

ENTREVISTA COM ERNESTO SÁBATO (1)

Janer Cristaldo – Você, que há mais de meio século vem lutando contra as tiranias dos regimes comunistas, como se sente ao final do milênio?
Ernesto Sábato – Não só lutei contra as tiranias comunistas, mas contra toda forma de tirania. Não há ditaduras más e outras benéficas: Todas são igualmente abomináveis. O que me desagrada é quando são feitas em nome de grandes ideais, como foi o caso, precisamente, da stalinista. Pelo mesmo motivo, me repugnam as igrejas estabelecidas que, como no caso da religião cristã, com um Deus onisciente e infinitamente bondoso, torturaram horrendamente ou perseguiram até a morte seitas bondosas.

JC – Estudando sua obra, sempre o vi como um espírito religioso, particularmente pelo fato de ter militado, em sua adolescência, com os anarquistas e logo depois com os comunistas.
ES – Sim, é claro que a maior parte dos adolescentes que se aproximaram destes movimentos eram espíritos religiosos, ou pelo menos para-religiosos. Lutávamos contra a injustiça social, não suportávamos ver crianças morrendo de fome.

JC – Você acredita em Deus?
ES – Sim e não, conforme o momento e as circunstâncias. Pois, como acabo de dizer-lhe, é duro compatibilizar um Deus infinitamente bondoso com a venda por 100 ou 200 dólares de meninos e meninas para a prostituição. Essa notícia saiu aqui, falando de uma região do Brasil. Mas, como diz Santo Agostinho, em suas Confissões, Deus é inacessível à razão, e o que estamos utilizando aqui são meras razões. As grandes verdades –e aquela da qual estamos falando é a grande Verdade– só podem ser alcançadas mediante a intuição mística ou poética. Falo de poesia no sentido mais primigênio e profundo da palavra, não estou falando de versinhos. Só a poesia –que inclui não apenas poemas profundos, ficções memoráveis, pinturas e obras musicais eternas– é capaz de dar uma resposta. Por outro lado, e falo a propósito de sua pergunta, um espírito religioso não é necessariamente alguém que crê firmemente na existência de Deus, mas também –e bastante amiúde– alguém que vive angustiado com este problema. Incluo nestes os que blasfemam ou dizem atrocidades, que formam uma legião majoritária e que, de modo paradoxal, acreditam em Deus. Pois contra quem lançariam então estas blasfêmias? O ateu deve ser ateu e ponto final. Isso eu o disse em meu primeiro livro, faz meio século, Uno y el universo, que você traduziu no Brasil. Pois se se trata de um ateu enérgico, é preciso se pôr em dúvida seu ateísmo. Tampouco se pode acreditar que os anticlericais –ou boa parte deles– sejam ateus: são às vezes autênticos espíritos religiosos que sentem repugnância pela igreja estabelecida, pelo stablishment.
Há um anticlerical bastante conhecido, chamado Jesus, que se rodeava de pescadores analfabetos e prostitutas, que pregava junto aos pobres, que contou aquela parábola sobre o camelo e o buraco de uma agulha, que detestava os fariseus e os escribas. Aquele ser também deve ter duvidado, como demonstra sua última e tremenda frase, quando foi crucificado. Tivesse vivido na Argentina, na última ditadura militar, que teria feito? É evidente, teria pregado para as villas-miseria, que no Brasil são as favelas. Que teria acontecido com ele? O mesmo que ocorreu com muitos de seus discípulos, que foram seqüestrados por comandos militares, logo violentados e torturados selvagemente, e finalmente assassinados. Teria sofrido, efetivamente, esta via crucis e, o que é mais horrendo, em nome dos valores "ocidentais e cristãos", por torturadores que eram assistidos e absolvidos por sacerdotes católicos. E assim teria morrido em Buenos Aires, como morreu tantas vezes em circunstâncias semelhantes em todas as partes do mundo. Pois a maldade é universal e tem a duração da espécie humana. É a frase do Eclesiastes, quando diz que nada há de novo sob o sol. Refere-se, é claro, ao coração do homem, que é o mesmo desde sempre. Esse coração que é o território no qual lutam, pela alma do homem, Deus e o Demônio. Frases, palavras do heresiarca Fedor Dostoiesvski.

JC – O que pensa a igreja argentina a seu respeito?
ES – Alguns gostam de mim e me respeitam, a maioria me acusa de "canhoto", de terrorista, de subversivo, de materialista dialético (os mais filosóficos), de bolche e epítetos semelhantes. Alguns destes são corretos. Outros, sofismas grosseiros.
JC – Quais seriam os justos?
ES – Sou, efetivamente, um subversivo. E um "canhoto", porque propugno a justiça social, a liberação dos povos oprimidos e luto contra toda forma de racismo. Quanto ao epíteto de "materialista dialético", você, que traduziuHombres y Engranajes, meus outros ensaios e meus romances, sabe que é um enorme, grotesco e perverso sofisma. Ganhei, ao longo de meio século, uma bela fama: os reacionários me qualificam como comunista e os comunistas me qualificam como reacionário, porque fui inimigo do criminoso regime soviético e por não participar de seu ateísmo de bairro. Devo esclarecer, no entanto, algo que para mim é importante: sempre respeitei os comunistas que, por sua candidez ou sólida fé acreditaram no regime soviético, os que sofreram prisão e torturas, os que lutaram com boa fé por seus ideais. Por isso – fato que enalteci em dois de meus livros – admiro e continuo admirando Che Guevara, que foi acima de tudo e de seu marxismo, um grande idealista, um personagem quixotesco que, como diria Rilke, teve sua morte pessoal na selva boliviana, após ter abandonado a burocracia cubana. Um herói, e sempre temos de nos erguermos ante um herói que morre por ideais. Não até sua altura, é claro, mas também quis e continuo querendo bem seres como Gerardo Pisarello e Arturo Sánchez Riva, a quem dediquei um livro, e me doía saber que ele lia as coisas que escrevi sobre o horror do stalinismo. Eram pessoas de fé, que acreditavam apesar de tudo. Houve muitos que morreram sob tortura por defender essas idéias nas quais acreditaram. Merecem admiração e respeito.

JC – A queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética, você os previu ou os considerava como fatos impossíveis?
ES – Foram sacrificadas em torno de 20 milhões de pessoas, e a burocracia corrupta e a indigência do povo faziam possível este final. Mas a história não é previsível, já que não obedece a leis racionais, como precisamente pensavam Marx e Engels. A história é sempre novidade, dizia o filósofo norte-americano William James, irmão de Henry, o romancista. Frase brilhante mas que não gozava da admiração destes pensadores que acreditavam nas "leis" da história, como se fossem leis científicas. Marx e Engels não qualificaram seu socialismo como "científico"? Era tão pouco científico que nenhuma das predições de Marx se cumpriram: a revolução social não só não explodiu no país mais desenvolvido do mundo, como ocorreu em um país atrasado. Nem os proletários de todo o mundo se uniram para lutar contra os burgueses do mundo inteiro, mas nas duas grandes guerras mundiais os operários, junto com os burgueses lutaram contra os operários e burgueses unidos do outro lado. Nem os países comunistas não lutariam jamais contra outros países comunistas (lembremos o Camboja), isso para não falar do ódio dos chineses contra a União Soviética. Nem o espírito religioso do povo eslavo desapareceu por obra do ensino anti-religioso.

JC – Pode-se encontrar partes resgatáveis em Marx e Engels?
ES – Sim, penso que Marx foi um dos que mais lutou com seus livros contra a escravidão no mundo capitalista, especialmente na Inglaterra vitoriana com a qual conviveu, e tem partes filosoficamente de valor. Para seus epígonos baratos e, no caso grotesco de Stalin, todas as atividades do espírito foram reduzidas às forças econômicas. Em sua Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, afirma que não é a história que faz o homem, mas sim o homem real e vivo que faz a história. Mas a escolástica stalinista tergiversou e barateou suas ideais. Homens como Labriola, na Itália, foram sufocados pela escolástica oficial. Talvez como resultado da tradição hegeliana que na Itália se manteve por obra de Croce – filósofo idealista – pode surgir um espírito tão admirável como Gramsci, que durante seus seis anos de cárcere escreveu páginas que resplandecem em meio à baixeza filosófica do stalinismo. Lutou contra a obra de Plekanov, que tanto foi predicada em meus anos de estudante, quando defendia que a arte era um "reflexo" da sociedade e que as condições econômicas "explicavam" os sentimentos, as idéias e a arte. Bastaria lembrar que Marx recitava de memória Shakespeare e os líricos ingleses e alemães, muitos deles "reacionários", e ria de L'Insurgé, aquele romance "engajado" de um militante da Comuna de Paris. E o que não teria dito da famosa arte "proletária" incubada pelo stalinismo! 
Também devemos reconhecer, frente ao homem abstrato de Hegel, alheio à terra e ao sangue, a frase de Marx : "O homem não é um ser abstrato, fora do mundo: é o mundo dos homens, do Estado, da sociedade". Sua consciência é uma consciência social, enunciando assim um novo humanismo frente às enteléquias iluministas e racionalistas tipo Voltaire. Nisto, há muito parentesco com o que fariam os existencialistas de forma mais acabada. Mas ele compartilhava com os iluministas o mito da Ciência e da Luz contra as potências obscuras. Essas potências obscuras que constituíam o mais profundo e concreto da condição humana: a alma e suas paixões, o inconsciente e suas verdades, a própria fonte dessa arte que tanto admirava. Por alguma razão ele e Engels chamavam seu socialismo de "científico", frente aos utópicos anarquistas, que são os que finalmente tiveram razão. Demoliu implacavelmente Proudhon, mas agora compreendemos que aquele socialismo não teria incorrido na massificação soviética, típica tanto do capitalismo de massa como do socialismo de massa, ambos herdeiros da ciência e da técnica, que conduziram a esta espantosa catástrofe de nosso tempo.

JC – Em suma, voltar ao anarquismo?
ES – Sem dúvida, senão seremos destruídos minuciosamente pelo desastre talvez irreversível da ciência e de sua filha dileta, a técnica, com suas megalópoles, com a destruição geral da natureza e do próprio homem, massificado, coisificado, que não tem outra saída senão a droga ou o nihilismo destrutivo. Mas isto nos leva muito longe e não pode ser desenvolvido em uma simples entrevista. Em Hombres y Engranajes, que escrevi em 1951, explico em profundidade esta crise colossal. Me encheram de insultos e fiquei dez anos sem publicar uma única linha, até 1961, quando me decidi a editar Sobre Héroes y Tumbas. Agora, tudo o que disse naquele livro está à vista, todo o desastre do famoso progresso.

JC – Quais seriam as conseqüências desta degringolada para os futuros projetos dos escritores?
ES – Depende de que espécie de escritor você fala. Para os profundos, será sempre a mesma coisa, os temas transcendentes que constituem a condição humana, que são sempre os mesmos. Para os escritores de ocasião, para os que se limitam ao anedotário político, não sei, suponho que continuarão escrevendo as mesmas superficialidades.
JC – Você parou de escrever ou vai nos brindar com alguma outra criação?
ES – Você sabe que em 1979 me detectaram uma grave doença nos olhos: não câncer, mas algo irremediável, com o derrame do humor vítreo, com o que as retinas ficam sem proteção, e as lesões decorrentes que naquela época eram muito grandes. O especialista, um grande amigo meu, me proibiu a leitura e a escritura, salvo em quantidades mínimas e empregando minha memória digital.

JC – Está cumprindo esse pedido médico?
ES – Não foi pedido, foi uma ordem terminante, amistosa mas terminante. Claro, como não iria cumpri-la? Para cúmulo, este meu horror sagrado à cegueira...
JC – Como se seus livros, seus romances, tivessem um caráter premonitório...
ES – Sim.

JC – Você agora começou a pintar, precisamente porque está mal de vista?
ES – Claro, vale a piada. Mas a realidade é que o tamanho de um quadro me permite o que não me permite a letra. Quando o oculista me disse, com um rosto muito grave, o que me acontecia e observou que talvez eu não tivesse ficado angustiado, me falou de sua perplexidade. É muito simples, respondi, toda minha vida tive a nostalgia de minha paixão, primeiro pela pintura, desde que era pequeno e depois adolescente. Foi a minha primeira e talvez mais forte paixão. Nesse mesmo instante me senti liberado, porque que cada vez que fazia alguma coisa de pintura, sentia uma espécie de culpa, porque muitos me diziam que devia continuar escrevendo. Na realidade, ao concluir Abaddón, el Exterminador, em 1974, senti que havia dito tudo o que tinha de dizer, a ponto de minha tumba aparecer no romance. Enfim, continuei escrevendo alguns pequenos ensaios. Mas as grandes verdades, pelo menos as que eu não consigo alcançar, já estavam ditas. Essas grandes verdades existenciais, as quais não só escrevemos conscientemente mas, e principalmente, com os ditados que vêm do mais profundo de nosso ser, do inconsciente. A propósito, quero acrescentar algo que considero fundamental: a pintura permite uma transmissão mais direta destas visões inconscientes. Por isso é mais catártica, mais liberadora. Por: Janer Cristaldo

ENTREVISTA COM ERNESTO SÁBATO (2)


Janer Cristaldo – O mesmo não diriam um Proust ou Joyce. Explique melhor a coisa. Ernesto Sábato – O inconsciente se expressa sempre por imagens, como nos sonhos, que são como cinema mudo, com raras exceções. A pintura tem esta vantagem sobre a literatura, embora por outro lado tenha desvantagens. Tanto em um caso como no outro, o fundamental, as grandes verdades, vêm do inconsciente. De um sonho pode-se dizer qualquer coisa, menos que seja falso. O processo da criação, tal como pelo menos eu pude verificar pessoalmente, é assim: em momentos excepcionais, nessa região penumbrosa que fica entre o sono e o pleno despertar, às vezes se consegue entrever algo, o que poderíamos e talvez deveríamos denominar de "objeto poético", quase inexpressável, ambíguo, contraditório, mas tão verdadeiro que nos sacode, nos angustia ou nos fascina. O escritor tem de expressar esse objeto por intermédio da palavra, mas a palavra sempre é conceitual: "árvore" não é a imagem de uma árvore, já que serve tanto para uma palmeira como para um limoeiro. É uma convenção abstrata, e por isso em cada língua se diz de maneira diferente: árvore, baum, tree... Um dos grandes problemas que o escritor tem de resolver é o de expressar, mediante conceitos puros, algo que não é conceitual, mas visual, e além disso ambíguo, polivalente. Penso em todas as interpretações que se podem fazer e foram feitas dos sonhos de José, através dos séculos. Essa é a diferença entre poesia e prosa, não a que se pensa normalmente: a prosa, em sentido estrito, é um teorema, ou uma lei científica, ou um prospecto que acompanha um objeto doméstico eletrônico, em que se dá instruções precisas e unívocas sobre cada botão. A poesia, no sentido grande e clássico, é, ao contrário, ambígua e multívoca, seja um poema, uma tragédia ou um grande romance. Tem muitas leituras, como se diz agora no jargão, é suscetível de diferentes interpretações, que mudam inclusive em nós mesmos, como leitores, à medida que passam os anos. Esta linguagem poética, que na simples prosa emprega idéias abstratas, na pintura se dá diretamente através de uma imagem.

JC – Você tem feito exposições?
ES – Sim, mas só no estrangeiro. a primeira no centro Pompidou, há pouco uma em Madri e outra novamente em Paris.

JC – Como influiu em seu ânimo, e mesmo em sua saúde, essa nova condição?
ES – Maravilhosamente. A pintura é mais liberadora, por isso talvez existam pintores mais longevos que escritores. Marc Chagall não acabava de morrer nunca... Há, além disso, a vantagem de ser algo mais intuitivo e manual. Até o cheiro de terebintina me subjuga. Cada vez que entrava no ateliê de pintura de um amigo meu sentia esse cheiro e um sentimento de frustração. Alguma vez escrevi que lutamos contra o destino e o destino por fim tem razão. Eu costumava dizer a Matilde: morrerei com uma enorme nostalgia da pintura. A semicegueira me permitiu a pintura.

JC – Em que escola você se situa?
ES – Você, que leu e traduziu meus romances, que acha?
JC – Uma pintura trágica e expressionista?
ES – Acertou. Ultimamente derivou para uma obra totalmente sobrenaturalista. Há quadros tão terríveis que não poderia colocá-los em minha casa, como diria um marxista eterno, o Groucho.

JC – Como se sente hoje o pintor que está quase cego?
ES – Enfim, não exageremos. Mas quero te dizer que tive uma crise, via como se tivesse uma teia de aranha pela frente. Tive a paixão pela pintura desde que era pequeno. Isso tem a ver com algo muito curioso. Durante toda minha vida tive paixão pela pintura. Sempre estive vinculado com o pintor, tanto na Argentina como em Paris. Eu vivi em Paris muitas vezes, mas principalmente um ano inteiro antes da guerra, no laboratório Curie, com um bolsa que obtive com o Dr. Houssay, prêmio Nobel de medicina.

JC – Me consta que ele ficou muito frustrado com sua renúncia à ciência...
ES – Sim, logicamente, inclusive me retirou a saudação. Olha só o que é a mentalidade cientificista! Não fiz disto um problema fundamental. Estive em um momento crítico quando se produziu a fissão do átomo de urânio. Aí eu pensei que isto seria o princípio do apocalipse. Acontece que sempre fui apocalíptico por natureza.

JC – Não é por acaso que escreveu Abaddón...
ES – Neste romance pus em minha lápide: " Ernesto Sábato quis ser enterrado nesta terra com uma só palavra em sua tumba: PAZ". Aí narro de forma fantástica o que sofri, neste momento de minha vida. Eu vivia, como sabes... eu chegava tarde no laboratório, cansado, e vivia à noite com os surrealistas, no Dôme, naquela época era um dos cafés dos surrealistas, agora é um café burguês. Quando voltei lá, anos mais tarde, com muito temor de rever o café, quase morri de tristeza. Mas lá continuam as fotografias antigas. Ali eu me reunia com quase todos. Com Domínguez, que depois se suicidou... depois te conto algo sobre este suicídio. Certa vez me convidou para que nos suicidássemos juntos.

JC – Ah, sim? Bom... e quando ocorre o episódio com Victor Brauner, você cria um personagem nominado pela letra E. Houve uma briga entre Dominguez e outro pintor e Brauner acabou tendo o olho vazado por copo, jogado por alguém. O personagem E. tem algo a ver com Ernesto?
ES – Não, não. Não foi comigo. Pus E. porque era um amigo comum. Pus assim por delicadeza, sei lá por quê... Foi terrível. Na verdade, tudo ocorreu no ateliê de Domínguez. Ele foi um bom amigo. Era das Ilhas Canárias, muito louco, talvez não fosse um grande pintor, mas fez coisas boas. Era um surrealista autêntico, talvez o surrealista mais autêntico que conheci em minha vida. Ele viveu como um surrealista, não foi um farsante como Dali, por exemplo. Eu gostava muito dele. Era enorme, brutal, acromegálico. Era bom pintor... Depois trabalhou com Picasso, porque Picasso além de ser um gênio, sem dúvida alguma, era também uma espécie de executivo, tinha uma mentalidade muito comercial. Este homem, Picasso, jamais quis conhecê-lo. Pintor importante, mas jamais gostei dele como ser humano. Tínhamos amigos comuns, como Domínguez, que trabalhou com ele durante anos. É autor de muitas das falsificações de Picasso que existem no mundo. Nos Estados Unidos há muitos Picasso/Domínguez.

JC – Creio que também de Dali...
ES – Também fez falsificações de Dali. Era uma pessoa muito divertida, de humor negro, propenso ao suicídio, ao álcool, às drogas, mas um grande amigo e muito generoso.
JC – E este convite ao suicídio entre vocês dois ...
ES – Para concluir isto... nesta época, foi antes da guerra. Bem, a pobre Matilde foi o marco de minha existência. Eu daria dez vezes minha vida para tê-la. Está doente há oito anos e meio, como sabes. Tem arteriosclerose e está semi-paralizada, mas... é para mim uma dor muito profunda, dizer isto não tem nada de mais, todo mundo sabe, na Argentina se diz... que tenho outras mulheres. Creio que a monogamia é uma invenção do cristianismo, porque nem mesmo seus antepassados judeus eram monógamos. Pensava nada mais que em Davi e em Salomão.

JC – Isto faz parte da vida de um escritor.
ES – Sim, faz parte da vida em geral. Acontece que há uma espécie de hipocrisia, e eu detesto a hipocrisia. Tive algumas paixões muito fortes que duraram anos. Ela sofreu muito.
JC – Ela sempre teve conhecimento dessas paixões?
ES – Sim, de uma maneira ou de outra, claro. Algumas duraram dez anos. Houve grandes culturas polígamas e também poliândricas e que nada têm de escandalosas. Isto é uma hipocrisia típica de agora, desses países chamados cristãos.

JC – Alejandra estará calcada em alguma de suas amadas?
ES – Não, não. Em meus romances há dois ou três personagens que podíamos chamar de "après nature", como diziam os pintores naturalistas, que pintavam uma banana como uma banana, uma maçã como uma maçã. Em meus personagens, a exceção é Dominguez, que aparece em Abaddón e em Héroes y Tumbas, mas é um Dominguez deformado completamente por acontecimentos que não eram dele, mas eram como um retrato dele. Digo isto com carinho... Os outros personagens são todos ilusórios. Há em Abaddón, nesse momento que considerei o começo do apocalipse, pela fissão do átomo de urânio, dois personagens, um que se chama Molinelli e o outro tem um nome judeu muito estranho, como Citronenbaum, que quer dizer algo como limoeiro. Eu me divertia muito inventando esse personagem, porque era um judeu pequeno, com uma roupa que provavelmente pertencia a algum antepassado enorme, ou que usava por falta de dinheiro. Era pequeno e magro, tinha algo parecido com Trotski, eu o imaginei assim. Mas com uns olhos tremendos e acompanhado pelo Molinelli, que era um grandote e gordo.

JC – Você não tem grande apreço pelo naturalismo...
ES – O naturalismo me aborrece. Às vezes há pessoas que me perguntam coisas tão grotescas como, por exemplo, se Alejandra vivia realmente no Mirador. Mas Alejandra jamais viveu. Paradoxalmente, o fato de criar, inventar um personagem, te dá uma liberdade absoluta. No entanto, todos os personagens, creio, se se faz uma literatura profunda, e não uma literatura naturalista – isto não digo eu, mas já disse Ibsen, já disse Flaubert – madame Bovary c'est moi–, é um exagero. Madame Bovary tinha de uma forma caricatural o próprio romantismo que Flaubert tinha escondido. Mas era uma pobre mulher de província. Ibsen diz: "todas as personagens saíram de meu coração". O coração do homem é muito misterioso e jamais acabamos de conhecê-lo. Quando escreves, as coisas vão saindo. Estes dois personagens, Molinelli e Citronenbaum, as pessoas crêem que existiram. No entanto, jamais existiram. Mas, em outro sentido penso que, no fundo, toda obra literária, se é profunda, vem do mais profundo do coração, que é inescrutável. Além disso, é misterioso a ponto de assustar-te nos sonhos. E estes sonhos são teus. Escrevi coisas que Pascal chamava "raisons du coeur", as razões do coração. Isto se escreve daqui para baixo (Sábato indica a têmpora). Daqui para cima é o teorema de Pitágoras. Estas coisas são muito formosas, mas não servem para viver nem para morrer. A literatura, a arte, a poesia –a poesia em geral, no sentido grave e profundo que lhe dão os gregos– isto é, tudo que não é cerebral, tudo que tem a ver com as paixões, sentimentos, emoções, com o inconsciente, aí está a grande verdade. De um sonho pode se dizer qualquer coisa menos que seja uma mentira. Mas o sonho é uma verdade misteriosa que o próprio homem que o sonhou não sabe bem o que quis dizer. Isto inclusive o assusta.

JC – Enfim, o que é assustador em tua obra é o "Informe sobre Cegos", um pesadelo. De onde saiu esta...
ES – Isto é apenas um pedaço, pois nos três romances há coisas que são pesadelos. Há vários sonhos: o pássaro de Castel, em El Tunel. Em Abaddón há muitas coisas que jamais aconteceram, aquelas coisas na cripta de uma igreja, aquela violação de uma mulher que, no lugar do sexo, tinha um olho. Tudo isto te ocorre como te ocorre em um sonho. Não sabes o que queres dizer. Eu nunca soube o que ia dizer. Escrevia o que ia saindo. Em minha obscura intuição, sabia que tinha de escrever algo. Mas os cegos de meus romances não são cegos no sentido naturalista da palavra. Certa vez um médico me perguntou, assim como alguém me pede a verdade verdadeira, ao autor: "essa história dos cegos é verdade?" Ele estava muito preocupado. Eu disse: olhe, tudo depende do que você entende como verdade. Quem vai imaginar que os cegos vivem nas cloacas? Isto talvez seja uma metáfora do inconsciente, coisas que vão saindo aos borbotões. Há além disso humor negro e coisas muito misteriosas. Esta é a única espécie de literatura que me interessa. Pois penso que aí estão as grandes verdades, sempre, como nos sonhos, e dos sonhos se pode dizer qualquer coisa, menos que sejam uma mentira.

JC – Antes que esqueçamos, como é esta história do suicídio com Dominguez? É uma coisa pouco conhecida em sua biografia.
ES – Ah, sim, ia me referir a isto por Matilde. Matilde estava comigo desde seus dezessete anos. Era de uma família judia, muito religiosa, havia em sua família talmudistas. Nessa época, eu estava metido no movimento comunista, mas metido de verdade, nunca fui comunista de salão. Fui secretário do Partido Comunista durante cinco anos, e me separei quando começaram os processos de Moscou e percebi ser uma abominação aquela ditadura espantosa que deixou vinte milhões de mortos e torturados. Dados pós-Gorbatchov. Nessa época, conheci Matilde. Fugiu de casa com dezessete anos. Naquela época, na Argentina, ter dezessete anos era ser menor de idade. Enganou a polícia durante um ano. Eu vivia clandestinamente. Dessa época até hoje, são sessenta e tantos anos, temos vivido juntos, e viveremos juntos até a morte. Eu daria dez vezes minha vida por Matilde. Ela foi quem me alentou, me estimulou. É uma mulher sensível, terrivelmente sensível, muito inteligente, muito imaginativa. Enfim, como todos os homens, tive paixões por outras mulheres. Algumas foram paixões pequenas e outras duraram anos. Matilde sofreu muito com isso. O que contei tem a ver com a pergunta que me fez. Horrível, porque nos instalamos em Paris em um quartinho na Rue de Sommerard, perto de Cluny. Tive uma aventura com uma mulher russa, dessas emigradas, uma coisa muito feia. Assim como fiz outras coisas muito bonitas, essa foi uma coisa ... totalmente sexual, digamos. Há que dizer a verdade, me horroriza estar mistificando. Deixei Matilde com o filho que tinha três meses e fui viver sob outro teto, para poder ter uma vida livre com essa mulher. Matilde decidiu voltar à Argentina. Eu a acompanhei ao embarque. Foi realmente muito triste tudo isto. É uma lembrança que não me traz nenhuma honra. Que se pode fazer? Eu creio que o homem tem uma natureza polígama.
Em Paris, quando chegou o inverno, foi um inverno muito frio, era antes da guerra, seria no mês de novembro, dezembro, eu estava muito só, trabalhando no laboratório Curie, e à noite me reunia com os surrealistas. Com Matta, Domínguez, Bréton. Este era um bom poeta, que fez um manifesto misturando o materialismo dialético com os sonhos. Nesta época, fomos uma tarde ao Marché aux Puces, que ficava na Porte de Clignancourt. Voltamos porque havia começado a chuviscar, era uma tarde muito triste. Domínguez era um homem de fundo trágico. Voltamos no metrô que ia até Porte d'Orléans, porque o ateliê de Dominguez estava em Montparnasse. Saímos do metrô e chuviscava, já era de noite. Ele me disse: "Ernesto, que te parece se esta noite nos suicidamos juntos?"

JC – Assim, só por dizer?
ES – Não, ele tinha a obsessão do suicídio. Eu também estive duas ou três vezes muito perto do suicídio.
JC – Isto se pode ver em seus livros.
ES – Sim, isto foi uma obsessão. Fui sempre um depressivo, passava das paixões mais violentas a depressões que duravam meses, eram muito profundas. Domínguez me disse aquilo, quando estávamos já no ateliê, e eu lhe disse: "Olhe, não, eu tenho outros projetos". (Ri). A palavra projeto agora é curiosa, para um suicídio.

Resumo da ópera: o projeto de Domínguez não vingou, ou pelo menos não vingou em parte, já que ele decidiu partir sozinho. Sábato, hoje em sua oitava década de existência, está "vivito y coleando", como dizem os espanhóis, e nos lega uma densa obra ficcional. Em correspondência passada, falávamos de morte, esta eterna obsessão de Sábato, que inclusive já escreveu seu epitáfio em Abaddón. Como bom discípulo, tive de discordar dele. Sábato já escapou à condição de mortal. Pode até ocorrer que morra, que seu corpo se putrefaça. Isto pouco importa. Permanecerá sempre vivo na memória de todo homem culto. Por: Janer Cristaldo

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O velho Brasil da rua e da casa

O olhar é tudo. De um viés oficial balizado pelo eurocentrismo e pela experiência americana clássica, o Brasil oficial é uma balela. Aqui não havia nada: nem lei nem rei. Os mandamentos e as ordenações elaboradas pelos letrados (que Sérgio Buarque de Holanda chama, no seu clássico Raízes do Brasil, de "eruditos") seriam "em verdade criações engenhosas do espírito, destacadas do mundo e contrárias a ele". Haveria um autoritarismo da lei como compensação para a anarquia social reinante. Numa sociedade tida como desordenada, a lei e o Estado ordenariam a confusão.
Eis um despojado resumo de um conjunto de observações pioneiras sobre as relações entre Estado e sociedade no Brasil. De um lado, um acervo de leis abstratas porque universais difíceis de serem cumpridas; do outro, a cumplicidade de instituições e costumes anárquicos tornam a lei um obstáculo e um testemunho contundente de que as coisas não funcionam.
Mas se olharmos esse mesmo Brasil como um sistema de instituições e costumes - como um sistema cultural, o que vemos é um todo ordenado verticalmente, no qual a busca não é para quem está ao nosso lado, mas para quem está em cima ou embaixo. Daí o discernimento de Tom Jobim - um músico -, o que, nessas coisas, tem um peso considerável, quando ele afirma como o sucesso - essa categoria social dos países competitivos e meritocráticos que ordenam horizontalmente o mundo - é uma ofensa pessoal no Brasil. Vale grifar o pessoal porque o problema foi e ainda é quem faz ou é acusado de fazer e não o que foi feito. O jogo é complexo: quanto mais leis, mais os elos pessoais (hoje poderíamos falar em laços partidários) se reforçam e as neutralizam como eu disse em 1979, no livro Carnavais, Malandros e Heróis. Um ensaio que pela primeira vez se afirma, usando Tocqueville, como o Brasil era muito mais aristocrático do que supunha o nosso vão republicanismo.
Gilberto Freyre, um outro intérprete modelar, não fala em leis nem no Estado. Para ele, pelo menos no seu livro mais popular, Casa Grande & Senzala, o Brasil aparece apenas como um "sistema social total" como dizia Marcel Mauss. O que movimenta a sociedade brasileira é o patriarcalismo escravocrata. São os valores familísticos que permeiam o Brasil.
Trata-se de outra perspectiva. Se olhamos a máquina administrativa, a sociedade seria anárquica; mas se o ponto de vista é o da casa grande e da senzala com seus antagonismos em permanente equilíbrio, não atinamos com o fato de que a escravidão tem um preço e que existe toda uma legislação que não apenas legitima a presença do escravo como um morto-vivo no sistema, mas as regras a serem seguidas no parentesco, no compadrio e na amizade.
Se você, leitor, está achando tudo isso muito abstrato, leia com calma os diálogos amorosos e paternais entre Carlos Cachoeira e Demóstenes e entre eles e os seus prepostos e desses subordinados entre si. Sérgio tem razão na hipótese da lei contra o costume; mas Freyre também tem razão ao enfatizar o patriarcado escravocrata contra o mundo da "rua" com suas leis ou posturas que deveriam valer para todos, exceto para os fidalgos, para os altos funcionários do governo e para os "homens bons". Nesse Brasil, ninguém queria ser um "peão". Um mero plebeu ou "cidadão". Sim, porque esse último escândalo cujo centro é o laço íntimo (e, sem dúvida amoroso) entre empresários, um contraventor, nobres governantes e ilustres fidalgos, administradores do executivo, legislativo e judiciário é legal e legítimo em muitas dimensões, mas obviamente está fora da ordem igualitária. Ele revela como persiste no Brasil a figura do "cidadão de bem" (réplica moderna do "homem bom") por contraste cultural com "cidadão comum". Esse merda que somos todos nós.
Como cidadão você paga sendo sujeito da lei, como amigo dos "caras", porém, anulam-se em nome da lei (mas não da eficiência ou do mérito) as regras que governam o Brasil como Estado nacional. O caso Cachoeira e quejandos revela como o Brasil dos palácios (ou casas grandes) tem regras e éticas. Só que elas não são discutidas em função dos requisitos de uma governabilidade num universo globalizado e digital onde a transparência é uma dimensão (queiramos ou não) crítica do poder e do gerenciamento público em geral.
O que os jornais estampam não é algo fora do comum. Todos temos uma lealdade absoluta (e comovente) com nossos amigos, parentes, compadres e subordinados que (de modo regular) pagam o pato como os nossos delúbios e aloprados. Agora, o que os jornais não falam é a força destes elos que são mais potentes do que os decretos e normas que gerenciam os serviços e o bem comum - aquilo que é definido como sendo de todos, mas que - eis o óbvio ululante que ninguém vê - é governado por pessoas que, por serem pessoas, são precisamente os nossos afins, pais, irmãos e companheiros. Nossos camaradas e amigos de fé. Esses homens bons, todos maravilhosos em pessoa e todos complicados quando se trata de distinguir o legal do ético no uso da coisa pública. Por: Roberto DaMatta - O Estado de S.Paulo

terça-feira, 1 de maio de 2012

Notícias do hospício

1. NOVA York deu-nos a música de Stephen Sondheim, os combates de Rocky Marciano e os filmes de Woody Allen. Mas também nos deu Michael Bloomberg, um caso de fanatismo antitabagista que diverte e comove ao mesmo tempo. Agora, depois de todas as restrições antitabagistas conhecidas (em restaurantes, escritórios, parques, praias etc.), parece que o "mayor" não exclui a proibição de fumo nas calçadas da cidade -e até, quem sabe, no interior dos lares. Ponto prévio: não sei como será possível fiscalizar o cumprimento da lei na casa de cada cidadão. Detectores de fumaça obrigatórios? Câmeras idem? Gratificação para delatores da família, como na saudosa União Soviética? Mistério. Uma coisa, no entanto, parece certa: o que começou como preocupação razoável sobre liberdade e saúde alheias converteu-se no pretexto ideal para que o poder político faça o que melhor sabe: eleger um inimigo da sociedade, despersonalizá-lo até a humilhação total e arregimentar legiões de talibãs contra ele, que desatam a tossir ante a ameaça do cigarro -quando, anteriormente, nem pensavam nisso. Chegará o dia em que o fumante será o perfeito pária social -sem espaço para existir na civilização e sem uma toca onde possa refugiar-se da intolerância viscosa das massas. Já estivemos mais longe. 2. No mundo do desporto acontece de tudo: doping, rivalidades mortais, sacrifícios desumanos em nome da excelência. Mas que dizer de quem finge deficiências para concorrer nos jogos paraolímpicos? A reportaggem é da revista alemã "Der Spiegel", e minha incredulidade é total: cresce o número de deficientes falsos que inventam cegueira, paralisia, até amputação -tudo em nome do desporto, da fama e, claro, do vil metal. Exemplos? São incontáveis. Monique van der Vost era uma celebridade na Holanda, uma das melhores ciclistas paraolímpicas do país. Só havia um pormenor: as pernas da sra. Monique funcionavam à perfeição. Os próprios vizinhos, temendo estar na presença de um gêmea, já a tinham visto a dançar pela casa. Não pretendo levantar falsos testemunhos, mas suspeito de que a dança era só forma de relaxamento antes das provas oficiais. Monique não é caso único. Yvonne Hopft, cinco vezes medalha de ouro em provas paraolímpicas de natação para cegos, afinal não o era: hoje, afastada das competições, resolveu mudar de vida e até já tirou a permissão para dirigir. Mas o melhor exemplo de fraude vem da equipe espanhola de basquete, que se apresentou em 2000, nos Jogos Paraolímpicos de Sidney, para disputar a medalha de ouro de deficientes mentais profundos. A equipe conquistou a medalha de ouro, sem dúvida, mas parece que dez atletas tinham um Q.I. perfeitamente normal. A revista, infelizmente, não esclarece se o Q.I. era normal para qualquer ser humano ou apenas para um espanhol. Seja como for, o Comitê Paraolímpico Internacional promete vigilância e penas duras aos farsantes. Aplaudo, comovido. Mas o que será pena dura para quem finge ser deficiente e ganha a vida com isso? Nos meus momentos de delírio, penso que a única forma de punir seriamente os farsantes era infligir-lhes, temporariamente que fosse, a exata deficiência de que eles fingem ser portadores para enganar meio mundo. Tenho certeza de que o desporto paraolímpico ficaria mais respirável da noite para o dia. 3. E, por falar em deficiências, leio na imprensa brasileira que os gagos de Manaus poderão ter desconto de 50% nas contas do celular. A intenção não é nova: Mato Grosso do Sul já tem legislação a respeito, informa o jornal "O Globo", o que significa que o cliente gago só tem que pedir uma avaliação médica a um fonoaudiólogo e entregar o documento da sua deficiência no operador telefônico respectivo. Depois, não importa se ele demora mais tempo para falar o que tem a falar: a mão paternalista do governo ampara a sua gagueira com mais uma política de "discriminação positiva". Um absurdo? Honestamente, creio que a notícia se comenta a ela própria. Uma consequência da medida, porém, parece-me inevitável a curto prazo: vai aumentar o número de gagos em Manaus.Por: João Pereira Coutinho

Reflexão dominical

Domingo não devia ser dia de pensar ou fazer besteira, pois é o dia do Senhor. Não tem nada de ficar olhando disfarçadamente a cunhada de shortinho, dar beijinhos furtivos de canto de boca em quem topar, nem encher a cara e cantar a mulher do dono da casa enquanto ele cuida do churrasco. Nem tem nada de mostrar, fingindo que não nota, os peitos aos presentes, ou dar um apertãozinho mais caprichado no braço do marido da amiga, na hora em que se apoia nele para mudar de lugar. Muito menos essa sem-vergonhice, ainda vigorosamente praticada em todo o Brasil, de roçar joelhos e coxas por baixo da mesa, para no dia seguinte ou não se lembrar de nada ou cair numa ressaca moral devastadora. Devíamos todos estar meditando sobre a vida e o aperfeiçoamento espiritual, já que nos afastamos um pouco das refregas de todo dia.
Mas não estamos, a verdade é essa, embora eu devesse cumprir a praxe e mencionar a existência de exceções. Claro que há exceções, em quase tudo há exceções. Lembro agora a frase de Pittigrilli escritor na época considerado muito picante, hoje esquecido e provavelmente tedioso para uma adolescente de 15 anos, na abertura de um texto que cito de memória: "As únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor." Podíamos combinar algo assim. Todo mundo faz besteira no domingo, mas nós não e, principalmente, nossas mãezinhas. E as santas esposas de todos também, naturalmente.

E se, no afã de não melindrar ninguém, formos adiante, acabaremos achando tantas exceções que ninguém mais se enquadrará na regra. Concluímos assim que ninguém faz besteira no domingo, nem em dia nenhum, pensando bem. Ou melhor dizendo, quem faz besteira são os outros. Há não muito tempo, falei aqui sobre isto, a mania, ou vício, ou neurose coletiva que nós, brasileiros, temos de atribuir tudo o que de mal ou inconveniente nos atinge é culpa "deles". Ninguém sabe direito quem são eles. É o governo, são os políticos, são os ignorantes, os bandidos e assim por diante. Mas nós não temos responsabilidade nisso, é com "eles" ou "os homens".

Domingo, dia também de jornal grosso, dia de revistas semanais, vejo-me aqui entontecido e incapaz de raciocinar, em meio ao turbilhão de notícias sobre corrupção, ladroagem e bandidagem. Não são somente as de hoje, são as que vêm chegando há tanto tempo que já perdi a conta. Duvido que alguém consiga fazer um levantamento das gatunagens, maracutaias, furtos, desvios, roubos e todo tipo de falcatrua envolvendo, direta ou indiretamente, algum órgão público ou poder da República. Somente uma equipe diligente e bem treinada talvez conseguisse fazer uma base de dados razoável, mas, ainda assim, acho que sempre seria uma tarefa incompleta, pois muita coisa se apura e se guarda em segredo, outras coisas se abafam, outras são meramente ignoradas, outras passam por cima da lei, num panorama a que estamos acostumados desde que nascemos.

Façamos uma abstraçãozinha e imaginemos uma hipótese. Se o povo brasileiro de hoje por acaso desaparecesse, como desapareceram civilizações da antiguidade oriental, e alguns vestígios fossem descobertos? Decifrada a escrita, o que se formaria seria o retrato de uma sociedade corrupta de cima abaixo, governada despoticamente e insensível a valores morais. Não veriam "eles", veriam nós. Descreveriam uma curiosa coletividade, oficialmente regida por leis escritas, mas, na verdade, leis consuetudinárias, ou seja, baseadas no costume. Essa conversa de lei escrita é enrolação para constar, o que vale mesmo é o costume. Tanto assim que há leis que não pegam e leis que não despegam, há até artigos da Constituição que o costume manda não observar. E não adianta a lei escrita punir os corruptos, porque a maioria não vai ser mesmo, não é o que manda o nosso soberano direito consuetudinário.

E, verdade que também não gostamos de encarar, os costumes não são recentes. Agora, por uma série de razões, inclusive a tecnologia, estão piorando muito, mas sempre foi assim. Sempre se roubou dinheiro público aqui e sempre o poder político foi disputado para premiar os vencedores e seus aliados com cargos vitalícios, remunerações nababescas e privilégios inacreditáveis. A carreira política é vista apenas como um meio de subir na vida e amealhar tanto para si quanto para a família e os aliados. Os partidos políticos também só servem para conseguir "colocações" e postos de influência, onde continuará a medrar a corrupção enraizada, no rodízio dos de sempre, com o qual já temos bastante familiaridade. Até fisicamente isso é visível, nos inúmeros políticos que se elegem pela primeira vez com ares famélicos e ansiosos, para estarem, poucos anos mais tarde, gordinhos, bem-humorados, sorridentes e de paz com a vida: é o bendito sinal de que já se fizeram, ideal de tantos brasileiros, que pode ser tanto o Congresso Nacional quanto o Big Brother Brasil.

Não sei quem foi o gringo que, se referindo ao Brasil, disse que "um país em que o sujeito cospe um caroço de fruta numa frincha da calçada e logo nasce comida não pode dar certo". Não sei bem por que, acho que a explicação vem pela indolência assim fomentada e, claro, vem também pela nossa ignorância e falta de educação, pelo egoísmo e ausência de espírito público, pela nossa moral santarrona mas hipócrita, pelo nosso treinamento como súditos e não como cidadãos. Não estamos acostumados a ter mandatários e representantes, temos apenas governantes, a quem obedecemos sem discutir. E continuarão assim porque esquecemos que "eles" não são "eles". Enquanto formos como somos, eles continuarão a ser como são, porque é de nós que saem. Um povo que pratica, tolera - e até admira - todo tipo de desonestidade é um povo honesto? Tudo leva a crer que não, embora com a exceção da gente.Por: João Ubaldo Ribeiro  O Globo

Melhor calar

Poderia dizer mil coisas, mas resolvi calar...Melhor assim. Em algumas situações o silêncio expressa sentimentos que palavras nunca vão conseguir traduzir. Também estou calando para não brigar e magoar quem mais precisaria me ouvir e calar-se. Alguém precisava tomar a iniciativa de interromper o diálogo antes que virasse uma batalha interminável. Optei por utilizar a voz do silêncio.
Nem tudo precisa ser dito com palavras. Nem todas as perguntas necessitam uma resposta. Nem sempre a solução dos problemas aparece quando se abre a boca. Existem coisas que melhor se dizem calando, pois o silêncio é um dos argumentos mais difíceis de refutar.
Calando-me consigo ouvir meu coração, que ainda sente, continua falando e precisa de ajuda. Aproveito meu silêncio para escutar melhor, prestar atenção ao outro, interpretar gestos, olhares, respiração. Tenho tempo para analisar, deixar que as idéias circulem e amadureçam. Calo-me para saber se existe eco. Seguro palavras inúteis ou nocivas que na ânsia de contestar ou revidar poderiam ferir.
A economia de palavras é uma virtude que não é exclusiva dos monges tibetanos. Guardo silêncio pela dor que estou sentindo e que não pôde se converter em lágrimas. Calo-me por respeito a você, para que consiga ouvir o que seu interior quer lhe falar, possa pensar a respeito e talvez sentir aquilo que não estou conseguindo lhe dizer. Acredite naquelas coisas que não conseguem ser ditas. Corações não conversam com palavras, precisam de silêncio para conseguir se ouvir e entender.
A psicanálise sustenta que não existe silêncio sem sentido, pois não existe um olhar humano sem interpretação da realidade, ou seja, o silêncio é sempre uma folha em branco, um prenuncio de novas palavras ou situações, uma resposta latente, e até mesmo, uma pergunta trancada.
Sei que ficar em silêncio incomoda e é constrangedor. Desculpa, não estou calado porque recuso-me a conversar, covardia, omissão ou indiferença. Também não estou me fazendo de louco. Calo-me porque em alguns casos, o silêncio é a resposta que tudo explica, e neste caso, é a única resposta.Por: Ildo Meyer