domingo, 9 de dezembro de 2012

A TIRANIA DO FUTURO


Imagine o leitor que era possível saber, com algum grau de certeza, o futuro clínico do seu filho ainda por nascer. Estaria disposto a dar esse passo?

Não, o cenário não é produto da imaginação fílmica de Hollywood. Em artigo para a "Slate", Harriet Washington levanta o véu sobre esse admirável mundo novo: pesquisadores americanos desenvolveram uma técnica pré-natal que permite isolar o DNA do feto a partir do sangue da mãe.

Depois, com essa preciosa informação genética, será possível compor uma lista generosa com os todos os genes "problemáticos" da futura criança.

Em teoria, será possível saber se aquela vida será longa e saudável; ou, pelo contrário, se terá uma tendência genética pronunciada para desenvolver certos tipos de câncer ou outras doenças igualmente graves.

No artigo, a autora levanta alguns problemas que a descoberta pode trazer. Problemas práticos, médicos, sociais, parentais, que se resumem na pergunta: o que fazer com essa informação genética? Devem os médicos fornecê-la aos pais?

E, em caso afirmativo, como proceder ante a possibilidade de uma criança nascer com maior tendência genética para desenvolver uma doença incapacitante, dolorosa ou fatal? Será o aborto uma hipótese? Melhor ainda: será o aborto uma hipótese com base apenas numa hipótese?

Boas perguntas. Infelizmente, todas elas esquecem um pormenor: a existência de um feto. Ou, dito de outra forma, a existência de uma vida em potência que não pertence aos médicos ou aos pais.

Essa vida pertence a um ser humano único, com um trajecto singular pela frente, e que transporta apenas nos genes um risco maior de desenvolver doenças que sempre fizeram parte da nossa paisagem comum.

Saber que um filho pode ter Alzheimer na velhice é um pensamento angustiante, sem dúvida. Mas é também permitir que um futuro fantasmagórico possa destruir retrospectivamente todas as idades anteriores desse filho.

Ceder a esse fantasma é ceder a uma tirania sobre a infância, sobre a adolescência, sobre a maturidade. É ceder a uma tirania sobre as alegrias e tristezas, as vitórias e derrotas, os amores e desamores que fazem parte de qualquer experiência humana.

No fundo, é como se pudessemos afirmar, do alto da nossa arrogância científica, que nenhuma vida pode ter valor apenas porque existe a possibilidade séria de uma doença séria se intrometer no caminho de quem a vive.

Um pensamento desses não é apenas uma forma extrema e quase delirante de eugenia - a visão aterradora de que a Terra deve ser apenas herdada por seres perfeitos e, de preferência, imortais.

É também uma desistência covarde antes mesmo dessa vida começar.

Por: POR JOÃO PEREIRA COUTINHO Publicado na Folha de São Paulo.
Postar um comentário