sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

CAMUFLAGEM

“Não sou eu!” Esta é uma expressão que ouvi algumas vezes ao longo dos anos no consultório. As situações são variadas, mas em todas elas o que acontece é que a pessoa não se identifica nos comportamentos que tem. Uma destas pessoas dizia que não se reconhecia como fumante, no entanto fumava regularmente e em boa quantidade. Outra dizia não ver-se na pessoa dura e fria que era enquanto gerente do setor onde trabalhava, chegava a espantar-se consigo mesma. Em outro caso a pessoa dizia não se reconhecer no que os outros diziam dela, enquanto os outros ao seu redor falavam de uma mulher forte, com garra, objetivos, ao contrário, ela se via fraca, pouco persistente e sem objetivos. Em muitos casos esta falta de identificação da pessoa consigo mesma ocorre porque ao longo da vida ela criou uma camuflagem, aprendeu a ser o que se esperava dela.


Este fenômeno pode acontecer por muitos motivos. Por exemplo, a primeira pessoa que fumava e não se reconhecia fumante começou a fumar por participar de um grupo que fumava. Assim, o comportamento de fumar foi adquirido via interseção, ou seja, a depender da pessoa com as quais teve interseção tendeu a se adaptar. Já a segunda pessoa, a gerente, não se reconhece em outro papel existencial, este é um caso de como algumas pessoas criam papeis com os quais não se identificam. Nesta mesma linha podemos citar uma mulher que engravida, mas não consegue se colocar no papel de mãe, não se reconhece como mãe. Já a última pessoa não conseguia se reconhecer nas referências externas, isso pode acontecer quando a pessoa utiliza o espelho errado, o reflexo vem distorcido e não tem crédito.

Diferente destes, alguns criam a si mesmos de outras formas, criam camuflagens para ganhar distância das outras pessoas ou situações. Numa organização alguns se tornam especialistas em camuflagem, sabem exatamente onde estar para não aparecer ou ser visto como querem ser vistos. Assim pode ser o gerente que lidera sua equipe de forma inadequada, não atinge os objetivos, mas é bem visto pelas avaliações de clima. A boa interseção, amizade, que tem com as pessoas com quem trabalha garante que tenha boas avaliações, e é isso que lhe garante permanecer onde está.

Camuflar-se é colocar uma vestimenta que diga algo sobre você que não é verdade, mas que cumpre certa função. Ao gestor cabe, a partir do que conhece de cada colaborador, saber se as pessoas com quem trabalha são elas mesmas ou estão camufladas. Uma organização onde pessoas camufladas trabalham é um ambiente perigoso, você não sabe com quem está lidando. O gestor bonzinho, aquele que agrada seus colaboradores, que se coloca a disposição para ouvir seus problemas pode ser aquele que repassa todas as informações e causa sua demissão. A camuflagem de servidor dá a ele a oportunidade de acertar o ponto fraco da pessoa, infelizmente isso existe.

Alguns camuflam-se por tanto tempo que acabam por confundir-se com a própria camuflagem. Quando isso acontece, a pessoa pode começar a perder a própria identidade frente ao personagem que usa como camuflagem para seus propósitos. Como ilustração, trago a frase emblemática de William Shakespeare "Ser ou não ser, eis a questão" (no original em inglês: To be or not to be, that is the question) a qual vem da peça A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca. Alguns, depois de se camuflarem como ovelha por muito tempo, não sabem mais ser lobo e outros, depois de serem lobos, não conseguem mais ser ovelha. A recomendação é ter cuidado. Camuflar-se, optar por deixar de ser você mesmo em prol de algo pode não ter volta.
Por: Rosemiro A. Sefstrom Do site: http://rosemirosefstrom.blogspot.com.br/
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