domingo, 13 de maio de 2012

Fundamentos

Numa conversa informal, alguém me contou que teve muita dificuldade em conversar com outra pessoa. Segundo este alguém, a dificuldade estava em concordar com as ideias que a outra apresentava, segundo ela, sem fundamento. Depois que a pessoa saiu fiquei pensando só na palavra fundamento. Entendo que quem me contava a respeito de seu contato com este outro falava dos fundamentos para os argumentos apresentados. Mas, com um pouco de paciência quero trabalhar um pouco os fundamentos, as bases do pensamento de uma pessoa a partir da Filosofia. Na Filosofia, ao longo dos séculos, cada pensador expôs suas ideias tendo por base algum fundamento, ou seja, uma base, um alicerce. Tomando como exemplo Platão, quais seriam os fundamentos para ele dizer o que disse, afirmar o que afirmou? Este filósofo que pode ter vivido entre 428 e 348 a.C. dizia que tudo o que temos aqui na terra, ou seja, tudo o que podemos ter acesso pelos sentidos existe em quantidade e qualidades perfeitas no mundo das ideias. Vejam, ele diz que existem dois mundos, um mundo onde tudo existe em quantidade e qualidade perfeitos, a este mundo chama “Mundo da Ideias”. No outro mundo, neste em que vivemos, as coisas, objetos, se entregam aos sentidos, podemos ver, cheirar, degustar, tocar. No entanto, para ele, este mundo dos sentidos é uma imitação precária, mal feita de tudo aquilo que existe em perfeição no mundo das ideias. Parece um tanto descabido, uma doidice, mas foi com a contribuição deste filósofo que se produziu e se produz grande parte dos estudos que ainda hoje servem de base para a nossa vida. Para se ter uma ideia, René Descartes, filósofo nascido mais de mil anos depois de Platão chegou ao auge dizendo que nós nem sequer estamos aqui. Para Descartes nosso pensamentos está produzindo tudo o que vivemos, até mesmo as sensações são fruto do pensamento. Isso parece estranho, mas é com base neste autor que uma ciência como a medicina age. Quando você vai ai médico e ele lhe pergunta os sintomas, dores, sensações, para ele tudo isto é físico, realmente está acontecendo. Sabemos que muitas vezes as aftas da boca são fruto de um negócio mal feito na empresa, as dores de estômago são conseqüência de uma demissão contra a vontade. Não se vai resolver a dor simplesmente pelo corpo, nestes casos, se vai apenas remediar. Assim como outras áreas do conhecimento, a medicina também busca na Filosofia conceitos que orientam o seu trabalho. Lembrando que acerca do que que foi colocado acima existem tanto correntes a favor quanto contra, é parte do discurso. Agora que conhecemos a ideia de Platão e de Descartes, volto a questão inicial: qual o fundamento para uma ideia como esta, a de que o corpo está separado do espírito? Eu, você e talvez o maior dos especialistas, Platão e Descartes não tenhamos certeza de onde ele realmente tirou essa ideia, mas sabemos como eles fundamentaram. Tanto em um quanto noutro filósofo o fundamento para suas ideias foram suas experiências de vida, toda uma história de estudo e dedicação. Agora, será que eu, na minha pretensão posso dizer que o que estes pensadores disseram é bobagem? Se o fizer, provavelmente nunca li seus escritos ou não entendo do que falam. Por mais que não tenham fundamento para mim, mas tem para aqueles que pensaram a respeito. Trazendo para nosso tempo, será que o que o outro, essa pessoa que me fala, o que ela diz não tem fundamento? Pode ser que eu não entenda, não concorde, mas sempre há um fundamento para o que o outro diz, ele mesmo. Rosemiro A. Sefstrom

A ideologia verde

Com a aproximação da Conferência Rio+20, as declarações apocalípticas dão o tom do debate. O ministro Gilberto Carvalho, por exemplo, declarou que “o mundo se acabaria rapidamente se fosse universalizado o padrão de consumo das elites”. No mesmo diapasão, o neoconservaciocista Delfim Neto – ninguém menos que um dos idealizadores da escandalosa Transamazônica - foi categórico, em entrevista ao Globo: “Conflitos serão inevitáveis. Não há como o planeta sustentar nove bilhões de pessoas com renda de US$ 20 mil cada”. Essa gente não tem a menor imaginação. No início do Século XIX, quando a Terra era habitada por apenas 1 bilhão de pessoas, Thomas Malthus previu que a população mundial cresceria em proporções geométricas, enquanto a produção de alimentos e outros recursos cresceria em progressão aritmética. “A morte prematura visitará a humanidade em breve, que sucumbirá em face da escassez de alimentos, das epidemias, das pestes e de outras pragas”, profetizou. Em 1968, quando a população mundial era de 3,5 bilhões, o ecologista Paul Ehrlich, um colecionador de prêmios e comendas científicas, escreveu um livro (The Population Bomb) onde previu que, como resultado da superpopulação, centenas de milhões de pessoas morreriam de fome nas décadas seguintes. Num discurso de 1971, ele previu que "até o ano de 2000, o Reino Unido será simplesmente um pequeno grupo de ilhas empobrecidas, habitadas por cerca de 70 milhões de famintos." De lá para cá, a população mundial dobrou e, embora ainda haja problemas sociais graves a resolver, principalmente ligados à pobreza, as previsões alarmistas de Malthus e Ehrlich jamais se concretizaram. Pelo contrário, graças às novas tecnologias e ao crescimento esponencial da produtividade, o percentual de subnutridos nos países em desenvolvimento, em relação ao total da população, vem apresentando uma firme tendência declinante há quatro décadas, tendo baixado de 33% em 1970 para 16% em 2004. O chamado “movimento verde” nasceu da justa indignação de alguns com o desmatamento, a poluição do ar, dos rios e dos mares, além da preocupação com os riscos para a saúde humana provenientes da atividade industrial. Com o tempo, entretanto, o movimento foi sendo dominado e transformado por ideólogos esquerdistas, preocupados não com a poluição ou com a nossa saúde, mas com a política e o poder. A partir desse ponto, a doutrinação, o proselitismo e a disseminação do pânico foram tão fortes que as teorias mais bizarras tornaram-se politicamente corretas. A essência da ideologia verde está na crença de que a humanidade deve minimizar o seu impacto sobre a natureza, custe o que custar. Vide a gritaria contra a aprovação do novo Código Florestal, uma lei extremamente preservacionista e restritiva à atividade econômica, sem similar no mundo, mas que, mesmo assim, conseguiu desagradar os xiitas. Mas os seus principais inimigos são mesmo os combustíveis fósseis, as hidrelétricas e termonucleares, que, não por acaso, ao todo significam quase 98% da produção de energia do planeta, e sem os quais o mundo para. O que os adeptos desse radicalismo se recusam a enxergar é que nós, seres humanos, só sobrevivemos e prosperamos através da transformação da natureza, sem o quê não satisfazemos as nossas necessidades mínimas. Nosso bem estar está diretamente ligado à nossa capacidade de tornar o ambiente a nossa volta menos agressivo e mais hospitaleiro. Pensem por um minuto no que seria de nós sem os modernos sistemas de esgotamento sanitário, a água encanada, as construções mais seguras, resistentes e protegidas das intempéries naturais, a comida fresca e farta, as vacinas e os remédios, os meios de transporte e comunicação rápidos e eficientes. Graças a Deus, as gerações que nos precederam visaram o progresso. Elas tiveram orgulho de construir fábricas, abrir estradas, perfurar poços e escavar a terra a procura de novos recursos. Felizmente, não estavam contaminados pela ideologia verde. O desenvolvimento econômico que eles nos legaram, longe de ser nocivo, é uma verdadeira dádiva, que nos forneceu as ferramentas e a tecnologia necessárias para tornar o nosso habitat mais saudável e acolhedor. É verdade que tudo isso resultou em alguma poluição e desmatamento. No entanto, mesmo esses indesejáveis efeitos negativos têm sido superadas com bastante êxito pelas nações mais avançadas. É claro que a solução não está na restrição do consumo, mas no aumento da produtividade e no desenvolvimento tecnológico. Sem falar que os mais prejudicados, caso esse fanatismo ambientalista prevaleça, serão os mais pobres, caso sejam privados do uso de fontes de energia eficientes e baratas, e, consequentemente, da chance de poderem um dia usufruir do padrão de vida dos países ricos.Por: João Luiz Mauad, O GLOBO

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Macacos, gorilas e micos

Quando um pagodeiro, um jogador de futebol e um funkeiro, fantasiados de gorilas e cercados por popozudas de biquíni à beira de uma piscina, se divertem em um clipe do pagode Kong, e são acusados de racismo e sexismo pelo Ministério Público Federal em Uberlândia por "unir artistas e atletas em um conjunto de estereótipos contra a sociedade, comprometendo o trabalho contra o preconceito", a coisa tá preta. Alexandre Pires não é só um pagodeiro, é cantor romântico milionário, com carreira internacional, queridíssimo do público. Funkeiro é só um pouco de Mr. Catra, figuraça da cena musical carioca, rapper famoso nacionalmente por suas letras contundentes e suas paródias. E não é só um jogador de futebol: é Neymar. Não por acaso, uns mais e outros menos, são todos negros, ricos e famosos por seu talento, ídolos das novas gerações do Brasil mestiço. Já o procurador é branco, preocupado em proteger os negros para que não façam mal a eles mesmos. Assim como a beleza, o preconceito também está nos olhos de quem vê. Quem ousaria associar o genial Neymar, o galã Alexandre e o marrentíssimo Mr. Catra a macacos? Só um racista invejoso. Quem se incomoda com piadas e brincadeiras com jogadores de futebol, pagodeiros, funkeiros e marias-chuteira? Logo vão proibir o Criolo de usar o seu nome artístico. O procurador ficou especialmente incomodado quando Mr. Catra, vestido de gorila, cercado por gostosonas louras, ruivas e morenas e feliz como pinto no lixo, diz ter "instinto de leão com pegada de gorila". Seria uma sugestão preconceituosa da potência sexual afrodescendente. Êpa! Elogio não é crime. O clipe já teve mais de 3 milhões de acessos no YouTube, é muito engraçado e bagaceiro, com produção e fantasias bem vagabundas, trash brasileiro. Dá até para sentir o cheiro de churrasco. As mulheres, com seus peitões e bundões, são o sonho de consumo sexual de milhões de brasileiros e, sem preconceito, de brasileiras. Freud explica: quando João fala de Pedro, está falando mais de João do que de Pedro. Nas falhas, defeitos e intenções que um atribui ao outro, revela-se mais de si do que do outro.Por: Nelson Motta O Estado de S. Paulo

De quem deve ser ônus da prova?

Talvez você, leitor, já tenha se espantado, como eu venho me espantando repetidamente ao longo dos anos, em relação à maneira como certas argumentações são forjadas. Um jornalista, escritor ou debatedor qualquer reconhece que há uma diferença de visões acerca de uma determinada questão: A afirma X, e B afirma Y. Entretanto, embora tal diferença de visões seja admitida, a questão é resolvida concluindo-se que X deve ser verdadeiro porque B não demonstrou empiricamente que Y é um fato. Consequentemente, chega-se a uma conclusão simplesmente supondo-se que não é necessário aplicar a A o mesmo ônus da prova imposto a B. Libertários constantemente lidam com esta situação quando argumentam contra a oferta estatal de um bem ou serviço que o governo atualmente esteja ofertando. Libertários podem argumentar, por exemplo, que empresas privadas podem fornecer serviços de segurança de melhor qualidade ou a um custo mais baixo do que os serviços fornecidos pela polícia estatal. Ato contínuo, os críticos apenas declaram que os libertários estão errados, observando que eles, os libertários, não ofereceram provas conclusivas para seu argumento. Os críticos algumas vezes também chegam ao cúmulo de alegar que, se o fornecimento privado de determinados serviços fosse realmente melhor que o estatal, então ele já estaria em vigência, convenientemente ignorando as várias maneiras nas quais o governo restringe, sobrecarrega, regula ou simplesmente proíbe a concorrência privada. Até mesmo debatedores que se pretendem ostensivamente imparciais sempre acabam jogando o ônus da prova sobre aqueles que desafiam o status quo, seja o debate nas ciências, na política, na economia ou em qualquer outra área em que a ortodoxia seja dominante ou em que instituições já consagradas mantenham um monopólio. Este viés ajuda a preservar justamente aquelas instituições que já consolidaram sua influência e poder, independentemente de como elas alcançaram seu atual domínio. Foi por isso que o modelo heliocêntrico dos movimentos planetários só conseguiu substituir o modelo geocêntrico mais de um século após ser descoberto, uma vez que Kepler, Copérnico, Galileu, Newton e outros tiveram de meticulosa e esmeradamente demonstrar a superioridade de sua concepção em relação ao consolidado sistema derivado de Ptolomeu (90 — 168 d.C.). Da mesma forma, o estado-nação moderno vem se mantendo como uma consolidada e bem estabelecida instituição há séculos, e durante esta era ele aumentou seu tamanho, seu alcance e seu poder imensamente. As pessoas hoje estão acostumadas às atuais e enormes dimensões do estado, ao seu poder legislador, regulamentador, controlador e de decisão, e elas têm enormes dificuldades em imaginar como arranjos alternativos poderiam funcionar. Donde as atuais discussões políticas se limitam a ridículas minúcias sobre quais as melhores políticas para mover o estado de A a B, sendo que ambos os pontos estão a apenas centímetros do totalitarismo. Já os libertários que propõem recuar o estado, por exemplo, alguns meros quilômetros para trás — um ponto ainda muito longe do objetivo da total liberdade — simplesmente são ignorados e jamais são ouvidos. Quem são os utópicos? Os críticos dos libertários frequentemente asseveram que eles, os libertários, são apenas seres utópicos em busca do impossível, ignorando o fato de que o estado-nação em seu formato moderno não é exatamente algo que sempre existiu desde o Big-Bang. Mais ainda: ignoram a inescapável contradição de que suas atuais esperanças colocadas no atual formato do estado — um arranjo institucional nascido do roubo e da espoliação, e sustentado pela contínua extorsão de seus súditos — é que atestam uma mentalidade muito mais utópica. Os defensores do estado convenientemente ignoram todos os crimes necessários e inevitáveis em que o estado incorre para se manter operante, e muitos ainda elaboram vários argumentos ad hoc para justificá-los. E a maioria das pessoas simplesmente presume, sem se dignar a arcar com qualquer ônus da prova, que o sistema estatal vigente é superior a qualquer arranjo alternativo. Já os libertários, no entanto, insistem legitimamente em argumentos racionais, imparciais e baseados em fatos, e não simplesmente na leviana acusação de que os defensores do estado são sonhadores. Moralmente falando, a lógica preconiza que aqueles que defendem arranjos coercivos é que devem arcar com o ônus da prova. Se o estado é um arranjo manifestamente superior a uma genuína e voluntária autonomia da população, então por que ele rotineiramente tem de recorrer ao uso da coerção e da ameaça de violência para se manter? Por que ele tem de constantemente nos ameaçar de detenção — e até mesmo de morte — para obter as receitas necessárias para sustentar suas atividades? Nenhum empreendimento, nenhum restaurante ou supermercado, coloca uma arma na minha cabeça para me transformar em seu freguês. Só o estado. "Bens" públicos Obviamente, a justificativa apresentada pelos economistas convencionais para essa ameaça de violência estatal contra cidadãos relutantes em sustentar o estado é a de que o governo fornece um "bem público" universalmente valioso, que é bom para todos igualmente, e, portanto, tem de recorrer a medidas severas para lidar com os "caroneiros", aqueles indivíduos que se aproveitam de algo sem pagar por ele. O problema com este argumento é que muito pouco — e estou sendo benevolente — do que o estado moderno fornece satisfaz os critérios de classificação de bem público. O dinheiro da previdência que ele manda para a vovó não é um bem público, como também não é um bem público o dinheiro dado aos médicos e a outros prestadores de serviços de saúde, assim como também não são bens públicos os gastos com professores de escolas públicas para (des)educar os filhos do meu vizinho. Os serviços de "segurança" — que servem de principal exemplo de bem público que "tem" de ser fornecido pelo governo — são, como todos sabem, um exemplo às avessas da necessidade do envolvimento estatal nesta área. Longe de ser um bem público, a segurança ofertada monopolisticamente pelo governo sequer pode ser considerada um bem. A verdade — acessível para todos aqueles que conseguem pensar fora do quadrado — é que o estado se ocupa majoritariamente de extorquir a riqueza de seus súditos para transferir boa parte dela para seus apologistas e para todos aqueles que têm boas conexões com o poder, retendo boa parte do esbulho para pagar sua legião de burocratas, reguladores, apaniguados, rentistas e sinecuristas, bem como sua guarda pretoriana: a polícia e as forças armadas. Todo este aparato não possui nenhuma superioridade autoevidente sobre quaisquer arranjos alternativos; é o estado, portanto, quem tem de arcar com o ônus da prova para explicar qualquer medida que tome. Ademais, é necessário enfatizar que todas as "provas" professorais regurgitadas por economistas convencionais sobre a superioridade do arranjo estatal não se sustentam por si sós. Toda esta linha de pensamento tem de ser descartada como sendo nada mais do que uma mera apologética, e não uma tentativa séria de se justificar a generalizada e predominante presença do estado na vida moderna. Muito mais poderia ser pontificado sobre este assunto, mas talvez o que foi dito aqui já seja o suficiente para mostrar que a maneira como se distribui o ônus da prova é algo absolutamente crucial para a resolução de controvérsias, seja na ciência, nas políticas públicas ou nas análises econômicas. Mais importante, uma verdade lógica tem de ser sempre enfatizada: se um arranjo depende da violência ou da ameaça de violência para se sustentar, então, por definição, tal arranjo possui severas deficiências morais ou intelectuais. A força bruta sempre será o recurso daqueles que não podem apresentar um bom argumento para suas ações. Embora o estado moderno desfrute o apoio de inúmeros intelectuais e apologistas da corte, ele depende inteiramente do uso da violência caso seus súditos não aceitem as desculpas apresentadas para seus crimes. O fato de muitas pessoas temerem e odiarem o estado deveria, por si só, ser o suficiente para indicar que são seus líderes e defensores — e não aqueles que, como nós, anseiam por liberdade — que têm de arcar com o ônus da prova. Robert Higgs um scholar adjunto do Mises Institute, é o diretor de pesquisa do Independent Institute. Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um texto marginal

"Basta ver o caráter marginal daqueles que se opõem ferozmente a essas políticas...". A frase, escandida pelo ministro Joaquim Barbosa num aparte casual, contém a chave para a compreensão da decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as políticas raciais. Os juízes da Corte Maior não se preocuparam com a Constituição, mas unicamente com o lugar ocupado pelos defensores e pelos opositores das cotas raciais na cena política nacional. Eles disseram "sim" ao poder, definindo seu próprio lugar no grande esquema das coisas. Cortes Supremas servem para interpretar o texto constitucional, nos inúmeros casos em que a letra da Lei não oferece resposta explícita. No artigo 5.º, a Constituição afirma que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". No artigo 19, que "é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si". No artigo 208, que "o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um". A letra da Lei é explícita, cristalina: dispensa interpretação. O STF, simulando interpretá-la, reuniu-se em assembleia constituinte e revogou o princípio da igualdade perante a lei. Os juízes encarregados de zelar pela Constituição qualificaram-na como um texto marginal. O princípio da igualdade perante a lei está formulado nas Constituições americana e indiana em termos similares aos da nossa. Nos EUA, desde 1978 a Corte Suprema proferiu decisões cada vez mais contrárias às políticas de preferências raciais. Na Índia, logo após a independência, a Corte Suprema vetou tais políticas - e então o Congresso emendou o texto constitucional, descaracterizando o princípio da igualdade dos cidadãos. Por que, em contraste flagrante, os juízes do STF preferiram reescrever a Constituição de forma a inscrever a raça na lei? No Brasil, a igualdade legal dos cidadãos é um "princípio fraco", introduzido nas Constituições por imitação. O "princípio forte" sempre foi o das relações pessoais, fundamento real dos intercâmbios das elites econômica, política e intelectual. Na lógica do Direito, o princípio da igualdade funciona como fonte dos direitos e garantias individuais. Tal conexão explica a importância atribuída ao "princípio fraco" na Constituição de 1988: o gesto político e jurídico de ruptura com o ciclo da ditadura militar era a promessa de um novo início, isento das máculas do passado. O STF está dizendo que aquele gesto representou um desvio de percurso - e já se esgotou. De certo modo, os juízes têm razão: bem antes da sessão de julgamento das cotas raciais, as principais correntes políticas do País imolaram o princípio da igualdade no altar de seus compromissos com as ONGs racialistas, que são minorias organizadas e influentes. O conceito de preferências raciais adquiriu estatuto oficial no governo Fernando Henrique Cardoso, por meio do Programa Nacional de Direitos Humanos de 1996. No governo Lula a noção genérica de "discriminação positiva" desdobrou-se na política de cotas raciais. Dilma Rousseff prometeu, no início de sua campanha presidencial, expandir os programas de cotas para a pós-graduação. José Serra, candidato da oposição, manteve silêncio absoluto sobre as políticas de raça, avalizando tacitamente a orientação do governo Lula. A cooperação objetiva entre os grandes partidos rivais e a continuidade histórica das iniciativas racialistas na transição de um governo para o outro formam o pano de fundo da decisão unânime do STF. Eis a razão por que Joaquim Barbosa, como seus colegas, enxerga na Constituição um texto "marginal". O estandarte da igualdade legal dos cidadãos condensa a narrativa de uma sociedade contratual formada por indivíduos livres das amarras do sangue e da tradição. A narrativa é a praça histórica comum aos liberais e aos socialistas. Os primeiros ergueram o princípio da igualdade no combate aos privilégios de sangue do Antigo Regime. Os segundos enxergaram nele a ferramenta das lutas pelo voto universal e pela liberdade de associação e de greve. No Brasil, contudo, essa história quase nada significa para os partidos que representam as duas correntes. O STF que aboliu o princípio da igualdade é a Corte Maior de um país onde José Sarney foi declarado um personagem acima da lei, Fernando Collor pontifica numa CPI sobre a corrupção e Sérgio Cabral protagoniza cenas dignas do Antigo Regime no palco apropriado da Cidade Luz. Na sessão de julgamento do STF, o relator, Ricardo Lewandowski, alvejou sem rodeios o artigo 5.º da Constituição, atribuindo ao princípio da igualdade um sentido meramente "formal". O mesmo relator comandou, em 2009, a rejeição do pedido de instauração de processo contra o ex-ministro Antônio Palocci por violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Meses depois, a Caixa Econômica Federal informou em juízo que a violação decorreu de ordem emitida por Palocci. O escárnio do "princípio fraco", da igualdade legal, serve sempre ao desígnio de instaurar o império do "princípio forte", das relações pessoais. O juiz Marco Aurélio Mello exprimiu a aspiração de generalização das políticas de cotas, como querem as ONGs racialistas. Num país em que, ao contrário dos EUA ou da África do Sul, jamais existiu segregação racial oficial, não há fronteira objetiva separando "brancos" de "negros". A difusão das preferências raciais nos concursos públicos e no mercado de trabalho em geral demanda uma série imensa de atos legais e administrativos de rotulação racial das pessoas. Em nome do combate ao racismo, o Estado deve fabricar raças em escala nacional, disse o STF. No afã de descartar a Constituição, aquele texto marginal, nenhum deles registrou a contradição explosiva entre meios e supostos fins. Por: Demétrio Magnoli, Estadão

Prisão

Querido leitor, que você esteja vivendo livre. Nosso tema hoje é sobre prisão. Nessa minha saga de estudar Emmanuel Lévinas, deparei-me com o Talmude, que é um livro sagrado dos judeus constantemente usado pelos rabinos. Importante esclarecer que rabino quer dizer professor, mestre. E é dele, do Talmud, que retirei sobre “O Sofrimento Inútil”, que diz assim: “Hanina caiu doente e Yohanan foi visitá-lo e perguntou-lhe: teus sofrimentos te convêm? - Nem eles, nem as recompensas que prometem. - Dá-me tua mão, disse então o visitante ao enfermo. E o visitante o levanta da sua cama. Mas, depois, eis que o próprio Yohanan cai doente e é visitado por Hanina. Mesma questão: Teus sofrimentos te convêm? - Nem eles, nem as recompensas que prometem. - Dá-me tua mão, disse então o visitante ao enfermo. Dá-me a mão, diz Hanina e levanta Yohanan da sua cama. Questão: Yohanan não podia se levantar sozinho? Resposta: O prisioneiro não poderia libertar-se sozinho de sua prisão”. Neste texto com oito linhas, muita filosofia, muita sabedoria, muita simplicidade. Para mim, uma metáfora belíssima: quantas vezes caímos, quantas vezes entramos nessas prisões e não podemos sair? Mais do que isso, ficamos trancafiados e caminhando em círculos sem alguém para nos retirar da prisão a que nós mesmos nos metemos. Estas prisões podem ser a da partilhante que só consegue sentir o ódio de uma separação não compreendida. Aqui, os 20 anos de casamento se resumem equivocadamente em um único sentimento. Do jovem que depois de um namoro de quase três anos cai na droga depois que viu sua ex-namorada ficando com outro rapaz. Da empresa que faliu e virou uma depressão do fundador. Prisão, para mim, é tudo aquilo que usamos como muleta quando não enfrentamos responsável e maduramente uma situação. A demissão da empresa, a perda de uma pessoa próxima e querida, enfim, fatos e situações não tão simples assim, pois só quem sente é quem sabe, mas pode se tornar simples na medida em que encontro a chave para abrir as portas e sair dessa prisão. Muitas vezes a chave não está com a pessoa, pois ela se encontra presa em sua cela e não consegue ver outros horizontes, além daquele projetado em sua mente. Muitas vezes projetamos a chave da nossa libertação no esposo ou esposa, que é quem realmente vai me libertar, achando que essa pessoa é a responsável pela minha felicidade. Pode ser meu colega de trabalho que não faz a sua parte, meu irmão que se joga nas cordas e se faz de louco, deixando tudo para mim. É provável que o outro, fonte onde buscamos a chave para sair, também não possa nos ajudar porque também está preso. E, sabemos, é muito difícil alguém dar algo que não tem. Mais do que estar na prisão, é preciso se perceber nela. Algumas vezes, é claro, a chave pode ser acionada por mim, mas na maioria das vezes é acionada por um terceiro, um terapeuta atento. Mas tanto numa situação quanto na outra, a chave está dentro de cada um de nós, apenas não sabemos onde achar ou então que gavetas de nossa estrutura de pensamento ela se encontra. É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre prisão? Por: Beto Colombo

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Gigantes e destinos

Eu tive um amigo que odiava ser alto e louro. Tinha horror ao seu tamanho que, naquela época, quando éramos todos magros e nanicos, o destacava da massa de moreninhos encurtados. Esse gigantismo criava expectativas sobre ele e, pior que isso, despertava uma curiosidade muitas vezes agressiva. Era americano? Inglês? Alemão? Russo? Sueco? Perguntaram-lhe uma vez numa cidade onde não havia gente alta e loura. "Sou descendente de italianos", respondeu com voz calma o amigo constrangido. Visivelmente aborrecido, pois havia italianos em toda parte, o perguntador arrematou: "Itália, Inglaterra, França, Alemanha é tudo a mesma merda!" E voltou à mesa onde bebericava sua vigésima cerveja. O olhar do meu amigo dizia: "Tá vendo como é chato ser grande?" * * * * Confesso que jamais tinha pensado nesse ônus do gigantismo ou da grandeza. E com isso fui ao Titanic que, neste último dia 10 de abril fez 100 anos de tragédia, justamente porque era um navio "tamanho família" - um Titanic: um titã do mar. Uma obra de navegação marítima que, em 1912, representava o máximo da tecnologia moderna aplicada ao movimento e à mobilidade. Essas coisas que fizeram das viagens, das descobertas, das fronteiras e do contato com o outro o apanágio, senão o centro da nossa ideologia. Mas no caso do Titanic, o dia 10 de abril representou um caso raríssimo de ser a sua virginal e última viagem. Ora, essa reunião nua e crua da primeira com a última vez, esse acidente que a crença no utilitarismo tecnológico, com sua racionalidade aplicada, iria resolver de uma vez por todas como então e ainda hoje supomos foi desmentida. Daí o gigantismo da frustração transformada em tragédia quando o Titanic bateu inesperadamente num mero trivial e, naquelas águas, natural iceberg. Era um navio gigante e, como tal, seu infortúnio chama atenção pelas associações negativas do gigantismo. Porque de certo modo nada pode ocorrer com os grandes. O gigante (como o pigmeu) é uma medida perfeita da alteridade e das alternativas a modos de ser e fazer habituais, conduzindo imediatamente a comparação e a dúvida. Serão normais? Serão mesmo humanos como nós? A excepcionalidade conferida ao que não se destaca como diferente tem de ser controlada. Meu amigo não queria ser um titã, como o Titanic. Vale lembrar ao leitor, entupido de informação inútil, que os titãs eram gigantes e, na mitologia romana, tentaram escalar o céu para destronar, como ainda ocorre em nossos dias, Júpiter, o pai. No Brasil, onde tudo que é estrangeiro já nasce com o sinal positivo do gênio, fiquei um tanto surpreendido com a nossa distância da tragédia do Titanic. Penso que o noticiário sobre o centenário da tragédia se resumiu em anunciar o relançamento do filme de James Cameron em 3D. * * * * Quanto maior o gigante, maior o tombo. O ideal de Babel de chegar ao céu sem sair da terra, unindo este mundo com os outros, é uma velha (e permanente) aspiração humana. Se hoje somos pequenos, feios e fracos, em tempos idos fomos grandes, belos e fortes. Se hoje trabalhamos mais do que burros de carga, vivíamos num mundo de fartura e lazer. Éramos também imortais, até que - num momento específico - alguém (geralmente um ser ambíguo ou inferior - um tipo fora do comum e do lugar como as mulheres num mundo centrado no masculino; os inteligentes num universo de burros; um gordo num mundo de magros; ou um estrangeiro num mundo autocentrado) desobedeceu, errou, esqueceu, não cumpriu uma ordem ou errou o caminho. * * * * De tudo o que li sobre o Titanic, destaco o ensaio jornalístico escrito por Daniel Mendelsohn publicado na New Yorker (de 16 de abril do corrente), no qual ele faz um apanhado dos fatos ligados ao Titanic e desenha com grande sensibilidade o desafio que até hoje temos quando enfrentamos a trivialidade do inesperado, agenciado por esse grande inimigo da modernidade e do iluminismo: o acidente e o não previsto. O que surge, como os pesadelos e os sonhos maravilhosos, quando dormimos; os pensamentos invasivos que nos levam a contradições inafiançáveis; o amor apaixonado que nos faz desprezar mandamentos; a ambição que nos conduz ao antiético e ao crime. No ensaio de Mendelsohn eu aprendi que o navio inafundável que, não obstante, afundou, era de fato a maior metáfora do mundo moderno. Foi quando pensei na figura do Brasil como um gigante. E, com essa imagem, levei um susto. Pois, no nosso hino nacional, somos um gigante adormecido. Eis, pensei, exagerando como sempre faço, um país Titanic que, adormecido por sua própria autopercepção, ronca solenemente diante da solerte roubalheira que impede o seu salto para uma vida social mais justa. Pois tal como o Titanic, somos grandes, mas ainda continuamos a ter gente na primeira, segunda e terceira classe. Ademais, temos poucos botes salva-vidas. Mais: resistimos em conceber um navio com menos diferenças e no qual, como ocorreu no Titanic, muitos morreram por valores como a honra profissional devida ao papel que ocupavam (o capitão afunda com o navio!) Quando em 1912 o Titanic afundou, a pusilanimidade não era ainda parte da estrutura daquele mundo hoje desossado pelo capitalismo financeiro e pela mentira como dimensão crítica da vida. Essa mentira sistêmica que desonra os nossos administradores públicos fascinados pela viagem no poder e não pelo poder como viagem.Por: Roberto da Mata Estado de S. Paulo

terça-feira, 8 de maio de 2012

Idade emocional

Querido leitor, você provavelmente já ouviu falar, muitas vezes, que o animal que mais demora para amadurecer é o ser humano. É claro que esse amadurecimento envolve todo um processo que abrange o sistema nervoso central, ou seja, as questões neurológicas. Também não podemos deixar de trazer as questões físicas e até as emocionais. E é nessa parte, no amadurecimento emocional do ser humano, que quero me ater hoje. A primeira pergunta a ser feita é: quantos anos você tem? A resposta não deve considerar idade cronológica nesta existência, que compreende, para alguns, desde o momento da sua geração até os dias de hoje. Essa conta é muito fácil de ser respondida, para chegar ao número basta conhecer um pouquinho de matemática. Falo da idade emocional. Refiro-me da capacidade de enfrentar os “não” nossos de cada dia, de enfrentar o sentimento de desprezo em determinadas situações e locais, da capacidade de administrar perdas, sejam elas de namorada ou namorado, de emprego, de uma nota baixa na escola, ou até uma negativa do pai de emprestar o carro. Enfim, atenho-me aos momentos em que a vida nos exige habilidades para enfrentar os fatos e, quando imaturos, acabamos por cometer erros e besteiras muitas vezes impossíveis de serem consertadas. Lembro-me de profissionais com mestrado, doutorado e até PhD, referências em suas áreas, mas quando lhe são exigidos algo mais sobre a vida, acocoram diante do desafio, paralisam diante do inusitado e, como avestruz, escondem suas cabeças debaixo da terra. É como se quebrassem a luz vermelha acesa no painel do carro, denunciando a temperatura alta, ingenuamente querendo resolver a situação. Aqui, nesses casos, também podemos falar sobre resiliência, que é a capacidade de enfrentar desafios, resolver problemas, enfrentar situações adversas repetidas vezes sem desânimo. Exemplos, em nossa sociedade, temos muitos de pessoas resilientes, mas parece que cada vez mais estamos tendo dificuldades de enumerar pessoas com essa característica, pois cada vez mais engrossam o caldo daqueles que já não suportam mais perder. Um bom número quer ganhar e não tem sequer paciência para isso. Se não tem paciência para criar as melhores condições de crescer, ganhar e ser melhor, que dirá saber esperar. As organizações, a sociedade, enfim, nossa sociedade está carente de pessoas grandes e maduras. Para mim, não basta só crescer de tamanho, é fundamental nos desenvolvermos por inteiro e o desenvolvimento da idade emocional de acordo com a idade cronológica é fundamental para o ser humano. Parece-me que aprender matemática tem sido mais fácil que aprender a conviver com semelhantes. É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre idade emocional? Por Beto Colombo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Adolescência interminálvel

O mundo nunca foi tão adolescente. A cada quatro terráqueos, um tem entre 10 e 24 anos. São 1,8 bilhão de pessoas nessa idade especial. Mas desde quando um marmanjo de 24 anos é adolescente? Num passado recente não era, mas passou a ser - ou melhor, não deixou de ser. E isso pode virar um problema. Segundo a revista científica The Lancet, a adolescência vem espichando a cada geração, nas duas pontas: a puberdade chega mais cedo, e a maturação do papel social dos jovens ocorre cada vez mais tarde. Basta observar como tem avançado a idade média dos jovens ao terminar os estudos, com que conseguem seu primeiro emprego fixo, quando se casam, e com que as mulheres se tornam mães. Todos esses marcos do fim da adolescência foram adiados nas últimas gerações. As repercussões sociais dessa mudança são maiores do que nos damos conta. Daí o dossiê da The Lancet. A palavra "adolescente" deriva do latim "adolescere", que significa "crescer", "desenvolver-se". Adolescente é quem está crescendo, e adulto, quem já cresceu, já se desenvolveu. Mas o crescimento não se mede pelo número do sapato nem pelo comprimento da barra da calça ou da saia. É uma questão de amadurecimento, de andar com as próprias pernas sem a muleta dos pais. A adolescência começa quando os hormônios da puberdade mudam a fisiologia e a fisionomia das crianças. É uma revolução que transforma todo o corpo, com repercussões do comportamento à capacidade cognitiva do cérebro. Jovens púberes, por exemplo, tendem a questionar regras, buscar novas experiências e tomar atitudes de risco com mais frequência que os impúberes. O coquetel hormonal em ebulição tem impactos diretos sobre a mortalidade. O gosto por arriscar-se faz com que os adolescentes estejam entre as principais vítimas das mortes violentas. Se a adolescência se prolonga, a chance de sucumbir aos seus efeitos também. Nas últimas décadas, o mundo conseguiu reduzir drasticamente a morte na infância. Mas os avanços na redução da mortalidade de adolescentes foram bem menos impressionantes. O Brasil não é exceção. De 1996 a 2010, as mortes de crianças brasileiras com menos de 5 anos caíram praticamente à metade, de 88 mil para 47 mil por ano. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes dessa faixa etária regrediu quase na mesma proporção. Já as mortes e a mortalidade de adolescentes de 10 a 24 anos permaneceram estáveis. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, morreram mais adolescentes do que crianças. E a tendência só se acentuou desde então. Nesses 15 anos, as mortes por causas naturais diminuíram, e as violentas, aumentaram. Morreram mais adolescentes brasileiros por tiro e acidentes de carro e moto, e menos por doenças infecciosas como aids, ou por problemas cardíacos. Foram e continuam sendo vítimas de causas de morte evitáveis, que podem ser amainadas por políticas públicas. Esse não é o único impacto sobre a longevidade. É na adolescência que se formam os hábitos alimentares que vão influenciar a saúde pelo resto da vida. A adolescência tardia também tem consequências positivas, principalmente econômicas. A extensão do período sob o mesmo teto dos pais permite aos adolescentes permanecer mais tempo na escola. Por isso as novas gerações têm potencial para formar a força de trabalho mais qualificada que o Brasil já teve, com impactos positivos sobre a produtividade e a renda. Mas, para esse potencial se concretizar, é preciso que haja oportunidades de emprego compatíveis com essa escolaridade mais alta. O ano de 2011 foi rico em exemplos de como a adolescência estendida tem impactos profundos sobre áreas improváveis, como a política. Os levantes árabes foram impulsionados por essa população adolescente, gente tão jovem quanto os indignados espanhóis, os saqueadores de Londres e os ocupadores de Wall Street. Todos eles buscando seu lugar na sociedade e topando com obstáculos maiores do que seus pais para encontrá-lo. E enquanto não encontram, sua adolescência é interminável.Por: JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, O Estado de S. Paulo

Professores de Corrupção

Platão já ensinava que a desordem se instala na sociedade quando muitas pessoas começam a galgar postos de importância e prestígio para os quais não têm a mínima qualificação. Ninguém é mais imoral nem mais perigoso para a sociedade do que o juiz da conduta alheia que tome a sua própria alma corrompida como medida máxima da moralidade humana. O homem que julga por esse padrão – pior ainda, o que ensina a julgar assim – é uma força dissolvente e corruptora ainda mais daninha do que o imoralista praticante, o bandido, o ladrão que ao menos não faz da sua torpeza pessoal uma teoria, um critério e uma lei. Jean-Jacques Rousseau, que abandonou os filhos num orfanato, mentia mais que um cabo eleitoral, ia regularmente para a cama com as mulheres de seus benfeitores e ainda saía falando mal deles, jurava que em toda a Europa não havia ninguém melhor que ele – e, quando falava de suas altas qualidades morais, derramava lágrimas de comoção. Rousseau tinha ao menos a desculpa de ser louco, mas sua loucura inaugurou a moda universal de tomar o próprio umbigo como ponto culminante da perfeição humana e medir tudo pela distância que vai daí ao chão. Não faltam exemplos disso na mídia nacional. Em artigo recente, o sr. Paulo Moreira Leite jura que todo discurso moralizante é falso, porque "tem como base uma visão fantasiosa das sociedades humanas. Considera que há pessoas de caráter límpido... incapazes... de ter segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada... A vida real não é assim..." O que ele está dizendo é que na vida real não existem – prestem atenção: absolutamente não existem – pessoas "sem segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada". A conclusão é inevitável: se essas pessoas não existem, o sr. Moreira Leite, que existe, não pode ser uma delas. Logo, ele tem segredos inconfessáveis e ambições que condena em público, mas cultiva na vida privada. E notem bem: ele não disse "alimentar em segredo", que ainda poderia ter a acepção de mera fantasia; ele disse "cultivar em privado", isto é, praticar escondido. Ele não se limita, portanto, a sonhar em ser um dia tão bem sucedido quanto os malvados que critica em público: ele se dedica ativamente a emulá-los quando não há ninguém olhando. E não apenas ele é assim, mas não concebe que exista alguém melhor que ele, alguém isento desses defeitos morais abjetos. Ninguém pediu ao sr. Moreira essa confissão de baixeza. Ele a fez porque quis. Se entendesse o que escreve (como se isto não fosse exigir demais!), deveria admitir que ela o desautoriza automaticamente a falar mal de pessoas que, no fim das contas, não têm outro defeito senão o de ser tão ruins quanto ele. Afinal, se não há seres humanos melhores, que possam servir de medida de aferição das virtudes e dos pecados, então só há duas alternativas: condenar os vícios em nome de padrões abstratos confessadamente inatingíveis ou deleitar-se em criticar o mal em nome do mal. A primeira hipótese chama-se moralismo insano, a segunda, fingimento cínico. O sr. Moreira critica a primeira em nome da segunda. Todo julgamento moral sensato deve partir de certas constatações óbvias e autoprobantes. Como o Bem infinito e o Mal absoluto são entidades metafísicas que se furtam à experiência humana, só resta aos nossos pobres cérebros raciocinar em termos relativos, pesar as coisas na balança do melhor e do pior. Para isso, o sujeito tem de ampliar a sua imaginação moral, pelo estudo, pela experiência e pela meditação, numa escala que vai da máxima santidade comprovada à maldade mais extrema registrada nos anais da História. Só quem se entregou a esse exercício por anos a fio tem condições de julgar a conduta alheia objetivamente, e mesmo assim com algum risco de erro. Os demais opinam arbitrariamente, em nome de preconceitos bobocas, preferências subjetivas, caprichos de momento ou interesses camuflados. A imaginação moral do sr. Paulo Moreira Leite é, nesse sentido, a mais atrofiada e mesquinha que se pode conceber. No alto da sua escala de valores, está ele próprio. Em baixo, alguém que não é pior que ele. Em grego, "idios" quer dizer "o mesmo". "Idiotes", de onde veio o nosso termo "idiota", é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez. Que alguém tão obviamente despreparado para opinar em questões de moralidade tenha à sua disposição uma revista de circulação nacional para aí infundir na cabeça do público a miséria dos seus julgamentos é, por si, um sintoma de debacle moral muito mais alarmante, por seus efeitos sociais, do que qualquer caso específico de corrupção, de roubo, de obscenidade, até de violência. Platão já ensinava que a desordem se instala na sociedade quando muitas pessoas começam a galgar postos de importância e prestígio para os quais não têm a mínima qualificação. Isso refere-se principalmente àqueles que hoje chamaríamos "intelectuais" ou "formadores de opinião". Delinquentes, vigaristas e políticos ladrões trazem dano material às suas vítimas, mas só se corrompem a si próprios. Quando a corrupção penetra na alma dos críticos sociais, dos professores de moral, ela se alastra por toda a sociedade.Por: Olavo de Carvalho