segunda-feira, 23 de março de 2015

FILOSOFAR COMO OS ANTIGOS

O que é mais importante na filosofia? Infelizmente, muita gente acha que é decorar nomes, conceitos e períodos históricos. Não é.

Quando estava no primeiro ano de medicina, perguntei a um professor como um paciente terminal se via diante do nada. Ele me disse o seguinte: "O senhor está na aula errada, deveria estar na aula de filosofia".

Levei cinco anos para seguir seu conselho. Não por falta de coragem (desculpa mais fácil de dar, afinal trocar uma carreira de medicina pela de filosofia é uma loucura), porque sou passional no que faço e isso facilmente se assemelha à coragem. Gostava do conhecimento médico mesmo.

A filosofia para mim sempre foi mais da ordem da experiência do que da teoria. Absurdo, a priori, num mundo dominado pela Senhora Capes e sua alma de capitalismo chinês.

Devido a essa preferência pela experiência em detrimento da teoria, depois de fazer a experiência cética, nunca mais consegui viver sem respirá-la.

Estudar filosofia é mais parecido com a atividade de ruminar um texto (como faziam os monges no início do cristianismo e ainda o fazem), lendo-o atentamente e várias vezes, procurando nele "seu próprio texto", do que simplesmente defender um doutorado. A burocracia mata tudo, inclusive a filosofia.

Sim, sei que minhas palavras parecem românticas. Não o são se você conhecer filosofia antiga e a obra de Pierre Hadot. Na realidade, a "filosofia como arte de viver" (título de um dos seus livros) é coisa para quem tem repertório sólido, e não apenas conhecimento burocrático sobre autores, épocas e conceitos (apesar de que tudo isso é importante também).

"Antes formar os espíritos do que informar." Essa é a definição que Arnold I. Davidson dá para hipótese de Hadot sobre a filosofia antiga: a filosofia antiga era um exercício espiritual.

Davidson é professor de filosofia da religião e literatura comparada da Universidade de Chicago e parceiro de Pierre Hadot em suas pesquisas sobre filosofia antiga.

Ele faz o prefácio da edição dos "Exercícios Espirituais", de Pierre Hadot, recém-publicado pela É Realizações, essa editora que tem feito um trabalho belíssimo no Brasil, trazendo para nós títulos que são verdadeiras pérolas do pensamento clássico.

Segundo Hadot, muitas das contradições que encontramos em obras estoicas e epicuristas são fruto do fato de que seus autores não estavam preocupados em defender hipóteses meramente "claras e distintas" acerca de problemas teóricos, mas pensavam a filosofia como modo de enfrentamento da existência, por isso ele toma "existencial" como sinônimo de "espiritual".

Devo viver segundo as demandas da matéria ou existirão outras? Devo viver segundo os critérios do mundo ou cuidar para que ele não me iluda e, consequentemente, me frustre demasiadamente? Como responder a questões do tipo "Devo viver segundo o que penso e sinto ou devo levar em conta o que o grupo considera essencial"?

O silêncio é para os sábios. Falar demais na vida é sempre um sinal de vaidade e fraqueza? Como enfrentar o fato de que o mundo é o lugar da mentira? Vale a pena se dedicar aos vínculos afetivos ou não?

"Espiritual" aqui não significa apenas religioso mas intelectual, sensorial, imaginativo, afetivo e moral. É o termo que Hadot usa para reunir todas essas dimensões da condição humana.

Nesse sentido, a ética para ele não é apenas uma discussão sobre normas (ética exterior), mas também o combate interno (ética interior) entre o bem e o mal, a experiência dessa luta no silêncio da alma. O vai e vem entre a incerteza da decisão e a certeza da dúvida.

Filosofia como exercício espiritual é uma pedagogia para a sutileza. E a sutileza é um milagre num mundo em que a grosseria reina. Ar puro no mundo do ruído que é o nosso.

É nesse contexto que penso o ato de ensinar filosofia. E por isso, espero ajudar meus alunos a exercitarem seus espíritos e, assim, encontrarem "seu próprio texto".

E, com eles, rever o meu, para assim, quem sabe, talvez, "transfigurar o cotidiano", que, segundo Hadot, é a função suprema da filosofia.
Por: Luiz Felipe Pondé Publicado na Folha de SP.
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