sábado, 17 de agosto de 2013

O GUANGUE DE COPPOLA

Não pretendo envaidecer-me. Não pretendo convencer ninguém. Mas quando li, anos atrás, uma reportagem na "Vanity Fair" sobre um gangue de adolescentes que assaltava casas de celebridades em Hollywood, pensei: isso dava um filme. Mais: isso dava um filme para Sofia Coppola.


Minto, claro. Não cheguei a tanto. Não cheguei a Coppola. Mas estava na cara - ou, melhor dizendo, estava no texto que só Coppola tinha unhas para tocar esta guitarra.

Aconteceu. O brilhantíssimo "The Bling Ring", que estreia no Brasil essa sexta-feira, é um filme sobre o mais bizarro dos crimes: o crime do "desejo mimético".

A expressão pertence a René Girard, um dos grandes pensadores do nosso tempo que - atenção, Brasil! - tem a obra publicada pela editora É Realizações em colecção de luxo.

Defendia René Girard que os seres humanos, ao contrário da falácia romântica, não são seres "autênticos", que buscam realizar na vida ou na arte as suas incorrompidas naturezas.
Incorrompidas? Pois sim. Todos estamos corrompidos pelos modelos que invejamos. Ou, dito de outra forma, desejamos o que os outros desejam; queremos ser o que os nossos modelos são ou pretendem ser.
Divulgação 
Emma Watson vive a perua Nicki no filme 'Bling Ring: A Gangue de Hollywood'


Para citar um caso literário próximo a Girard, D. Quixote não amava genuinamente Dulcineia. Ele amava os exemplos dos romances de cavalaria e comportava-se como os modelos romanescos se comportam: cortejando a sua donzela, lutando contra os seus gigantes imaginários.

No fundo, Girard mostrava o jogo triangular em que vivemos constantemente: um processo mimético em que existimos nós e os objectos dos nossos desejos, devidamente mediados pelo modelo que invejamos. Escusado será dizer que as sociedades modernas, e em particular as "sociedades do espectáculo", elevaram esse jogo a patamares nunca vistos.

Eis a premissa de Sofia Coppola: no bairro mais exclusivo de Los Angeles, aquele grupo de adolescentes está longe de viver na pobreza.

Mas a distância que os perturba não é material. É simbólica e, por via do símbolo, existencial. Não basta roubar vestidos Chanel ou sapatos Manolo Blahnik para usar ou vender.

Os vestidos devem pertencer à celebridade X e os sapatos à celebridade Y. O proprietário da coisa é mais importante do que a coisa em si. Como nas relíquias religiosas que provocavam furor na Idade Média, tocar na relíquia é pertencer ao círculo exclusivo dos eleitos.

E aqueles adolescentes pertencem, ou acreditam que pertencem, sempre que se apropriam de mais um objeto cobiçado. Coppola é notável ao filmar o êxtase quase religioso daqueles crentes ao entrarem no santuário narcísico de Paris Hilton.

Como é notável ao filmar o fim da aventura e o início de outra: o momento em que a polícia surge na casa de cada um para os algemar e prender. Como normalmente algema e prende uma qualquer Lindsay Lohan da Hollywood "trash" dos nossos dias.

Finalmente em tribunal e na prisão, eles são as verdadeiras celebridades. Eles comportam-se como celebridades. E, como ensina René Girarard, o "desejo mimético" converte-se em rivalidade com o modelo que anteriormente se imitava.

Não admira que uma das adolescentes, em entrevista televisiva, confesse o seu desprezo por ter escutado o choro desamparado de Lindsay Lohan quando ambas partilhavam o mesmo presídio.

Como não admira que o único rapaz do gangue afirme, orgulhoso, que depois da sua detenção já havia mais de 800 pedidos de amizade no Facebook. Oitocentos pedidos. Oitocentos novos candidatos para reiniciar o círculo infernal do "desejo mimético".

Aliás, para que esse círculo fosse perfeito, só faltava que a casa de cada um dos assaltantes também fosse assaltada por novos assaltantes. Mas isso talvez fosse pedir demais.
Por: João Pereira Coutunho  Folha de SP
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