quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"PENSAMENTOS SIMPLES"

O papa Francisco foi-se embora do Brasil, levando consigo a sensacional simpatia que promete fazer dele uma estrela internacional. Deixou para trás aquele sorriso capaz de desmanchar uma pedreira de granito, e lembranças que muita gente guardará para o resto da vida. O mais importante para o futuro, porém, são as primeiras pistas que Francisco foi colocando aqui e ali, muito discretamente, sobre suas ideias gerais a respeito de como enfrentar a ameaça mais perigosa que a Igreja Católica tem pela frente hoje: a perda lenta, gradual e segura de fiéis pelo mundo afora, cada vez mais desinteressados em questões de fé religiosa como um todo, e da fé cristã em particular. Essa vazante é mundial ─ inclusive no Brasil, o país que a tradição diz ser o mais católico do mundo. Ano após ano, a Igreja de Roma vem perdendo fiéis brasileiros para religiões concorrentes, como os chamados cultos evangélicos, ou para a indiferença de um público muito mais interessado nas coisas materiais, que podem ser compradas com dinheiro e consumidas de imediato, do que nas coisas do espírito. Os seminários andam com taxas de ocupação abaixo do necessário, e em alguns dos países mais católicos da Europa já começa a haver mais igrejas do que padres.


Francisco, em sua visita ao Brasil, não tem uma solução clara para isso, nem para o caminhão de outros problemas que a Igreja Católica carrega hoje nas costas ─ da pedofilia, que leva cada vez mais famílias a não colocar seus filhos em colégio de padre, à corrupção vulgar de qualquer república bananeira. Nem Jesus Cristo em pessoa, se pudesse descer hoje à terra, conseguiria destrinchar a horrorosa variedade de estorvos que seus pastores foram criando ao longo de vinte séculos ─ não nos sete dias que Deus precisou para construir o mundo. O que pode fazer, diante disso tudo, um homem só, por mais papa e mais infalível que seja? Pode, para começo de conversa, mostrar uma qualidade preciosa em situações como essa: a capacidade de encarar situações complicadas com pensamentos simples. O papa Francisco parece capaz de fazer isso.

“Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse Francisco pouco depois de deixar o Brasil. Ele reclamou, é verdade, dos grupos gays que se formam para influir no Vaticano. Mas o que vale, mesmo, é a essência de sua convicção: sim, afirmou o papa, a pessoa pode ser gay e cristã ao mesmo tempo. Por que não? É o contrário do que sustenta há séculos a doutrina da Igreja, numa resistência teimosa, mesquinha e inútil à liberdade de costumes no mundo de hoje. Mas Francisco parece estar avisando que não pretende rezar exatamente por esse catecismo ─ e que não considera inteligente estreitar a porta de entrada na Igreja num momento em que o catolicismo perde um número cada vez maior de seguidores. Não parece fazer muito sentido, de fato, ficar com tanto enjoamento, numa hora dessas, para dizer quem está ou não qualificado para ser católico. Pelos critérios vigentes, um católico não pode ser gay, nem divorciado, nem casado com uma segunda mulher. Não pode usar camisinha. Não pode casar se quiser ser padre, e tem de casar se quiser viver com uma pessoa de outro sexo. Não pode aceitar o aborto, trabalhar em pesquisas com células-tronco ou descrer de milagres e de outras coisas que ofendem a lógica mais elementar. Não pode achar que o homem vem do macaco, nem que as espécies evoluem e se transformam com o passar do tempo. Não pode isso, não pode aquilo — são exigências demais. Pior: todas essas exigências não têm absolutamente nada a ver com nenhum valor moral. Uma pessoa pode levar uma vida perfeitamente exemplar, do ponto de vista moral, e ser divorciada, por exemplo. Por que, então, deveria estar excluída do catolicismo?

Eis aí o desafio real para a Igreja Católica de hoje: aceitar como cristã toda pessoa que viva com decência, tenha valores e se comporte segundo um código moral. Está tudo explicado no Sermão da Montanha, o texto mais importante do Evangelho e o primeiro guia de conduta apresentado à humanidade, junto com os Dez Mandamentos; é nele que Cristo ensina que o homem tem de ser honesto, tolerante e generoso, tem de dizer a verdade, saber perdoar e buscar a justiça, viver em paz e amar o próximo. Basta fazer o que está escrito lá ─ o que, por sinal, é muito difícil. Lembrar o Sermão da Montanha, que a Igreja jamais seguiu, poderia ser um bom começo para salvar o catolicismo no século XXI.
Por: J. R. Guzzo Publicado na edição impressa de VEJA





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