domingo, 21 de julho de 2013

CARTA AO JOVEM BRASILEIRO II

Que grito é esse “das ruas”? 

O que está por traz dele, o que desejam esses “jovens”?


Os especialistas não arriscam a dar uma resposta. Eles acreditam que o tempo poderá explicar o motivo e a razão desse movimento que, ao meu ver, engatinha.

Sabe-se que o país encontra-se mergulhado numa crise de valores morais, políticos e éticos. Há uma insatisfação e uma desconfiança generalizadas. Elas se devem à uma perda da legitimidade das instituições governantes.

Toda crise é sinal de turbulência mas, também, de abertura. Pode levar ao pior mas, quando bem conduzida e isso, tanto no plano pessoal quanto social, pode levar a melhoras estruturais. Isso só ocorre quando os anseios de mudanças diagnosticados, acolhidos, escutados e, quando possível, bem tratados. Há desejo de mudanças.

O diálogo é a verdadeira arte de bem dizer o ato político. Ele cria as brechas necessárias para que se insemine o assentimento à lei.

Mesmo que a mídia repita incessantemente que os jovens brasileiros conseguiram arrastar consigo milhares de famílias da classe média às ruas, unindo suas vozes numa reivindicação de melhores serviços públicos, tais como: educação, saúde, segurança e transportes, a pergunta insiste: que interpretação dar a esses movimentos? 

Mas há um fator que chama a atenção. Mesmo no auge do clamor das ruas, alguns homens públicos exacerbam uma prática desavergonhada da corrupção. Há uma compulsão à transgressão que tornou-se uma norma: “eu faço porque todos fazem”! E na medida em que, historicamente, há a certeza da impunidade, esses políticos tomam a coisa pública como um bem próprio. Trata-se de uma relação incestuosa, sem culpa, sem lei, sem mediação paterna, uma atualização de questões patológicas da vida privada, obscenamente atuada no público. Parece que esse mal está no sangue, e tornou-se difícil de ser tratado e extirpado.

Os brasileiros não suportam mais fingir que a corrupção não existe. Fatos evidenciam que essa praga, a corrupção, tornou-se uma doença epidêmica, algo de difícil tratamento. É como um câncer incurável, com metástases, invadindo os tecidos das instituições nacionais, umas mais que outras.

O que está na base desse distúrbio social, desse fenômeno que tem conseguido unir o povo, que se constrói a partir de uma insatisfação generalizada? O que esses jovens desejam em suas fortes movimentações?

É evidente que essas vozes que tomaram as ruas não se dirigem apenas ao poder público. Os gritos são dirigidos às autoridades mas, isso vai mais longe e as exigências convocam cada um dos cidadãos, pais, professores, educadores, a um questionamento.

Por anda a lei, os pais, as autenticidades dos atos? Onde está a legitimidade do ato de governar? Em nome do quê está se governando?

Os jovens são sensíveis à questão da legitimidade. Eles só aceitam limites quando estes partem de um lugar reconhecido por seu compromisso com a verdade de uma dignidade daquele que institui esses limites. Isso quer dizer que o discurso inconsciente, vigorando nas entrelinhas do discurso enunciado, deixa transparecer o verdadeiro e o falso. Todo jovem se apoia na verdade que recebeu dos adultos para adentrar, com dignidade, ao mundo adulto.

O governo está infantilizando o povo brasileiro, arrancando sua capacidade de fazer escolhas autênticas, porque ele julga saber “o melhor para o povo”. Os jovens brasileiros estão numa anorexia a um poder legítimo que abra caminhos dignos de seus desejos. Os que ocupam o poder público esqueceram do vigor de suas próprias aspirações de juventude.

O grito de cada jovem encontra eco na voz que denuncia o desconforto com os atos desencontrados das autoridades brasileiras, que dizem uma coisa e fazem outra!

A função que está sendo profundamente interrogada nessas manifestações é a autoridade paterna. É desta que advém o assentimento às leis que regem as relações humanas, de onde emergem as condições de desejo. A educação é base que construiria valores mais duradouros. É a estrada sólida para alguém trilhar seus sonhos e, no entanto, encontra-se obstruída pela indiferença daqueles que dela deveriam zelar, permitindo a construção de um futuro promissor.

O inconsciente da juventude capta a não legitimidade daqueles que ocupam os lugares máximos da nação. Isso quer dizer que não lhes passa despercebido o fato de que um governo só alcança o reconhecimento verdadeiro do povo quando seu projeto visa ao bem desse povo, e não ao poder pelo poder. Entenda-se, aqui, “o bem” como serviços básicos: educação, saúde, transporte, emprego, segurança de qualidade. 
Jovem manifeste-se, mas com moderação!
Por: Doutor José Nazar ** Psiquiatra e psicanalista - Escola Lacaninana de Psicanálise/RJ e ES

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