terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"QUEM VIVE PARA COMBATER UM INIMIGO, TEM INTERESSE EM DEIXÁ-LO VIVO"- FRIEDRICH NIETZSCHE

Quando estive na Universidade Hebraica de Jerusalém, durante uma das aulas, o professor de filosofia fez o seguinte comentário: “Nós, aqui no Oriente Médio, vivemos em estado de guerra constante. Cada vez que saímos à rua, existe o perigo de uma bomba, um atentado, um míssel caindo do céu, entretanto, quando chegamos em casa, temos paz. Nosso lar é nosso refúgio. Vocês do Ocidente, vivem em aparente paz na rua, no trabalho, nas escolas, no shopping, mas quando chegam em casa, maridos, esposas e filhos entram em conflito. O lar é vosso campo de batalha”.


Saí da aula um pouco atordoado com a provocação. Racionalizei comigo mesmo, argumentando que vivíamos em culturas completamente distintas e não cabiam julgamentos do tipo bom ou ruim, certo ou errado. Além disto, o professor não sabia que vivíamos no Brasil e que aqui também não é nenhum paraíso. O simples fato de andarmos na rua também nos coloca em risco, seja pela violência dos assaltos, como do trânsito. Assim sendo, nossa “guerra civil” também poderia funcionar como um elemento de união.

Isto não foi suficiente, algo dentro de mim continuava a incomodar. Não conseguia imaginar tranqüilidade e harmonia no lar enquanto bombas e balas perdidas cruzavam as esquinas. Ameaças externas poderiam até ser um fator agregador, mas de efeito temporário, nunca a fórmula da paz.

Lembrei da época em que recorremos a uma terapia de casal. O psiquiatra era tão antipático, calado, áspero, desagradável e pouco afetuoso, que acabou unindo-nos contra ele. Desconfio até que esta atitude, de certa forma hostil, fazia parte do tratamento, pois saíamos da consulta tão descontentes com sua postura, que ao invés de o vermos como amigo, passamos a tratá-lo como adversário. O casal fez um pacto de reconciliação para se “defender do terapeuta”.

Gastávamos horas conversando e imaginando maneiras de enfrentar o “terapeuta maluco”, como o apelidamos na intimidade. Nossa relação que estava desgastada, com uma comunicação difícil, passou a fluir. Aproximamo-nos para nos proteger.

Se houvesse uma invasão de extraterrestres, provavelmente comunistas, capitalistas, judeus, árabes, ingleses, talibãs e americanos, unir-se-iam buscando expulsá-los. Enfim, será que a ameaça de um inimigo comum pode ser um fator de aproximação entre os atemorizados?

Se assim fosse, bastaria ao casal torcer pelo mesmo clube de futebol. Ambos falariam mal do técnico, do centro-avante, do adversário, e a harmonia no lar restaria garantida. Melhor ainda se torcessem por um time ruim, que estivesse lá embaixo na tabela de classificação, pois teriam inimigos de sobra pra descarregar a frustração. O casal também poderia eleger um vizinho ou uma operadora de telefonia celular e lançar seu espírito belicoso nesta direção. Isto garantiria a paz conjugal ou a paz entre os homens?

Apesar de muitos se utilizarem deste artifício, arrisco dizer que não. A história da humanidade é o resultado do conflito dos nossos ideais com a realidade, e a acomodação entre aquilo que temos e aquilo que gostaríamos de ter, é o que determina a evolução peculiar de cada nação ou indivíduo. Buscar um inimigo externo para responsabilizar o sucesso ou fracasso é uma espécie de covardia ou cegueira, pois como já dizia Jean Paul Sartre, o conceito de inimigo não é completamente certo e claro, a não ser que este esteja separado de nós por uma barreira de fogo.

É a própria mente do homem, e não seu inimigo que o seduz para a batalha. Belicosidade sempre vai gerar mais belicosidade. Sabemos disto. As respostas estão muito claras em nossos corações, mas não em nossos cérebros, que insistem em buscar culpados e se fazer de vítimas. Vivemos nesta ambigüidade.

Temos capacidade de atingir patamares bem mais altos. A questão é saber se queremos chegar lá. Construímos asas para voar, mas ainda as forjamos com o mesmo aço da espada da guerra. Precisam ficar mais leves, menos tensas. Precisam nos aproximar. Não é a raiva o elo de união entre as pessoas. É o amor, e o inimigo do amor nunca vem de fora, é o que falta em nós mesmos.
Por: Ildo Meyer do site www.ildomeyer.com.br

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