"ESTE MUNDO, QUE É O MESMO PARA TODOS, NENHUM DOS DEUSES OU DOS HOMENS O FEZ; MAS FOI SEMPRE, E SERÁ UM FOGO ETERNAMENTE VIVO, QUE SE ACENDE COM MEDIDA E SE APAGA COM MEDIDA". Heráclito ------------------- SÃO IGUAIS OS VIVOS E OS MORTOS, OS QUE ESTÃO ACORDADOS E OS QUE DORMEM, OS JOVENS E OS VELHOS: PORQUE CADA UM DESTES OPOSTOS, QUANDO SE TRANSFORMAM, TORNAM-SE O ANTERIOR. Heráclito
sábado, 14 de abril de 2012
Aos carolas, Nietzsche!
A reação (medieval) de alguns religiosos mais fanáticos à decisão do STF sobre aborto em fetos anencéfalos me remeteu diretamente ao filósofo Nietzsche. Cheguei a sofrer ataques coordenados no Facebook por gente (desequilibrada) que me acusou de defensor da eugenia ou me comparou a Hitler. Já escrevi sobre este último ponto, colocando os pingos nos is. Agora vou resgatar Nietzsche para tentar explicar tanto "amor" por fetos condenados a jamais viver como seres humanos em sua plenitude (falta aquele "pequeno detalhe", chamado atividade cerebral, razão!).
Alguns carolas chegaram a quase enaltecer o feto anencáfalo que, em raríssimos casos, consegue ter sobrevida por alguns meses ou anos após o parto. Sem atividade cerebral, sem consciência, a massa corpórea vegetativa é vista, por alguns, como algo maravilhoso, lindo. Por isso falo da "ética do sofrimento". Esta gente acha bonito sofrer. Quanto mais sofrimento, mais "nobre" é a vida, segundo esta ótica patológica. Vamos às palavras de Nietzsche:
O cristianismo é conhecido como a religião da piedade. A piedade, porém, é deprimente, pois enfraquece as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver. Do ponto de vista religioso e moral, a piedade toma um aspecto muito menos inocente quando se descobre de que natureza é a tendência que ali se esconde sob palavras sublimes: a tendência hostil à vida.
Não concordo totalmente com o pensador, e consigo enxergar o lado positivo da tal piedade cristã. Mas que transparece em cada ataque virulento dos carolas esta hostilidade à vida, ao menos à vida humana com sua potência plena, isso é fato. O que nos leva ao próximo ponto:
O cristianismo deve a sua vitória a essa lastimável bajulação da vaidade pessoal - por esse meio atraiu tudo quanto estava falido, instintos sediciosos, mal equilibrados, aqueles sucumbidos pelo mal e a escória da humanidade. Do ressentimento das multidões forjou a sua arma principal contra nós, contra tudo o que há de nobre, de alegre, de magnânimo sobre a Terra, contra a nossa felicidade sobre a Terra... O cristianismo é uma insurreição de tudo o que rasteja contra tudo quanto está elevado.
Aqui não tenho como discordar de Nietszche! Vejo esta vaidade estampada em cada rosto daqueles que se julgam acima dos demais, que embarcam nesta cruzada moral para se sentirem melhores que os outros, monopolizando as "virtudes". É um estratagema de inversão dos fatos incrível. O ressentido, o medíocre, o invejoso, cada um abraça esta "causa nobre" e posa como o maravilhoso defensor dos "fracos e oprimidos" (um feto anencéfalo?), para então poder olhar de cima os demais. São almas incríveis, como Madre Teresa de Calcutá, que amava mais a pobreza do que os pobres! Chafurdam na lama pois assim se sentem virtuosos. Mas Nietzsche detectou a hipocrisia do teatro:
Fazendo-se humildes, como velhacos hipócritas nos seus cantos, vegetando na sombra como fantasmas, cumprem um dever: a sua vida de humildade aparece como um dever porque é humilde, é uma prova mais de devoção. Ah! essa humilde, pudica e misericordiosa hipocrisia!
Eis que, regado à hipocrisia e atendendo a uma demanda humana, demasiado humana, de inverter o quadro e se colocar acima dos outros quando se está, na verdade, no limbo, os carolas passaram a enaltecer o sofrimento, a miséria, a doença. Quanto mais doente (um feto anencáfalo?), melhor, pois mais nobre. A grávida que atravessar o calvário de 9 meses carregando no útero um feto que jamais gozará de uma vida humana em sua plenitude, eis o que eles consideram fantástico, maravilhoso, lindo e nobre. Mais Nietzsche:
O cristianismo dirigiu o rancor dos doentes contra os saudáveis, contra a saúde. Tudo o que é bem-formado, orgulhoso, soberbo, a beleza, antes de tudo, incomoda-lhe os ouvidos e os olhos. Recordo outra vez as inapreciáveis palavras de Paulo: "Deus escolheu o que há de fraco no mundo, o que é louco perante o mundo, o que é ignóbil e desprezível". Tudo o que sofre, tudo o que está suspenso na cruz é divino. O cristianismo foi até ao presente a maior desgraça da humanidade.
Não chego a tanto. Como já disse, consigo ver o lado bom do cristianismo. Mas nem por isso vou deixar de apontar o lado ruim. Ele existe, e com esta reação ao julgamento do STF, ficou exposta a olhos nu, com toda a sua feiura sem o manto hipócrita do altruísmo.
Por:Rodrigo Constantino
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Anencéfalos, católicos protestam contra o aborto de anencéfalos
Difícil entender as posições da Igreja Católica em duas questões em debate no Judiciário, aborto e homossexualismo. Difícil de entender porque não constituem dogmas para os católicos e muito menos ameaçam suas crenças. Ser homossexual faz parte do mundo contemporâneo, como também abortar, e nem por isso o Vaticano ou o cristianismo foram abalados. Lutar contra estes dois fenômenos é lutar contra o amanhecer. Não faz sentido, hoje, determinar com quem deve ter relações uma pessoa, ou pretender que uma mulher dê continuidade a uma gravidez não desejada.
Nada contra lutar por causas perdidas. O que se condena é lutar por causas injustas. O problema da Igreja parece ser a eterna saudade da teocracia. Daqueles radiosos tempos em que as leis de Deus e as leis humanas constituíam uma só e única coisa. Inveja do Islã, onde os sacerdotes determinam o que é ou não legal. Desde há muito, no Ocidente, o Estado separou-se da Igreja. Mas a Igreja tenta, sempre que pode, imiscuir-se nas coisas do Estado. A tentação é ancestral, está no gene de cada padre.
Em fevereiro de 2008, sob o lema “Escolhe, pois, a vida”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou sua maior ofensiva contra a proposta de legalização do aborto no País. Também estão sendo combatidas quaisquer intenções de se permitir eutanásia e pesquisas com embriões humanos. Pouco ou nada tenho a acrescentar ao que escrevi na época.
Não por acaso, foi na primeira década de 2.000 que se intensificaram as denúncias de pedofilia na Igreja de Roma, quando acordos financeiros atingindo centenas de milhões de dólares foram feitos com muitas vítimas. A campanha generalizada contra o aborto soa como uma manobra de diversão, coluna de fumaça para acobertar as acusações de pedofilia. Acuada pelos abusos sexuais de seus ministros, a Igreja contra-ataca com o tal de “sim à vida”. Contra-ataque um tanto tardio, já que durante séculos a Santa Sé não teve objeção nenhuma ao aborto.
Que a Igreja seja contra aborto, eutanásia ou pesquisas com embriões humanos é perfeitamente admissível. O que a Igreja não se admite é pretender que todas as sociedades pensem da mesma forma. A Igreja um dia ameaçou com a fogueira o homem que disse não ser a Terra o centro do universo. Que a Igreja ache que a Terra é o centro do universo é um direito seu. Pode até achar que o Cristo nasceu de uma virgem e subiu aos tais de céus, que ninguém sabe onde ficam. O que a Igreja não pode é pretender que a humanidade toda participe de tais crendices.
Nossos purpurados parecem esquecer que a Igreja, durante séculos, admitiu o aborto. Que dois de seus campeões, são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312.
Foi apenas em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. O que me espanta neste debate é que não vemos, na grande imprensa, um mísero jornalista que contraponha a este episcopado analfabeto a doutrina clara dos santos da Igreja. Se os católicos se pretendem contra o aborto, deveriam começar destituindo seus santos da condição de sapiência e santidade.
Seja como for, pecado é conceito que diz respeito apenas aos crentes. A Igreja pretende hoje que o aborto seja crime. Ora, crime é o que a lei define como crime. Não é a Igreja quem elabora as leis de um Estado laico. Que a Igreja defina o que é pecado, é direito seu. Lei é outro departamento. Se no Brasil o aborto hoje é crime, não o é na Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Reino Unido, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Grécia, Portugal, Estados Unidos, Canadá, etc. E se amanhã o legislador brasileiro decidir que aborto não é crime, aborto não mais será crime. Quanto aos padres, que enfiem suas violas no saco. Brasil não é Irã ou Arábia Saudita, onde os religiosos fazem a lei.
O Supremo Tribunal Federal aprovou hoje a descriminalização da interrupção da gestação de anencéfalos. Até então, a regra era uma mulher ter de carregar no ventre um quase-cadáver, para vê-lo morrer logo após o parto. A mulher não dava à luz. Dava à morte. Se quisesse abortar, tinha de recorrer ao judiciário e muitas vezes o filho já havia nascido e morrido antes de qualquer decisão.
Imaginemos a tortura dessa mãe, que só parirá para ver o filho morto. Há quem alegue que os anencéfalos podem viver até um ano ou pouco mais. Pior ainda. Durante esse tempo todo, a mulher terá de sofrer a morte do filho a toda hora, a qualquer momento. Mais ainda, terá de acalentar todos os dias uma espécie de vegetal, sem perspectiva alguma de vida compatível com a vida.
Desde o dia anterior ao início do julgamento, um grupo de anencéfalos religiosos – que adquiriram a deficiência quando adultos, casos não muito raros na medicina, encontradiços em igrejas e templos - fez vigília em frente ao prédio do STF, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Os anencéfalos católicos se uniram a anencéfalos evangélicos e anencéfalos espíritas em orações, pedindo que os ministros do STF rejeitassem a descriminalização do aborto em caso de fetos similares. Os religiosos carregaram imagens de Nossa Senhora de Fátima e de Nossa Senhora Aparecida, além de crucifixos, cartazes com imagens de fetos e faixas apelando pelo direito à vida. Homens podem se dar a esse luxo. Não correm o risco de uma gravidez. Todo católico professa o amor. Mas se exige muita crueldade para defender a continuidade de vida de um ser humano reduzido à condição vegetal.
A solução é simples, caríssimos. Os cristãos consideram crime o aborto de anencéfalos? Que portem então os quase-cadáveres até o umbral da vida quando for o caso. Mas não pretendam obrigar ao sofrimento e à tortura quem não participa de suas crenças.
por Janer Cristaldo
O que resta da primavera
Israel agora não tem mais tranquilidade em nenhuma de suas fronteiras
A Primavera Árabe de 2011 foi, sem dúvida, um movimento histórico de grande amplitude, com importantes repercussões estratégicas. Explodiram ressentimentos e revoltas que buscavam superar a tirania de ditadores corruptos e perpétuos. Por efeito de demonstração, o processo libertário começado na Tunísia espalhou-se a diversos países árabes, em particular ao Egito, e provocou abalos sísmicos que derrubaram alguns dos mais antigos detentores do poder, como Hosni Mubarak. Passado já mais de um ano do início do movimento, que balanço podemos fazer e que perspectivas podem ser discernidas?
Em primeiro lugar, a constatação que os observadores mais cuidadosos fizeram desde o início: não existiu uma Primavera Árabe como tal, e sim alguns movimentos revolucionários localizados em alguns países árabes por razões próprias e específicas, que tiveram certa irradiação, mas com resultados completamente diversos. A expressão cativante e algo romântica sugere paralelos históricos como ocorreu na Europa do Leste em 1968 (com a primavera tcheca de Dubchek) ou 1989 (após o colapso do Muro), mas é enganosa no sentido de que não foi um movimento de ampla repercussão e consequências históricas através de toda a região. Apenas em quatro países os levantes populares causaram a queda de antigas ditaduras: Egito, Líbia, Tunísia e Iêmen. Mesmo nesses países, a evolução tem sido diferente. A Líbia degenera gradualmente na anarquia centrífuga assim como o Iêmen, a Tunísia parece ter uma evolução fundamentalista moderada, enquanto o Egito cada vez inclina-se para um regime dominado pela aliança entre a Irmandade Muçulmana e os radicais salafistas.
Em segundo lugar, é bastante provável que a difícil situação econômica que muitos países enfrentam acabe levando a um endurecimento dos governos fundamentalistas com o cortejo de nacionalizações, perseguições a minorias e supressão de liberdades públicas. Em vários outros países houve alguma agitação política que foi controlada pelos governos por repressão ou por concessões limitadas. Não há indicação de que o caminho teocrático do Irã seja o objetivo final de qualquer país árabe, porém em nenhum caso vê-se o alvorecer de democracias liberais e pluralistas, como a expressão primavera pode sugerir.
Em terceiro lugar, o equilíbrio estratégico que vigorava na região há mais de trinta anos foi dramaticamente alterado pela onda revolucionária que varreu diversos países árabes. Para os Estados Unidos e Israel, a perda de Mubarak foi um sério revés. O bom entendimento com o regime ditatorial egípcio dava a ambos os países uma garantia de segurança que ficou prejudicada e pode desaparecer se os novos governantes do Egito forem radicais opositores e vierem a aproximar-se do Irã, que é o grande rival estratégico tanto dos Estados Unidos quanto de seus aliados vitais, que são as monarquias da Península Arábica, grandes produtores de petróleo. Israel não tem mais agora tranquilidade em nenhuma de suas fronteiras, tendo perdido um pilar de sua política externa.
Quem serão os Robespierre ou Lenin árabes?
O grande temor está na difusão de situações caóticas. Em artigo publicado no “Washington Post” em abril de 2011, Henry Kissinger e James Baker, ambos ex-secretários de Estado americanos, escreveram: “Precisamos alguma garantia de que a sucessão não criará novos grandes problemas, por isso é importante ter um conceito de ordem ordem depois das mudanças de regime. A última coisa que a região precisa é de uma série de Estados fracassados.”
Na visão tradicional americana de apoiar os ditadores, faltou sempre a percepção da frustração e do desejo de maior participação dos cidadãos árabes comuns. É sempre difícil fazer transições ordenadas de regimes de exceção para aberturas democráticas sobretudo faltando passos graduais intermediários.
No caso do Egito, da Síria, da Arábia Saudita, nunca houve primaveras. Assim, quando o dique repressivo se rompeu, nada pôde conter o tsunami político que carregou um Mubarak atônito ou um Kadafi desafiador. Entretanto, este denominador comum do ressentimento e do desespero das massas não significa que o processo revolucionário vá evoluir de modo previsível. Mesmo porque, como aprendemos com a Revolução Francesa ou com outubro de 1917, os que começam as revoluções são geralmente ultrapassados por outros grupos mais radicais. Quem serão os Robespierre ou Lenin árabes? Ninguém pode prever porque movimentos como estes são muito dinâmicos, mas é altamente improvável que sejam os líderes de “um conceito de ordem”, de que falaram Kissinger e Baker, especialmente se aí estiverem embutidas as ideias de democracia e de cooperação internacional.Autor: Luiz Felipe Lampreia
Católicos, aborto e Hitler
Vamos colocar os pingos nos is, uma vez que muitos católicos estão comparando os defensores do aborto em fetos anencéfalos com os nazistas e o próprio Hitler.
Em primeiro lugar, considero altamente ofensivo comparar fetos anencéfalos aos judeus. Que história é essa? Judeus são seres humanos, como quaisquer outros. Já esses fetos não possuem nada que remeta ao que chamamos de humano. Não é eugenia eliminar o sofrimento de uma mãe que carrega na barriga um feto condenado a não viver! A morte cerebral, mesmo em adultos, é considerada morte, e os médicos ficam autorizados a extrair órgãos para doação, quando permitido. Acho que alguns católicos acabam traindo seu antissemitismo até quando tentam "defender" os judeus.*
Em segundo lugar, não venham jogar Hitler para o lado dos defensores de um estado laico, por favor! Dizem que quando se apela para Hitler em um debate de internet, é porque faltam argumentos. Pode ser. Mas se os católicos fanáticos se sentem no direito de acusar quem aceita o aborto, nesses casos extremos, de parecido com Hitler, então eu me sinto no direito de resgatar o que o próprio Lúcifer dizia. É injusto o ataque dos católicos, até porque Hitler tinha palavras elogiosas ao Cristianismo, justamente a este lado mais fanático que os carolas raivosos demonstram, na "certeza" de que lutam pela boa causa.**
Vejamos o que ele diz em "Minha Luta":
A grandeza do Cristianismo não repousa nas tentativas de negociação por compromisso com quaisquer opiniões filosóficas no mundo antigo, mas em seu inexorável fanatismo em pregar e lutar por sua própria doutrina.
Em outras palavras, é esta intransigência, esta postura extremista, fanática dos carolas contra qualquer caso de aborto, que Hitler considerava como a grandeza do Cristianismo!
Não custa lembrar também que Hitler, que se dizia católico ("Sou e sempre fui um católico e sempre serei"), afirmava que estava seguindo os mandamentos do Senhor quando eliminava os judeus ("Acredito hoje que minha conduta está de acordo com a vontade do Criador Todo-Poderoso"), em boa parte com a omissão da Igreja Católica. Aliás, no Index dos livros proibidos pela Inquisição (quem disse que os comunas que inventaram a censura?), Voltaire, Galileu, Victor Hugo e Kant estavam vetados (que perigosos!), mas "Mein Kampf", do nazista assassino, jamais constou na lista. Uma mancha e tanto para a Igreja...
Portanto, meus caros colegas católicos mais empedernidos, não tentem colar a imagem daqueles que aceitam o aborto em caso de feto anencéfalo ao nome de Hitler, porque isso é para lá de absurdo!
* O antissemitismo católico vem de longa data, como fica claro em "O Mercador de Veneza", de Shakespeare. A "usura" sempre foi condenada pelos católicos. O pior caso foi na Espanha. Desde o momento de sua criação, a Inquisição espanhola lançara olhos cobiçosos sobre a riqueza judia. A Inquisição endossou com entusiasmo o virulento antissemitismo já promulgado por um notório pregador, Alonso de Espina, que odiava igualmente judeus e ‘conversos’. Alonso defendera a completa extirpação do judaísmo da Espanha - por expulsão ou extermínio. A 12 de maio de 1486, todos os judeus foram enxotados de grandes partes de Aragão. Torquemada parece ter aceitado o adiamento pela Coroa da expulsão de todos os judeus da Espanha até que o Reino muçulmano de Granada fosse final e definitivamente conquistado. Sempre que católicos falam de uma cultura "judaica-cristã", vem à minha mente a imagem de água e óleo se misturando.
** Essa "certeza" de luta pela boa causa é que me assusta. É boa causa impor o sofrimento de 9 meses para uma mãe que vai parir um conjunto de tecido sem capacidade cerebral? É boa causa isso? Eu digo que NÃO! Eu digo que é uma CRUZADA MORAL que faz seus adeptos se sentirem pessoas melhores, superiores do ponto de vista moral, apenas isso. Essa gente ama a Humanidade, mas parece não se importar tanto com o próximo de carne e osso - e cérebro!Por: Rodrigo Constantino
Servidão Voluntária
Servidão Voluntária
Querido leitor, que você esteja bem e em paz! Nosso tema hoje é sobre servidão voluntária, oportuna discussão em um ano eleitoral instigada pelo amigo Zico.
Em 1548, com apenas 18 anos de idade, o francês Étienne de La Boétie escreveu seu Discurso Sobre a Servidão Voluntária, um texto instigante e corajoso, no qual sustenta a tese de que os escravos são servos por opção. La Boétie, que foi amigo de Montaigne, foi um dos primeiros a perceber que os governados eram sempre maioria em relação aos governantes, e que, por conta disso, algum grau de consentimento deveria existir para manter a situação de servidão. O livro, portanto, é uma leitura importante nos dias atuais também, onde governos democráticos avançam sobre as liberdades mais básicas dos indivíduos.
La Boétie via no direito natural do homem aquilo que ele tem de mais caro e compreendia que “não nascemos apenas na posse de nossa liberdade, mas com a incumbência de defendê-la”. No entanto, ele constatou que o povo estava quase sempre inclinado a abandonar esse direito, em troca de alguma sensação de segurança.
O que então explicaria essa servidão consentida? Para La Boétie, “todos os homens, enquanto têm qualquer coisa de homem, antes de se deixarem sujeitar, é preciso, de duas, uma: que sejam forçados ou enganados”. Ele parte então para a tese de que, no início, o homem serve vencido pela força, mas que depois serve voluntariamente, enquanto seus antecessores haviam feito por opressão.
Sem terem experimentado a liberdade, esses homens acabam escravos pelo costume. La Boétie, antecipando David Hume e Franz Oppenheimer, conclui: “É assim que os homens nascidos sob o jugo, depois alimentados e educados na servidão, sem olhar para a frente, contentam-se em viver como nasceram, sem pensar em ter outro bem, nem outro direito senão o que encontraram, tomando como natural sua condição de nascença”.
Além das distrações e das migalhas, os tiranos precisam oferecer uma rede de favores, criando cargos para sustentar a tirania com mais aliados. A lista de oportunistas batendo à porta do governo para trocar liberdade por verbas seria infindável. Desde artistas engajados, intelectuais, funcionários públicos, invasores de propriedade, até líderes do “terceiro setor” ou mesmo empresários, todos em busca de uma teta estatal para mamar. Os tiranos compram assim o apoio à tirania. “Em suma”, conclui La Boétie, “que se consigam, pelos favores ou sub-favores, que se encontrem, enfim, quase tantas pessoas às quais a tirania pareça lucrativa, como aqueles a quem a liberdade seria agradável”.
Essa troca da liberdade por favores seria trágica por si só, pelo valor intrínseco que tem a liberdade. Mas, não obstante, La Boétie questiona que tipo de vida esses “escravos voluntários” levam, concluindo que não pode ser uma vida feliz. Ele pergunta: “Qual condição é mais miserável do que viver assim, sem nada ter de seu, recebendo de outrem satisfação, liberdade, corpo e vida?” Além disso, La Boétie afirma que a amizade verdadeira é impossível nesse contexto de tirania. Ela, afinal, “só se encontra entre pessoas de bem e só existe por mútua estima; mantém-se não tanto por benefícios, senão por uma vida boa”. E acrescenta: “O que torna um amigo seguro do outro é o conhecimento que tem de sua integridade”, lembrando que “entre os maus, quando se reúnem, há uma conspiração, não mais uma companhia; não se amam mais uns aos outros, mas se temem; não são mais amigos, mas cúmplices”. Alguém poderia ter alguma dúvida da verdade dessas palavras observando o comportamento dos aliados do governo brasileiro atual? São todos cúmplices de um projeto de poder; não amigos.
Em resumo, as palavras escritas por um jovem culto de 18 anos na França, há quase cinco séculos, ainda ecoam como verdade nos dias atuais. O povo parece não aprender a lição, construindo sua própria prisão. Nasce escravo, vive na ignorância e não ousa desafiar seu senhor, questionando sua legitimidade. Aceita passivamente seus grilhões, que até ajuda a colocar. Enquanto os animais na natureza lutam desesperadamente contra seu domínio, o homem, justo o animal com maior capacidade de ser livre, acaba se submetendo passivamente à servidão. Enquanto uma grande quantidade de pessoas estiver disposta a sacrificar a liberdade em troca de algumas migalhas e uma falsa sensação de segurança, conviveremos com a escravidão.
É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre a servidão voluntária? Por: Beto Colombo
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Entendemos, ainda, a grandeza?
Em nosso tempo, nada há que nos seja tão caro e tão representativo do nosso modo de ser quanto a concepção da tolerância como valor. Ser tolerante é, hoje, a suprema excelência.
Tanto as qualidades como todos os inumeráveis defeitos naturalmente humanos são, para nós, assunto exclusivamente privado.
Da mesma forma, o único defeito intolerável é o rompimento desse pré-contrato social, sob a forma da "intolerância" e do "autoritarismo", entendidos como "crueldade" ou "ausência de compaixão".
O princípio recebeu sua consagração definitiva na Constituição dos EUA com o direito de "buscar a felicidade" ("the pursuit of happiness"), que inclusive andam querendo enfiar também na nossa Constituição.
Ele foi o resultado de séculos de luta contra opressões de todo tipo, patrocinadas pelos porta-estandartes tradicionais do "bem" e da "virtude" -padres, militares, vizinhas fofoqueiras etc.-, e da natural desconfiança daí decorrente de que, por trás do "bem" e da "virtude", belos e radiosos ornamentos do discurso, há, quase sempre, uma inconfessada vontade de poder.
A conclusão lógica é que o melhor remédio para isso é que todos passam gozar, como o que há de mais sagrado, do direito de lançar-se na baixeza se a baixeza parecer o melhor caminho para ser feliz.
Escrevo baixeza sem aspas por uma boa razão. Um motivo recorrente para a defesa da tolerância é justamente a incapacidade de dar validade universal aos juízos avaliativos: "bom" e "mau", "alto" e "baixo", "nobre" e "vil" não têm validade em si; o seu sentido depende inteiramente do tempo e lugar em que são proferidos, quando não da mera visão pessoal do avaliador.
Como seres que se entendem cada vez mais como produtos autônomos (sic) do processo histórico -livres criadores dos "valores" e do conhecimento-, sentimos grande dificuldade em evitar essa conclusão.
Mas o caso é que essa posição, que podemos chamar de convencionalista, pós-moderna ou relativista, também tem problemas. É mesmo verdade que não temos nenhum conhecimento objetivo do que é "bom" e "mau", "alto" e "baixo", "grande" e "mesquinho" no sentido moral?
Da mesma forma que sabemos com certeza mais que intuitiva -com o perdão de Descartes- que existe um mundo efetivo, independente, fora de nós, é difícil não reconhecer que, de alguma forma, sabemos, para além de toda pose relativista, que Bach é, no campo da música, maior, "mais grande", mais digno de louvor e de imitação (enfim, "melhor") que Michel Teló.
Assim como sabemos, para usar um exemplo menos frívolo, que dar a vida por um amigo é maior, "mais grande", do que buscar a todo custo, por quaisquer meios disponíveis, meramente sobreviver.
A correção ou segurança desses juízos avaliativos parece clara para os melhores de nós (respectivamente os que conhecem algo de música e os que buscam sinceramente o bem) e vão em um sentido diverso daquilo que normalmente chamamos de "convicção pessoal".
Aí é que está: concordamos ainda com Aristóteles que, como Aquiles, mais vale queimar intensamente por um tempo breve em nome de causas belas e nobres do que passar uma vida inteira vegetando na mediocridade. (Uma prova curiosa de que ainda temos algum sentido da grandeza é o culto dedicado aos astros de rock que morreram jovens e viveram intensamente.)
Mas o caso é que não conseguimos mais, com as categorias de que dispomos -"tolerância", "respeito", "direitos"-, articular aquilo que experimentamos (o maior brilho e valor do que é simplesmente "grande", mais digno da nossa admiração) em um discurso racional.
Não é, assim, que o fenômeno da grandeza humana não seja (re)conhecível, como querem os entusiastas libertários no seu ceticismo de conveniência. Ele simplesmente não é mais pensável. Pelo menos para nós. Da mesma forma e pelas mesmas razões pelas quais não é mais pensável quem somos nem qual é o nosso bem.
Ao que parece, a grande e radical novidade é que, pela primeira vez na história, nós simplesmente não queremos saber. Eis o fundo sem fundo do nosso relativismo (moral, cultural etc.), onde parece residir toda a nossa "virtude": gloriamo-nos de não estar nem aí.Em nosso tempo, nada há que nos seja tão caro e tão representativo do nosso modo de ser quanto a concepção da tolerância como valor. Ser tolerante é, hoje, a suprema excelência.
Tanto as qualidades como todos os inumeráveis defeitos naturalmente humanos são, para nós, assunto exclusivamente privado.
Da mesma forma, o único defeito intolerável é o rompimento desse pré-contrato social, sob a forma da "intolerância" e do "autoritarismo", entendidos como "crueldade" ou "ausência de compaixão".
O princípio recebeu sua consagração definitiva na Constituição dos EUA com o direito de "buscar a felicidade" ("the pursuit of happiness"), que inclusive andam querendo enfiar também na nossa Constituição.
Ele foi o resultado de séculos de luta contra opressões de todo tipo, patrocinadas pelos porta-estandartes tradicionais do "bem" e da "virtude" -padres, militares, vizinhas fofoqueiras etc.-, e da natural desconfiança daí decorrente de que, por trás do "bem" e da "virtude", belos e radiosos ornamentos do discurso, há, quase sempre, uma inconfessada vontade de poder.
A conclusão lógica é que o melhor remédio para isso é que todos passam gozar, como o que há de mais sagrado, do direito de lançar-se na baixeza se a baixeza parecer o melhor caminho para ser feliz.
Escrevo baixeza sem aspas por uma boa razão. Um motivo recorrente para a defesa da tolerância é justamente a incapacidade de dar validade universal aos juízos avaliativos: "bom" e "mau", "alto" e "baixo", "nobre" e "vil" não têm validade em si; o seu sentido depende inteiramente do tempo e lugar em que são proferidos, quando não da mera visão pessoal do avaliador.
Como seres que se entendem cada vez mais como produtos autônomos (sic) do processo histórico -livres criadores dos "valores" e do conhecimento-, sentimos grande dificuldade em evitar essa conclusão.
Mas o caso é que essa posição, que podemos chamar de convencionalista, pós-moderna ou relativista, também tem problemas. É mesmo verdade que não temos nenhum conhecimento objetivo do que é "bom" e "mau", "alto" e "baixo", "grande" e "mesquinho" no sentido moral?
Da mesma forma que sabemos com certeza mais que intuitiva -com o perdão de Descartes- que existe um mundo efetivo, independente, fora de nós, é difícil não reconhecer que, de alguma forma, sabemos, para além de toda pose relativista, que Bach é, no campo da música, maior, "mais grande", mais digno de louvor e de imitação (enfim, "melhor") que Michel Teló.
Assim como sabemos, para usar um exemplo menos frívolo, que dar a vida por um amigo é maior, "mais grande", do que buscar a todo custo, por quaisquer meios disponíveis, meramente sobreviver.
A correção ou segurança desses juízos avaliativos parece clara para os melhores de nós (respectivamente os que conhecem algo de música e os que buscam sinceramente o bem) e vão em um sentido diverso daquilo que normalmente chamamos de "convicção pessoal".
Aí é que está: concordamos ainda com Aristóteles que, como Aquiles, mais vale queimar intensamente por um tempo breve em nome de causas belas e nobres do que passar uma vida inteira vegetando na mediocridade. (Uma prova curiosa de que ainda temos algum sentido da grandeza é o culto dedicado aos astros de rock que morreram jovens e viveram intensamente.)
Mas o caso é que não conseguimos mais, com as categorias de que dispomos -"tolerância", "respeito", "direitos"-, articular aquilo que experimentamos (o maior brilho e valor do que é simplesmente "grande", mais digno da nossa admiração) em um discurso racional.
Não é, assim, que o fenômeno da grandeza humana não seja (re)conhecível, como querem os entusiastas libertários no seu ceticismo de conveniência. Ele simplesmente não é mais pensável. Pelo menos para nós. Da mesma forma e pelas mesmas razões pelas quais não é mais pensável quem somos nem qual é o nosso bem.
Ao que parece, a grande e radical novidade é que, pela primeira vez na história, nós simplesmente não queremos saber. Eis o fundo sem fundo do nosso relativismo (moral, cultural etc.), onde parece residir toda a nossa "virtude": gloriamo-nos de não estar nem aí.
ÉLCIO VERÇOSA FILHO, Folha de SP
Quem somos nós?
Querido leitor, que você esteja em paz. Nosso artigo hoje é sobre uma questão que atravessa gerações e chega a nossos dias sem uma resposta conclusiva: Quem somos nós? Trazendo para a primeira pessoa do singular, pode-se perguntar: quem sou eu?
Quantos de nós pensa que é a sua profissão? Eu sou padre, pedreiro, advogado, jornalista, médico, carpinteiro, enfim, ele fala que é aquilo que faz profissionalmente. Talvez, pior do que isso é nunca sair do salto ou deixar esse papel nem que seja por alguns momentos.
O professor, por exemplo, deixa de ser aluno e aprender, pois se fecha no papel de ensinar e não se abre para aprender. O empresário trabalha o tempo todo em que está em vigília e continua na sua função mesmo quando dorme.
Lembro-me que recentemente, em um sábado final da tarde, estava caminhando na beira-mar, em Florianópolis, quando encontro a paisagista que contratamos para nos ajudar a embelezar nossa casa. Insensível, ela veio ao meu encontro e logo começou a falar de trabalho. “Quero tua permissão para trocar aquelas mudas de rosas, pois elas são sazonais, quero trocá-las por perenes”, comentou. “O que estás dizendo?”, perguntei. Ela meio sem entender, repetiu a frase, coisa que também fiz: “O que estás dizendo?”
Era meu jeito de dizer que estava ali caminhando, descontraindo, encontrando amigos e falando sobre outros temas, outros assuntos. A questão do jardim, que não era emergente, poderia ser deixada para o momento certo, a oportunidade correta.
Quem sou eu? Quem somos nós?
Aprofundando um pouco mais esse tema, lembro do Padre Edson que recentemente estudou Filosofia Clínica com um grupo e brasileiros na Universidade Hebraica, de Jerusalém, em Israel. Durante todo o tempo estava entre nós debatendo, discutindo, defendendo seu ponto de vista e ouvindo atentamente o dos outros. Já no final dos estudos, em Jafa, reza uma missa para todos e, de viva voz, agradece a cada um por não tê-lo visto como padre. “Quero agradecer vocês por não me reduzirem a um padre e terem me dado a oportunidade de me apresentar como eu sou, não só como padre, mas também”.
Esse bonito exemplo do padre Edson nos remete a uma reflexão profunda, já que muitos de nós, em alguns casos, se fixam em seus papéis, se identificam com eles e não conseguem beber em outras fontes, estudar outros conhecimentos, conhecer outras verdades. Ao contrário do padre Edson, existem pessoas que às vezes até exigem que o outro os veja somente daquela única forma. Como diz o filósofo Karl Marx, de manhã sou pescador, a tarde agricultor e a noite poeta, sem ser unicamente pescador, agricultor e poeta.
Quem somos nós, afinal?
O outro, é possível, seja muito mais aqueles que não se apresenta, que está encoberto, do que aquele que faz questão de ser, de se apresentar em curriculum intermináveis, cursos e diplomas. Talvez seja isso: quando nos reduzimos a um único papel, quando deixamos de nos ver de forma inteira e pluralista, corremos o risco de nos perdemos. Nós somos muito mais que o nosso papel, às vezes único papel, como médico, pedreiro, dentista, carpinteiro, advogado, empresário. Eu sou muito mais. Nós somos muito mais.
É assim como o mundo me parece hoje. E você, qual resposta daria a pergunta “quem sou eu”?
Por: Beto Colombo
terça-feira, 10 de abril de 2012
O filho pródigo
João Pereira Coutinho, Folha de SP
TODAS AS famílias têm seus motivos de vergonha: infidelidades, burlas, crimes. A família europeia tem uma vergonha maior. Chama-se Holocausto. E não é fácil engolir a matança maquinal e sistemática de milhões de seres humanos, na sua maioria judeus (porque a "solução final", convém lembrar aos amnésicos, intitulava-se "solução final para a questão judaica"), sem risco de indigestão grave.
O Holocausto é uma mancha que não sai da consciência europeia. E uma das formas de lidar com ela é invertendo os papéis dos personagens, transformando as vítimas em carrascos.
Nos últimos anos, essa metamorfose tem sido praticada com fervor pela "intelligentsia" ocidental: os judeus de hoje não são muito diferentes dos nazistas de ontem; Gaza é um novo gueto de Varsóvia; e Israel é uma espécie de Terceiro Reich no Oriente Médio.
A Europa acredita que, através dessa inversão anacrônica, a culpa do crime irá desaparecer. E chegará um dia em que os europeus poderão afirmar, de cabeça limpa e sem vergonha da sua imagem no espelho: "Eles, os judeus, não são melhores do que nós".
Eis, em resumo, o poema que Günter Grass escreveu na imprensa alemã e que levou Israel a declará-lo "persona non grata".
Superficialmente, o poema de Grass é apenas mais uma acusação à política de Tel Aviv, ao seu programa nuclear e às suas alegadas intenções de atacar o Irã. Curiosamente, as ameaças diretas do Irã a Israel, que na verdade começaram as hostilidades, não figuram na obra literária de Grass.
E não figuram porque Grass é um caso à parte: aos 17 anos, o escritor marchou com as Waffen-SS, a tropa de elite de Hitler, e serviu ao Terceiro Reich nos seus momentos finais.
Um segredo tão "vergonhoso" que o próprio só recentemente decidiu partilhá-lo com os leitores da sua autobiografia, "Descascando a Cebola".
Infelizmente, esse pecadilho de juventude, escondido a vida inteira, ainda não está ultrapassado. E só isso explica que, algures no poema, Grass se permita sentenciar que Israel é hoje a maior ameaça à paz mundial.
A frase, que poderia ter sido dita por Mahmoud Ahmadinejad ou qualquer outro antissemita do gênero, não deveria merecer grande comentário. Mas, por uma vez sem exemplo, será que Grass tem razão?
A resposta a essa pergunta poderia ser dada por um compatriota do escritor. Em 2005, o cientista político Josef Joffe escreveu para a revista "Foreign Policy" um ensaio célebre em que imaginava a história do Oriente Médio sem a existência de Israel no mapa. "Um mundo sem Israel", lia-se na capa.
E, no interior, esse mundo não era muito diferente do mundo que existe hoje. Sunitas e xiitas não seriam menos inimigos; os cristãos da Síria, do Egito ou do Iraque não estariam a ser menos perseguidos; a Arábia Saudita não teria melhores relações com os aiatolás de Teerã; Saddam não teria poupado a vida de curdos ou xiitas ou kuwaitianos; a guerra entre o Iraque e o Irã, o mais longo conflito do século 20, não teria sido evitada.
E, sobre o destino dos palestinos, a luta de "libertação" seria provavelmente dirigida contra o Egito e a Jordânia, caso esses dois países ainda dominassem Gaza e a Cisjordânia como o fizeram até 1967.
Por outras palavras: o fracasso político, econômico e cultural do Oriente Médio, esse oceano de 1 bilhão de muçulmanos, não se explica com uma gota de 5 milhões de judeus. Explica-se pelo autoritarismo, pela ignorância e pelo fanatismo dos seus líderes.
Günter Grass discorda. E, no seu poema-manifesto, limita-se a coligir os velhos temas do antissemitismo clássico: os judeus manipulam o mundo e, na sua ânsia de o dominarem, acabarão por destruí-lo. O seu líder de juventude, Adolf Hitler, não diria melhor.
Um mérito, porém, devemos reconhecer a Grass: o seu poema foi publicado nas vésperas do Pessach, um período que, durante a Idade Média e mesmo depois, servia para acusar os judeus de usarem o sangue dos gentios na feitura do pão da Páscoa. Era o pretexto ideal para as perseguições antijudaicas.
Günter Grass não é tão primitivo como os antecessores. Mas o seu sentido de "timing" é digno de um Fred Astaire.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Origem da religião na pré-história
LUIZ FELIPE PONDÉ
Folha de SP – 09/04/12
Na Bíblia, primogênitos foram mortos e muitos deles eram crianças inocentes, não?
Muitos leitores me perguntaram o que aquela peça kafkiana cujo título era “Páscoa” queria dizer na coluna do dia 2/4/2012.
O texto era simplesmente isto: a descrição de um ritual religioso muito próximo dos centenas de milhares que devem ter acontecido em nossa Pré-História.
Horror puro, mas é assim que deve ter começado toda a gama de comportamentos que hoje assumimos como cheios de significados espirituais. Entender a origem de algo “darwinianamente”, nada tem a ver com a “cara” que esse algo possui hoje. Vejamos o que nos diz um especialista.
O evolucionista Stephen Jay Gould (1941-2002), num artigo de 1989 cujo título é “The Creation Myths of Cooperstown”, compara a origem mítica do beisebol (supostamente nascido em território americano e já “pronto”) com a explicação evolucionaria do beisebol.
Gould está fazendo no texto uma metáfora do que seria uma explicação evolucionária de um esporte. Ele narra como o beisebol “evoluiu” a partir de comportamentos humanos casuais que na origem consistiam apenas em bater com prazer em frutas redondas ou em cabeças com pedaços de pau, e que a forma final aconteceu na Inglaterra e não nos EUA, muito tempo depois.
A revolta dos americanos orgulhosos de sua mítica criação do beisebol, com a “tese monstruosa” do evolucionista Gould, foi óbvia.
Segundo ele, o que caracteriza a diferença entre conhecer a origem darwiniana de algo, por exemplo, a religião, e fazer mitos sobre ela, é saber que antes de tudo o sentido que a ela damos hoje em dia (religião = “o Bem”?) nada tem a ver com sua origem e que sua evolução deve ter ocorrido a partir de fragmentos desconexos de comportamentos, afetos e ideias, derivados dos subprodutos fisiológicos das mutações genéticas e físicas que sofremos em nossa pré-história.
Cerca de 500 anos atrás praticávamos canibalismo cerebral ritualístico e colocávamos as cabeças íntegras em posições geométricas como numa espécie de santuário.
Achados semelhantes datados de cerca de 300 mil anos atrás, no Paleolítico – como o que descrevo ao final do texto da semana passada -, apontam para rituais semelhantes (ver “A Prehistory of Religion, Shamans, Sorcerers and Saints”, de Brian Hayden, Smithonian Books, Washington, 2003).
Praticávamos canibalismo ritualístico de cérebros humanos, e crianças sempre foram mais fáceis de serem capturadas -claro, de outros bandos. Tirávamos os cérebros com cuidado para depois colocarmos as cabeças em posições geométricas e com elas fazíamos algo como o que hoje chamamos de santuário.
Semana passada foi Páscoa. Este ano, ela coincidiu com a semana que começa o Pessach, Páscoa judaica. Quando Jesus jantava com seus apóstolos na Quinta-Feira Santa, Ele celebrava o Pessach.
Para os judeus, essa data representa a saída da escravidão do Egito. Para os cristãos, a Páscoa também celebra a liberdade do povo de Israel, mas ressignificando-a como uma liberdade não só política, mas a liberdade da alma diante das várias escravidões da vida.
Os hebreus pintaram as portas com sangue de cordeiro, seguindo a ordem de Deus, para que o anjo da morte não matasse seus primogênitos como mataria os dos egípcios. Esta era a última das pragas que levaria os hebreus à liberdade.
Primogênitos seriam mortos e muitos deles eram crianças inocentes, não?
Cristãos comem o corpo e bebem o sangue de Cristo, um inocente. E “nós” o matamos ou você duvida de qual lado você estaria na história?
Aqueles que pensam que nossos ancestrais monstruosos nada nos ensinam, se enganam.
O grau de parentesco entre a “páscoa” deles e a nossa não é tão distante assim. Celebramos a morte de crianças (egípcias antigas), bebemos sangue e comemos o corpo (simbolicamente) de um inocente, mas isso tudo pra nós representa vida, liberdade.
Afinal, o que teria representado para nossos patriarcas o que eles faziam? Seriam as crianças que eles comiam as “crianças egípcias” deles? Ou seriam elas seus “cordeiros inocentes” por serem crianças?
Enfim, duas certezas: a “Páscoa” melhorou muito nos últimos 300 mil anos e Darwin ainda é diabólico.
domingo, 8 de abril de 2012
"The Wall"
'The Wall' leva ao palco revolução que começou com Kubrick em 1968
Ex-integrante do Pink Floyd se apresentou em São Paulo, no estádio do Morumbi
Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo
Coisa de cinema. Eis a frase mais ouvida sobre o show de Roger Waters, Pink Floyd - The Wall. Baseia-se no álbum de 1979 que Alan Parker já havia transformado em filme em 1982. Em janeiro, precedendo a turnê que deveria levar Waters ao Chile, The Wall (o filme) já desembarcara num cinema de Santiago. Talvez tenha faltado essa perspicácia aos organizadores no Brasil, ou aos programadores de salas especiais.
Experiência que vai além da performance de show biz impressiona em definição de imagens
Há cinco anos, Waters trouxe ao País The Dark Side of the Moon. Era um híbrido do álbum de mesmo nome, somado a outras músicas da banda. The Wall segue agora o roteiro criado há mais de 30 anos por Waters. Como no filme, o público acompanha o colapso do roqueiro Pink. Em cenas que viajam pelo passado, presente e futuro, assistimos à sua fissura emocional - o pai morreu na guerra, Pink foi abusado na escola - e ao surgimento de um fascista. O caráter político do roteiro é ressaltado, no filme, pelas animações do cartunista Gerald Scarfe. Na abertura do grandioso espetáculo, Waters dedicou The Wall, o show, a Jean Charles de Menezes "e a todas as vítimas do terrorismo de Estado".
Começava com um ataque de avião. Fogo, explosões. Quando o público entrava no Morumbi, o muro já estava parcialmente construído. Ia de ponta a ponta do estádio e as abas laterais convertiam-se em telões. O palco, a princípio descoberto, foi fechado. No fim do primeiro ato, o muro estava completo. No fim do espetáculo, foi destruído - uma metáfora de desconstrução dos signos que escravizam o homem. E tudo combatido por palavras de ordem - contra a guerra, a fome.
Roger Waters sempre sonhou com esse espetáculo, mas, há 30 anos, não havia tecnologia para realizá-lo. Hoje, há tecnologia para tudo - não para todos. Quando esteve em São Paulo para lançar o DVD de Avatar, o próprio James Cameron disse que o limite, hoje, é a imaginação. Tudo o que os artistas puderem imaginar, a técnica vai construir. Não é de hoje. Algo se passou em 1968, quando Stanley Kubrick concebeu 2001, Uma Odisseia no Espaço, em parceria com o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke. A divisa de ambos é que era necessário encarar o impossível, rumo à superação dos limites do possível.
2001 propôs um dos mistérios mais duradouros do cinema - o monólito negro, que antecipa as rupturas na evolução humana. Pouco antes do desfecho, o astronauta atravessa um corredor de luz, pura vertigem lisérgica de som e imagem. Aquilo foi um marco - não só do cinema. Uma geração inteira viajou no LSD, nas drogas, na música. 2001, o filme, é contemporâneo de Woodstock. Tommy, a ópera-rock do The Who, virou filme (de Ken Russell) em 1975, precedendo Pink Floyd - The Wall. Um adjetivo volta e meia colado a Russell é - 'excessivo'. Por maiores que sejam os excessos de Tommy, momentos de Eric Clapton, Elton John (Pinball Wizard) e Tina Turner integram as lembranças de roqueiros de todas as idades.
Pink Floyd - The Wall, a ópera, o filme e, agora, o show, vai (vão) adiante. O que Roger Waters propõe supera a reconceituação do show de arena proposta pelo U2 em 360 Graus. O prisma de The Dark Side of the Moon virou uma experiência tímida. O conceito consiste agora em lançar o público numa experiência tridimensional e arrebatadora. Existem momentos em que a sensação é de que o muro é móvel. No intervalo, as fotos (em movimento) com legendas das vítimas da guerra, da opressão e da intolerância introduzem a realidade no sonho. Um pesadelo? Os críticos (Roberto Nascimento, no Caderno 2) reclamam - todo esse frufru pirotécnico não esconde o fato de que The Wall é um espetáculo raso e sensacionalista em suas aspirações políticas, aguado e repetitivo no conteúdo musical. Há controvérsia - o frufru tecnológico não pode ser dissociado do conteúdo musical. Nasceram juntos. E quanto a The Wall ser raso...
Roger Waters, com uma energia admirável, está fazendo show para seus velhos fãs, mas também, e principalmente, para os jovens, que vivem nas redes sociais 24 horas, compartilhando experiências. É um público que tem mais informação que o homem já teve em qualquer momento da História. Apesar disso, as massas nunca foram tão alienadas (nem voltadas para o consumo desenfreado). A dedicatória do show, as inscrições no porco que plana sobre o estádio - contra o povo escravo e o Código Florestal - são mais Michael Bay que Stanley Kubrick. Mas Bay, em Transformers, reinventou Kubrick e Hal-9000, criando uma nova mitologia em que até os críticos deveriam ter prestado atenção. Matrix, dos irmãos Wachowski , é vazio ou um compêndio audiovisual de filosofia, depende do olhar. Só agora Another Brick, Mother e Empty Spaces chegam ao público como sonhava o script original de Waters. O mundo mudou. A diluição é um risco, mas a Força, como em Star Wars, fica com a gente.
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